Morte de estudante em viagem de finalistas. Como é que se lida com a morte de um colega e quais as principais reações?

12 abr, 21:16
Marina d'Or, em Espanha, é um dos locais de eleição dos estudantes portugueses para as viagens de finalistas (fonte: Getty)

Susana Gouveia, psicóloga especialista em psicotraumatologia, explica o impacto que a morte do jovem de 18 anos em Marina d'Or, em Espanha, pode ter nos colegas da vítima e deixa algumas conselhos para lidar com este trauma

Durante a madrugada desta terça-feira, morreu um dos seis mil jovens portugueses que se encontram em Marina d'Or, em Espanha, em viagens de finalistas. Como devem os colegas lidar com esta tragédia? Deverão antecipar o regresso a Portugal? Nem todos os jovens lidam da mesma maneira, começa por sublinhar Susana Gouveia, psicóloga especialista em psicotraumatologia.

A psicóloga refere que num episódio disruptivo e potencialmente traumático, como a morte de alguém que nos é próximo, são “as características das pessoas que vão ditar como vão lidar com o que testemunharam”. Por isso, torna-se imperativo “perceber quais os recursos internos que estes jovens já tinham antes deste acontecimento potencialmente traumático”, argumenta. “Não é o evento, mas o modo como se lida com ele”

“Cada um de nós tem uma mochila com ferramentas para lidar com estas situações. Estes eventos formam um crescimento traumático, ou seja, aprendemos algo a cada situação que teve uma carga traumática ao mesmo tempo que a resiliência vai robustecendo a nossa capacidade de lidar com elas”, explica a psicóloga Susana Gouveia.

A especialista enumera ainda um conjunto de outras variáveis que podem influenciar o modo como estes estudantes serão capazes de lidar com aquilo que testemunharam como, por exemplo, a proximidade com a vítima, o contexto em que a morte ocorreu e a sua rede de suporte social e familiar.

A psicóloga alerta que estes jovens foram expostos a “uma situação potencialmente traumática” e que os que eram mais chegados à vítima “já deveriam estar a receber apoio psicológico”. “É importante que lhes seja prestado um apoio precoce”, sublinha.

Ainda assim, Susana Gouveia lembra que será preciso algum tempo para que se perceba se esta ocorrência “pode provocar algum tipo de trauma” no resto dos estudantes. “Um diagnóstico de, por exemplo, stress pós-traumático, só pode ser feito pelo menos um mês ou um mês e meio após o evento disruptivo”, realça a especialista.

"Podia ter sido comigo": o que poderão os jovens estar a pensar?

O jovem, natural de Alcobaça, ter-se-á sentido mal devido a uma patologia de que sofria, como se pode ler no comunicado da empresa responsável pela organização da viagem, mas as causas da morte ainda estão a ser apuradas pelas autoridades judiciais.

A psicóloga considera que este é outro fator decisivo para o modo como estes jovens vão lidar com o sucedido. Susana Gouveia explica que uma morte por causas naturais, como uma doença, terá à partida um impacto menor do que um acidente ou homicídio, que poderão suscitar nestes alunos algumas interrogações e inquietações, o sentimento de que “podia ter sido comigo” aliado a uma “sensação de impotência”.

“A natureza da carga do evento tem sempre um impacto diferente. Uma intenção de magoar tem uma carga potencialmente traumática maior. Os eventos de natureza traumática diferem a sua carga potencialmente traumática consoante são provocados por mão humana ou por uma causa natural”, esclarece a especialista em psicotraumatologia.

Devem os jovens regressar imediatamente a Portugal?

Em entrevista à CNN Portugal, o intendente e porta-voz da Polícia de Segurança Pública (PSP) Nuno Carocha explicou que, tendo em conta a experiência do passado, perante a morte de um dos seus elementos, os colegas tendem a regressar a Portugal "assim que possível".

A especialista em psicotraumatologia refere que “o facto de poderem lá ficar ou não tem muito a ver com a proximidade”, acrescentando que haverá benefícios claros de antecipar o regresso no caso dos jovens que eram próximos da vítima. O suporte da família poderá tornar mais fácil o processamento da dor.

“A perda de um filho é algo contranatura”

Quanto aos pais da vítima, a especialista em saúde mental defende que o apoio psicológico “não é mandatório”, mas que é benéfico. “Espero que já estejam a receber tratamento psicológico”, argumenta Susana Gouveia, lembrando que “a perda de um filho é algo contranatura”.

Os pais podem querer mesmo ir até ao local da morte do filho e isso pode ser importante na gestão do luto, explica Susana Gouveia. “Pode facilitar o processo de luto, mas ir ao local acompanhado por um psicólogo seria o ideal”, acrescenta a especialista em psicotraumatologia.

Tal como acontece com os colegas, a psicóloga afirma que para os progenitores a causa da morte também poderá ser um fator com impacto direto no processo de luto, devido a sentimentos de “culpabilização” que possam surgir.

“A natureza do evento terá sempre um impacto grande na forma como nos posicionamos perante a realidade”, diz a psicóloga.

Tendo em conta que se trata de uma situação “antinatura”, Susana Gouveia subinha que todos os cenários referidos são “uma reação normal perante um evento anormal”.

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