Rosto do União Nacional, Le Pen acaba de ser condenada a quatro anos de prisão, dois deles em prisão domiciliária, e está impossibilitada de se candidatar a cargos públicos, inclusivamente ao cargo de Presidente nas eleições de 2027
“É um bocado amador”, dizia na semana passada ao Politico um deputado do União Nacional (RN), numa referência à falta de preparação e comunicação interna da extrema-direita francesa sobre o que esperava o seu astro maior, Marine Le Pen, esta segunda-feira.
A data era aguardada pelo menos desde novembro, mês em que o Ministério Público francês pediu que a ex-eurodeputada e aspirante a presidente de França fosse declarada culpada de desvio de fundos europeus, condenada a pena de prisão e impedida de se candidatar a cargos públicos por causa do esquema.
Em causa está um processo que visa não apenas o rosto do RN mas outras 24 pessoas, entre atuais e antigos deputados e eurodeputados franceses, pelo uso ilícito de fundos do Parlamento Europeu – desviados para pagar a assistentes parlamentares por serviços do partido e não da UE. Os crimes ocorreram entre 2004 e 2016 e quer Le Pen quer os seus coarguidos desmentiram sempre todas as acusações.
Chegado o dia, um tribunal de Paris seguiu as recomendações dos procuradores e, esta manhã, declarou Marine Le Pen culpada, a par de outros oito políticos franceses. A sentença tem efeito imediato: quatro anos de prisão, dois deles em prisão domiciliária, e cinco anos impossibilitada de se candidatar a cargos públicos, o que a impede de se candidatar às eleições presidenciais de 2027. Sob a mesma sentença, pode manter-se na vice-presidência do RN, mas terá de abandonar esse cargo se houver eleições legislativas até 2030.
“Isto pode ser o fim da carreira política de Le Pen”, destaca à CNN o analista francês Julien Hoez, editor do The French Dispatch. “Também significa que o provável candidato do RN às presidenciais será Jordan Bardella, tido como demasiado verde para ser um candidato forte, e que terá dificuldades em sacar os números [de apoios] que Le Pen tem conseguido angariar.”
"Bardella entregue a si próprio"
A seis meses de completar 30 anos, Jordan Bardella é a figura que se segue com a saída de cena de Marine Le Pen, um jovem que a líder do RN tem mantido debaixo da sua asa numa jogada de aproximação ao eleitorado jovem, mas que “não se afigura tão competente” quanto a sua mentora, adianta o analista.
“Bardella beneficia de estar na sombra de Le Pen, e com o afastamento dela fica entregue a si próprio”, refere Julien Hoez. “Provavelmente iremos vê-lo com dificuldades, após ter perdido uma série de debates antes das eleições europeias de 2024 e outros debates internos, sendo possível que venha a ter um desempenho tão mau nos debates presidenciais quanto Le Pen em 2017, quando teve um colapso político.”
Nesse ano, o centro e a esquerda juntaram-se para dar a vitória a Emmanuel Macron nas presidenciais, numa dura derrota política para a filha de Jean-Marie Le Pen, fundador e líder da Frente Nacional – União Nacional – de 1972 a 2015. Com a subida de popularidade da extrema-direita por toda a Europa, Marine Le Pen reinventou o partido e, nos últimos anos, tentou passar uma imagem de maior moderação já de olho nas próximas presidenciais – mas tudo cai agora por terra com esta condenação.
Sendo expectável que Le Pen interponha recurso à sentença (abandonou o tribunal ainda antes da leitura da sentença e nada disse publicamente até à publicação deste artigo), é também expectável que a decisão final por um tribunal superior demore alguns meses. E, até lá, é Bardella quem fica ao leme do partido, sendo que “ele já mostrou que tem dificuldades em seguir e liderar” em termos políticos.
Questionado sobre se este cenário pode alterar-se em dois anos, até à data das presidenciais, Hoez diz ser improvável que surja uma outra figura capaz de unir tanto o eleitorado do RN como Marine Le Pen, cuja única hipótese de se candidatar em 2027 é ver aprovado o seu potencial pedido de recurso. “Algumas pessoas gostariam de ver Florian Philippot ascender a esse papel, mas [o ex-vice do RN] também é muito impopular e foi posto de lado há muito tempo, pelo que teria uma árdua batalha pela frente”, adianta o analista.
"Le Pen é a razão pela qual as pessoas votam RN"
Assim que a sentença foi lida, pouco depois de Hoez antecipar à CNN que esta condenação ia provavelmente "reforçar os adeptos das teorias da conspiração, que vão queixar-se do deep state", começaram a surgir as primeiras reações fora de França.
Na rede social X, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, publicou simplesmente: "Je suis Marine!". Na mesma rede, Matteo Salvini, do partido de extrema-direita italiano Liga Norte, foi mais longe, referindo que "aqueles que têm medo do julgamento dos eleitores são muitas vezes tranquilizados pelo julgamento dos tribunais", comparando a condenação de Le Pen ao afastamento de Calin Georgescu das presidenciais da Roménia.
"Esta é uma declaração de guerra de Bruxelas, numa altura em que os impulsos bélicos de Von der Leyen e Macron são assustadores", adiantou Salvini. "Não nos deixamos intimidar, não paramos: a todo o vapor, minha amiga!"
A partir de Moscovo, o porta-voz do Kremlin disse que a Rússia não quer "interferir nos assuntos internos de França", não sem antes sublinhar que "mais e mais capitais europeias estão a seguir o caminho do atropelo dos princípios democráticos".
Enquanto Le Pen não quebra o silêncio sobre um potencial recurso à sentença, a sua condenação marca, acima de tudo, um enorme revés para a extrema-direita em França.
“Ainda que muitas pessoas a considerem tóxica no que diz respeito às suas visões políticas, Marine Le Pen é a razão pela qual as pessoas votam no RN, porque é uma figura aparentemente agradável e competente”, adianta Hoez. E essa razão, pelo menos para já, acabou de desaparecer de cena.