FUTEBOL || Este domingo fez-se história na Bundesliga, mas o nome de Marie-Louise Eta já vinha a construir esse momento há anos. Ex-jogadora internacional alemã e campeã europeia, tornou-se uma das treinadoras mais promissoras do futebol europeu e a primeira mulher a liderar uma equipa masculina num dos principais campeonatos da Europa
Nunca uma mulher tinha chegado ali.
Nem no banco, nem na linha lateral, nem na cadeira onde se tomam decisões que valem milhões e definem destinos. Durante décadas, foi um território fechado, ocupado sempre pelos mesmos perfis. Até este domingo.
Mais de duas décadas depois de experiências isoladas no futebol europeu - como a de Carolina Morace, em 1999, ou de Corinne Diacre, em França - nenhuma mulher tinha assumido o comando de uma equipa masculina numa das cinco principais ligas europeias. Foi na Bundesliga, onde a tradição raramente admite desvios, que Marie-Louise Eta se tornou a primeira. Um momento histórico que, para a própria, nunca foi um objetivo declarado.
“Sei que tenho uma característica que me distingue”, afirmou, anos antes, quando era a única mulher num curso de treinadores. “Pode ser interessante para alguns, mas não quero assumir um papel especial.”
Ainda assim, a diferença esteve presente desde cedo. Foi a única mulher entre 16 participantes no curso Pro Licence da federação alemã - o mais elevado nível de formação de treinadores, no qual nem o seu marido (também treinador) conseguiu aprovação nas provas para entrar - onde apresentou sessões práticas perante centenas de técnicos e contactou diretamente com nomes como Jürgen Klopp.
Uma decisão histórica num clube em queda
A oportunidade acontece num momento de pressão para o Union Berlin. Com cinco jornadas por disputar, a equipa segue no meio da tabela, mas com uma vantagem cada vez mais curta para a zona de descida, depois de uma segunda volta descrita internamente como “absolutamente dececionante” e apenas duas vitórias em 14 jogos em 2026.
A direção deixou de acreditar na capacidade de recuperação com a estrutura técnica existente e procurou uma solução imediata.
Marie-Louise Eta já fazia parte da estrutura e, até aqui, orientava a equipa sub-19 do clube. Conhecia o contexto, o balneário e as exigências do Union Berlin por dentro. É, aliás, a escolha prevista para assumir a equipa feminina na próxima época. Mas a urgência antecipou o plano e a resposta interna foi quase unânime.
“Em quase 20 anos no clube, não tenho a certeza de já ter visto um apoio tão consensual a um novo treinador”, admitiu um responsável do Union Berlin. “Diria que é 99% positivo.”
A nomeação não surge do acaso. Nos últimos meses, Marie-Louise Eta acumulou uma série de marcos inéditos no futebol europeu. Em novembro de 2023 tornou-se a primeira mulher a sentar-se no banco de uma equipa da Bundesliga. Pouco depois, foi também a primeira a integrar uma equipa técnica num jogo da Liga dos Campeões masculina - num encontro disputado em Portugal, frente ao Sporting de Braga - e, mais tarde, a primeira a orientar uma equipa a partir da linha lateral, ainda que de forma interina.
Quando assumiu temporariamente a equipa durante a suspensão de um treinador, fê-lo sob um nível de atenção mediática que poderia ter condicionado qualquer estreia. Mas isso não aconteceu. “Tentámos simplesmente bloquear tudo o que estava à nossa volta”, recordou mais tarde.
Essa capacidade de manter o foco é uma das características mais apontadas por quem trabalha com ela. Mas não é a única. Organizada, exigente e comunicativa, é também descrita como uma treinadora capaz de criar um ambiente positivo sem abdicar da intensidade.
“Transmite muita alegria no treino, muito prazer em jogar futebol. As sessões são sempre variadas”, referem colegas, citados pela publicação alemã Kicker.
Em campo, as equipas que orienta procuram pressionar alto, assumir o controlo e manter uma postura ofensiva. Um modelo que tem dado resultados: a equipa que treinava até então - os sub-19 do Union Berlin - somou 12 vitórias em 14 jogos, com 44 golos marcados.
Uma vida dedicada às quatro linhas
O futebol sempre foi o centro do seu percurso. Nascida em Dresden, Marie-Louise Eta construiu uma carreira sólida como jogadora, com passagem pelo Turbine Potsdam, onde venceu a Liga dos Campeões em 2010, além de vários títulos nacionais, num dos períodos mais dominantes do futebol feminino alemão.
“Costumava dizer que jogaria até deixar de conseguir andar”, recordou numa entrevista em 2023. No entanto, a vida trocou-lhe as voltas e o corpo impôs-lhe limites mais cedo do que esperava. Lesões sucessivas, incluindo problemas de cartilagem e uma rotura de tendão no pé, obrigaram-na a terminar a carreira aos 26 anos.
Ainda assim, sair do futebol nunca foi uma opção. “Não consigo imaginar fazer algo sem ser futebol”, admitiu na mesma entrevista.
Já a transição para treinadora foi feita sem pressa, "etapa a etapa", como sempre idealizou, conta. “Posso imaginar muitas coisas: trabalhar com seleções jovens, ser adjunta no futebol profissional masculino ou treinar uma equipa feminina. O importante é sentir que estou no sítio certo e a evoluir.”
Agora, está no topo do futebol europeu masculino. Sem nunca ter procurado um papel especial, mas inevitavelmente a mudar o jogo.