Vereadora foi morta em março de 2018; principais mandantes foram condenados pela Suprema Corte brasileira nesta quarta-feira
Após oito anos da morte da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do motorista Anderson Gomes, os mandantes do assassínio foram condenados, por unanimidade, pela Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) do Brasil. Com o fim do julgamento, a família confessa que sente "alívio".
Os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, principais mandantes da morte da vereadora, foram condenados a cumprir pena de 76 anos e 3 meses.
Eis o que disseram os familiares de Marielle:
Anielle Franco, irmã
Anielle Franco, irmã de Marielle e ministra de Estado do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), disse que a decisão do STF é um "recado" para quem troçou do assassínio da vereadora.
"Isso hoje é um recado à parcela da sociedade que troçou da morte da minha irmã, que a considera como um elemento descartável, como se fosse só mais uma, em todo o ano eleitoral", disse Anielle.
"A estrutura que leva a minha irmã a ser assassinada e pessoas que tentam diminuir esse facto precisa de parar. Hoje. Urgentemente. Sempre que falámos em justiça, éramos motivo de chacota", completou.
Marinete da Silva, mãe
A mãe da vereadora, Marinete da Silva, classificou a data como simbólica para a família e disse que a resposta aguardada, finalmente foi dada.
“Hoje tivemos essa resposta. É um alívio, mas também não acaba hoje. Temos um júri popular para acontecer e espero que seja positivo. A pergunta que ecoava era quem mandou matar Marielle e hoje tivemos a resposta. Saímos de cabeça erguida", declarou.
Luyara Santos, filha
Em conferência de imprensa, a filha da vereadora, Luyara Santos disse que a justiça é “reparação” e também uma “resposta aos eleitores”.
Luyara relembrou ainda episódios de “picos de pressão e ansiedade” que logo a seguir à morte da mãe.
"Não conseguimos não relembrar tudo que aconteceu em março. Foram picos de pressões e de ansiedade. Queria agradecer e salientar a coragem da nossa família. É um alívio saber a resposta, mas a justiça é muito maior que isso. É reparação, é não repetição. É uma resposta aos eleitores também".
Mónica Benício, viúva
Numa nota enviada às redações, a viúva de Marielle celebrou a condenação dos acusados e apelou para que se mantenha a pressão por novas apurações, com foco na atuação do delegado Rivaldo Barbosa.
"Permanece o receio de estarmos a deixar passar outros em que as provas se demonstraram frágeis. Por isso, precisamos de manter a pressão pela continuidade das investigações, principalmente em relação à atuação do Delegado do Crime, Rivaldo Barbosa", defendeu, numa nota enviada à comunicação social.
"As condenações não apagam a nossa dor, mas, de certa forma, aliviam a angústia que sentimos por oito longos anos, em que procurámos respostas e a penalização dos criminosos responsáveis por esse horror", completou.
António Francisco Silva, pai
O pai de Marielle, António Francisco Silva, agradeceu à imprensa e saudou que o crime tenha chegado a uma “decisão final”.
"Tive um pico de pressão alta e não estou a sentir-me bem para falar. Peço desculpa. Agradeço toda a cobertura que fizeram nesses quase oito anos de angústia. Chegámos hoje a uma decisão final. Vocês também fazem parte disso", disse, em conversa com jornalistas.
Condenação
Domingos Brazão, ex-conselheiro do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro), terá ordenado o assassínio de Marielle por interesses económicos ligados à regularização fundiária em áreas do Rio dominadas por milícias, segundo a PGR (Procuradoria-Geral da República).
O irmão de Domingos, Francisco Brazão, conhecido como Chiquinho, era vereador da capital fluminense à época do crime. A PGR aponta que ele e Domingos agiram em conjunto na decisão de matar Marielle.
A vereadora, então colega de Chiquinho na Alerj (Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro), teria tido confrontos políticos sobre projetos de regularização urbana e uso do solo com os irmãos.
A acusação da PGR argumentou que ambos integravam uma organização criminosa com atuação na Zona Oeste do Rio, ligada a milícias, grilagem de terras e formação de currais eleitorais.
A dupla foi condenada pelos seguintes crimes:
- duplo homicídio;
- tentativa de homicídio;
- organização criminosa armada
Além dos irmãos Brazão, também foram condenados:
Rivaldo Barbosa: ex-chefe da Polícia Civil que atuou para cobrir o crime;
Ronald Pereira: policial militar reformado que monitorizou a rotina de Marielle para passar as informações aos assassinos;
Robson Calixto: ex-assessor e homem de confiança de Domingos Brazão que atuou em atividades relacionadas à exploração imobiliária irregular em áreas sob influência de milícias.
Os cinco réus também foram condenados a pagar uma indemnização de sete milhões de reais, de forma dividida, para os familiares de Marielle e Anderson.
Em 2024, o júri popular também condenou Ronnie Lessa, que realizou os disparos contra a vereadora e o motorista; e Élcio de Queiroz, que conduzia o carro usado na noite do crime.