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Um puzzle de factos "tradutores de comportamentos sociopáticos". Como duas crianças francesas acabaram abandonadas em Portugal após um jogo com a mãe

23 mai, 08:00
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Como se explica o abandono dos filhos na sequência de um jogo e com mantimentos? Mesmo sem o conhecimento de tudo o que se passou entre França e Portugal, o psiquiatra Vítor Cotovio e a psicóloga Joana Alexandre explicam o que é possível perceber pelos factos já conhecidos

Chama-se Marine Rousseau, é francesa, tem 41 anos, vivia em Colmar, na Alsácia, é sexóloga, estava desaparecida desde 11 de maio, data em que chegou a Portugal, e foi encontrada num café em Fátima depois de ter abandonado os filhos de quatro e cinco anos em Alcácer do Sal.

O facto de estar tranquila quando foi abordada e detida pela GNR, após várias horas de convívio na esplanada de um café, como se aquele momento não envolvesse dois filhos menores encontrados numa estrada nacional a 200 quilómetros de distância, tem gerado várias interpretações sobre as motivações desta mãe, que deixou ainda em França um filho de 15 anos.

Como se explica o abandono dos filhos na sequência de um jogo e com mantimentos? Mesmo sem o conhecimento de tudo o que se passou entre França e Portugal, "há elementos que são muito impactantes e sobre os quais se pode dizer alguma coisa, mesmo que não se saiba todo o contexto", considera o psiquiatra Vítor Cotovio, membro do Conselho Nacional de Saúde Mental, apontando, por exemplo, para os factos já conhecidos que diz serem "cruéis e perversos".

Para o especialista, que é também diretor clínico da Casa de Saúde do Telhal e responsável pelo departamento clínico e técnico-assistencial do Instituto S. João de Deus, uma afirmação ouvida nas últimas horas destacou-se, a de um homem que dizia: "Deitaram-nos fora". "Não há expressão mais impactante do que esta", sublinha o psiquiatra, que destaca, uma vez mais, a "crueldade enormíssima" que ocorreu na Nacional 253, entre a Comporta e Alcácer do Sal. 

"É suposto que os pais, mãe e pai, assegurem os princípios sagrados que são garantir segurança, saúde, educação e bem-estar. E tudo isto foi comprometido. Estes são factos, independentemente de não sabermos os motivos, que, quando são comprometidos, são tradutores de comportamentos sociopáticos. Ou seja, de alguém que não tem a capacidade de empatia, de se colocar no lugar dos filhos - que é o extremo da nossa reserva empática. Podemos não ter empatia com outras pessoas ou situações, mas com os filhos é muito complexo não a ter", explica Vítor Cotovio, lembrando que "se alguém factualmente tem o interruptor de empatia avariado e o remorso da culpa, se essa luz não acende, ficamos perante algo que é muito cruel".

"Fenómenos complexos e multifatoriais"

A psicóloga Joana Alexandre, membro da direção da Ordem dos Psicólogos, explica que os "fenómenos de abandono parental são fenómenos complexos e multifatoriais" e é por isso que prefere não analisar o caso de Marine Rousseau em detalhe. "É muito difícil considerarmos que existe um único fator como causa, podemos falar de um conjunto de fatores de risco, sendo que agora será fundamental que seja feita uma avaliação compreensiva", esclarece.

Segundo a especialista, este conjunto de fatores de risco pode estar ligado a várias variáveis individuais, mas também podem ser constituídos por variáveis familiares ou sociais. "Pode haver aqui uma história e é, por isso, que é importante avaliar a história de vida desta pessoa, porque pode haver um historial de dificuldades de vinculação, um trauma passado, um historial de negligência, há inclusive situações em que há padrões intergeracionais de abandono", aponta a psicóloga, que não exclui também que Marine Rousseau tenha sofrido "uma vivência de violência doméstica".

"O papel de um psicólogo nestes contextos de avaliação forense deve ser um papel cauteloso, de alguém que procura peças como se fosse um puzzle e ao encontrar diferentes peças pode-se efetivamente chegar a esse perfil", resume Joana Alexandre.

Vítor Cotovio destaca "outra situação muito complexa", "um detalhe em concreto" que parece passar despercebido e que exponencia o terror que estas duas crianças viveram: "Serem abandonados dentro de um jogo e vendados."

O médico realça que os "seres humanos precisam de história para dar sentido à vida", mas "há boas histórias e más histórias" e os jogos são isso mesmo para as crianças: "São transmissores de valores e convém que sejam bons jogos."

"Uma criança que está a crescer e é vendada internaliza a segurança, não vê os pais mas depois quando tira venda sabe que estariam lá. Agora, se a criança é vendada e depois os pais não estão lá, isto dá um desespero de desamparo e abandono horrível", explica. "É de uma enorme perversão", reforça.

"O jogo e o vendar, metaforicamente, é altamente perverso. É como digo, não sei os motivos e não sei o contexto, mas os factos em si justificam esta análise", argumenta o psiquiatra.

Joana Alexandre lembra, no entanto, que esta é uma "mãe que não viajou sozinha, estava acompanha e que foram estes dois adultos que cometeram o crime". "Temos de recolher dados da mãe, dados do companheiro, informação que possa existir no próprio país de origem", indica.

Água, fruta, bolachas e roupa

Quando foram abandonados em Alcácer do Sal, Zacharie e Barthélémy tinham na sua posse uma mochila com água, fruta, bolachas e roupa, facto que também levanta uma dúvida: por que se preocuparia Marine Rousseau em deixar mantimentos aos filhos se planeava abandoná-los?

Para Vítor Cotovio, se é certo que os mantimentos dariam para "um bocado de tempo" até que as crianças fossem encontradas por alguém, "a questão que se coloca é como se, de alguma forma, isso mitigasse o peso de consciência" da mãe. "Como se estivesse a minimizar simbolicamente: com uma garrafa de água e uma maçã não estou a salvaguardar a segurança das crianças, estou mais a comprar a minha consciência, porque tive um gesto que simbolizava alguma coisa segura", analisa.

Joana Alexandre considera que é preciso destacar outro ponto: "Houve um popular que encontrou estas crianças e que escutou estas crianças." A psicóloga destaca a importância de um homem, Alexandre Quintas, padeiro, que, mesmo sem conhecer aqueles dois irmãos, foi capaz de "algum modo" fazer com que se "sentissem acolhidos" por um completo estranho.

"Estes populares e depois as autoridades competentes souberam ouvir efetivamente estas crianças, porque as crianças também poderiam não ter conseguido reportar o que tinha ocorrido", observa Joana Alexandre, enaltecendo: "Isso é mesmo muito importante e acho que ainda não foi destacado."

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