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"Não acordo a pensar que sou a primeira mulher, acordo a pensar em como ajudar a minha equipa"

24 mai, 15:00
Marie-Louise Eta
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ENTREVISTA || Marie-Louise Eta tornou-se a primeira mulher a liderar uma equipa masculina num dos principais campeonatos da Europa. Entre a pressão mediática, a relação com o balneário e a necessidade permanente de conquistar credibilidade, a treinadora fala, em entrevista exclusiva à CNN Portugal, sobre o momento histórico que viveu no Union Berlin e sobre a forma como aprendeu a afirmar-se num dos ambientes mais competitivos do desporto mundial

NOTA: Esta publicação é a versão integral da entrevista que deu origem ao texto "Um estádio inteiro levantou-se para chamar a uma treinadora "deusa do futebol"

 

A história do futebol europeu masculino sempre foi escrita quase exclusivamente pelos mesmos protagonistas. Durante décadas, os bancos técnicos das grandes ligas permaneceram um espaço fechado às mulheres porque raramente lhes foi dada a possibilidade de chegar até ali. Mas, no passado mês de abril, Marie-Louise Eta mudou isso.

A treinadora alemã tornou-se a primeira mulher a assumir o comando de uma equipa masculina na Bundesliga, um dos campeonatos mais exigentes do futebol europeu. O momento teve impacto muito para lá da Alemanha e colocou-a imediatamente no centro de uma discussão que ultrapassa resultados, tática ou classificações: estará finalmente o futebol masculino preparado para olhar para treinadoras como algo normal?

Marie-Louise Eta, porém, prefere recentrar constantemente a conversa no jogo. Na liderança, nos jogadores, no trabalho diário. Ao longo da entrevista à CNN Portugal, evita transformar-se num símbolo maior do que o futebol, mas reconhece o peso inevitável daquilo que representa para uma nova geração de mulheres que tenta abrir caminho num meio ainda profundamente masculino.

O que significa tornar-se a primeira mulher a assumir o comando de uma equipa masculina na Bundesliga?

É uma grande honra, mas também uma responsabilidade. Não acordo de manhã a pensar que sou a primeira mulher, acordo a pensar em como ajudar a minha equipa. Ao mesmo tempo, sei que este passo é simbólico para muitas pessoas que se preocupam com as mulheres no futebol. Estou grata pela confiança que o clube depositou em mim e tenho plena consciência de que estou a dar continuidade ao trabalho de muitas mulheres que vieram antes de mim.

Tem consciência do impacto que a sua presença pode ter nas futuras gerações de treinadoras?

Sim. Quando comecei, havia muito poucos modelos visíveis nesta área. Se a minha presença tornar um pouco mais fácil para uma jovem imaginar-se na linha lateral de uma equipa profissional masculina, isso significa muito para mim. Mas também espero que, no futuro, isto seja algo normal e não algo especial que precise de ser constantemente destacado.

Sente que teve de trabalhar mais do que os seus colegas homens para conquistar credibilidade neste meio?

Não gosto de comparar diretamente, porque cada percurso é diferente. No final, a credibilidade vem da competência e do trabalho diário; se os jogadores perceberem que aquilo que o treinador faz os ajuda, aceitam-no, independentemente do género.

Já foi desrespeitada ao longo do seu percurso? Como lidou com isso?

Tento não levar isso para o lado pessoal. Concentro-me no meu trabalho, em ser profissional e em comunicar de forma clara. Quando algo ultrapassa os limites, deve ser tratado diretamente. Mas muitas vezes a melhor resposta é manter a calma, fazer bem o trabalho e deixar que o tempo e os resultados mudem a perceção das pessoas.

Acha que não partilhar certos momentos de balneário com os jogadores afeta a sua relação com a equipa? 

A relação com a equipa constrói-se com confiança, honestidade e clareza, não por estar presente em todos os momentos. Existem limites práticos que todos respeitam, mas isso não impede ligações fortes. Estou presente no campo, nas reuniões, nas conversas individuais. Os jogadores sabem que sou acessível e que estou ali por razões futebolísticas. Quando o enquadramento profissional é claro, essas questões não são um problema.

Que tipo de liderança procura construir com um grupo que não está habituado a ser treinado por uma mulher?

A minha liderança baseia-se na clareza, consistência e respeito. Desde o primeiro dia, tento ser muito transparente quanto às expetativas e à forma como queremos trabalhar. Ouço muito, mas também tomo decisões e mantenho-as. Os jogadores rapidamente percebem que os padrões são os mesmos para todos. Quando veem que a liderança é justa e focada no desempenho, o facto de eu ser mulher torna-se menos importante do que o trabalho diário que fazemos juntos.

Como definiria a sua identidade como treinadora?

Vejo-me como uma treinadora muito orientada para a equipa, comunicativa e focada nos detalhes. Valorizo a estrutura e a organização, mas também o lado humano do jogo. Gosto de compreender a pessoa por detrás do jogador, porque isso muitas vezes determina até onde alguém consegue chegar.

Acredita que o futebol masculino está preparado para abrir portas a mais treinadoras, ou continuamos a olhar para casos excecionais?

A porta está mais aberta do que estava antes. Há progresso, mas ainda não é normal ver mulheres nestas posições. Ainda há passos a dar para uma mudança real. Isso exige coragem e paciência. Espero que o meu caso, e outros, possam ajudar a mostrar que resulta, e que com o tempo isto passe a fazer parte do futebol do dia a dia.

Este momento pode mudar permanentemente o rumo da sua carreira?

Este momento será sempre um marco na minha carreira. Trabalhar como treinadora a este nível é uma experiência intensa que nos molda profissional e pessoalmente. Não define tudo aquilo que sou como treinadora, mas é um capítulo importante que vai influenciar a forma como vou trabalhar no futuro.

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