Produtora russa foi interrogada mais de 14 horas e esteve dois dias sem dormir

Cláudia Évora , Notícia atualizada às 11:36 com declarações à Reuters
16 mar, 09:34

Marina Ovsyannikova foi impedida pelas autoridades russas de contactar o advogado, familiares ou amigos

Depois de ter sido detida pelas autoridades russas, Marina Ovsyannikova esteve incontactável quase 24 horas. Ninguém sabia do seu paradeiro, nem mesmo o advogado Anton Gashinsky. A produtora do canal russo 1, detida por ter invadido o estúdio em direto e ter-se colocado atrás da pivô com um cartaz antiguerra, disse à saída do tribunal, em Moscovo, que foi interrogada durante várias horas seguidas, sem poder contactar o advogado, familiares ou amigos. 

"Foram dias complicados, porque fiquei dois dias sem dormir. O interrogatório durou mais de 14 horas. Não me deixaram contactar os meus familiares, nem me foi dado nenhum apoio jurídico", explicou aos jornalistas, à porta do Tribunal Distrital de Ostankinsky.

Marina garantiu que não tinha intenções de organizar uma manifestação pública não autorizada e que tomou a decisão de invadir o estúdio sozinha. "Foi a minha decisão antiguerra. Eu tomei esta decisão sozinha, porque não apoio a invasão da Rússia. Isto é terrível". A produtor aproveitou ainda para agradecer "o apoio de todos, amigos e colegas".

No entanto, não se sabe quais são as consequências por ter invadido o estúdio, uma vez que a multa de 30 mil rublos, aproximadamente 256 euros, que Marina Ovsyannikova foi condenada a pagar, é referente ao vídeo que gravou e publicou nas redes sociais, no qual disse tudo o que não conseguiu escrever no cartaz que exibiu em direto. 

"Infelizmente, nos últimos anos, trabalhei no canal 1, trabalhei para a propaganda do Kremlin. Agora, tenho muita vergonha. Tenho vergonha por ter permitido que as mentiras fossem ditas nos ecrãs das televisões", afirmou nesse vídeo. 

Numa publicação no Twitter, antes da conta ter sido desativada, Marina admitiu que, à luz da justiça russa, e com a recente lei que proíbe atos públicos que desacreditem o exército, poderia enfrentar uma pena de prisão entre os cinco e os 10 anos. 

Entretanto, esta quarta-feira, numa entrevista exclusiva à agência Reuters, Marina Ovsyannikova afirmou estar extremamente preocupada com a sua segurança. Ainda assim, tem esperança que o protesto que levou a cabo não tenha sido em vão. A produtora russa disse também que não planeia sair do país e espera não enfrentar quaisquer acusações.

O incidente aconteceu na segunda-feira, por volta das 21:30 (horas locais, menos três em Lisboa). Marina Ovsyannikova, editora e produtora do canal televisivo, invadiu o estúdio, colocou-se atrás da colega Ekaterina Andreeva, e empunhou um cartaz com as frases: "parem a guerra", "não acreditem na propaganda" e "aqui, estão a mentir-vos".

As televisões russas "têm optado" - a utilização das aspas deve-se ao facto do governo russo controlar os meios de comunicação social estatais - por não transmitir imagens da guerra. Expressão que, tal como Vladimir Putin, se recusam a utilizar, dizendo sempre que se trata de uma "operação militar especial" para "desnazificar" a Ucrânia. 

Na terça-feira, em comunicado, o Kremlin classificou este protesto como um ato de hooliganismo. "No que diz respeito a esta mulher, isto é hooliganismo", escreveu o porta-voz Dmitry Peskov.

Por sua vez, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, através do Telegram, deixou uma palavra de agradecimento pela coragem deste gesto de resistência: "Sou muito grato aos russos que não param de tentar transmitir a verdade, que lutam contra a desinformação". 

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