O protesto de Marina foi inspirador. As demissões que se seguiram nos media russos

17 mar, 12:58
Zhanna Agalakova, Lilia Gildeyeva e Vadim Glusker (Redes Sociais)

Jornalistas, editores e pivôs têm renunciado aos cargos desde o início da guerra. Alguns deles, agora motivados pelo ato de coragem da produtora do canal 1 russo

Depois de uma produtora russa ter sido detida por invadir em direto o estúdio do noticiário da noite do canal 1 russo, com um cartaz antiguerra, as televisões estatais russas têm sofrido uma onda de demissões. É o efeito da guerra, mas também de Marina Ovsyannikova. Foram poucos segundos, mas importantes para a produtora passar uma mensagem e encorajar outros colegas a tomarem uma posição sobre a invasão russa da Ucrânia. 

Logo após o protesto de Marina, surgiu a primeira demissão no canal 1 russo: Zhanna Agalakova, pivô e correspondente na Europa. Ivan Urgant, um dos maiores apresentadores de talk-show da Rússia, e que tem o programa "Evening Urgant" em horário nobre no mesmo canal, decidiu fazer uma pausa "para umas férias". No entanto, numa publicação no Instagram, revelou ser contra a guerra. 

Já na NTV, apresentaram a demissão Lilia Gildeyeva - pivô que já trabalhava no canal desde 2006 e que, entretanto, terá também fugido do país - e Vadim Glusker - jornalista no canal há quase 30 anos. 

Zhanna Agalakova (Canal 1), Lilia Gildeyeva (NTV) e Vadim Glusker (NTV)

A RT tem sido o órgão de comunicação social russo que tem tido o maior número de demissões desde o início da guerra, porque além dos jornalistas russos, a trabalhar em Moscovo, houve correspondentes que também bateram com a porta. 

Shadia Edwards-Dashti era correspondente em Londres. No dia em que começou a guerra, anunciou no Twitter que se tinha despedido. No mesmo dia, o jornalista Jonny Tickle revelou que tinha rescindido o contrato "com efeitos imediatos". 

Frédéric Taddeï, jornalista e apresentador do "Interdit d'interdiction" na RT France, disse que ia deixar de apresentar o programa porque França estava "num conflito aberto" com a Rússia, mas também "por lealdade" ao seu país. Já estava no canal desde 2018. 

Uma das reações mais faladas tem sido a de Maria Baronova, agora ex-editora-chefe da RT, que abandonou recentemente o canal televisivo. Antes de se juntar à RT, em 2019, chegou a estar presa por fazer oposição ao governo. Na altura, trabalhava para a Rain, o principal canal de independente da Rússia e muito crítico de Putin.

Maria Baronova (AP Photos)

A BBC diz ainda que existem rumores, não confirmados, que muitos jornalistas bateram com o porta da estação estatal de rádio e televisão russa VGTRK. A Reuters fala em "série de demissões" na agência de notícias estatal russa Ruptly.

Recorde-se que, a 2 de março, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que o Conselho da União Europeia tinha decidido "suspender a distribuição dos jornais estatais russos Russia Today e Sputnik na UE" a partir daquele mesmo dia. 

"Em tempos de guerra, as palavras importam. Estamos a testemunhar propaganda maciça e desinformação sobre estes ataques escandalosos a um país livre e independente. Não vamos permitir que os apologistas do Kremlin derramem as suas mentiras tóxicas para justificar a guerra de Putin ou semear a divisão na nossa União", lê-se no comunicado. 

A 4 de março, a BBC anunciava que ia "suspender temporariamente" o trabalho de todos os jornalistas e profissionais da BBC News na Rússia. Na altura, o diretor-geral da BBC, Tim Davie, explicou que a decisão estava relacionada com a nova lei do jornalismo que parecia "criminalizar o processo de jornalismo independente". 

A lei em causa passa a prever a possibilidade de condenar aqueles que espalhem informação "falsa" sobre as forças armadas russas, o que pode resultar mesmo em penas de prisão.

Os media pró-Putin que já estão a sofrer sanções

Alguns dos que são considerados como divulgadores da propaganda de Vladimir Putin já estão a ser alvo das sanções europeias. É o caso de Vladimir Solovyov. Jornalista, apresentador do talk-show de domingo à noite "Evening With Vladimir Solovyov" no canal público Rossiya 1 e conhecido por ser um propagandista russo. Solovyov já lamentou publicamente, durante o programa, o facto de ter sido proibido de viajar até às suas propriedades multimilionárias em Itália.

Na lista de sanções também já está Margarita Simonyan, editora-chefe do canal de televisão RT, controlado pelo Estado.

Vladimir Putin e Vladimir Solovyov juntos em 2013 (RIA/Mikhail Metzel)

 

Vladimir Putin e Margarita Simonyan juntos em 2013 (AP Photos)

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