ENTREVISTA || Marie-Louise Eta tornou-se a primeira mulher a liderar uma equipa masculina num dos principais campeonatos da Europa. Entre a pressão mediática, a relação com o balneário e a necessidade permanente de conquistar credibilidade, a treinadora fala, em entrevista exclusiva à CNN Portugal, sobre o momento histórico que viveu no Union Berlin e sobre a forma como aprendeu a afirmar-se num dos ambientes mais competitivos do desporto mundial
Faltavam poucos minutos para as 15h30 de dia 18 de abril quando o Stadion An der Alten Försterei, lotado de camisolas vermelhas com riscas brancas, se preparava para mais um jogo da Bundesliga. No estádio do Union Berlin, onde aquecia também o português Diogo Leite, repetia-se a tradição de sempre: cada nome anunciado pelo sistema de som era recebido pelas bancadas ao som de "fußballgott!", a expressão alemã para "deus do futebol".
Mas, naquele sábado, a tradição mudou. Ou melhor, adaptou-se. Quando o nome de Marie-Louise Eta ecoou pelo estádio, milhares de pessoas levantaram-se e o grito que se ouviu das bancadas foi, pela primeira vez, outro: "fußballgöttin!". "Deusa do futebol".
Pela primeira vez na história, o banco de uma equipa masculina numa das cinco principais ligas europeias tinha uma mulher no comando técnico.
O impacto ultrapassou rapidamente a Alemanha e colocou a treinadora no centro das atenções do futebol europeu. Ainda assim, ao longo da entrevista à CNN Portugal, Marie-Louise Eta tenta várias vezes puxar a conversa de volta para o futebol, afastando-se da ideia de que o seu percurso deva ser visto apenas pelo lado simbólico.
"Para mim, é uma grande honra, mas também uma responsabilidade”, admite a treinadora de 34 anos. "Ao mesmo tempo, sei que este passo é simbólico para muitas pessoas que se preocupam com as mulheres no futebol."
Logo a seguir, faz questão de esclarecer o que realmente lhe ocupa os pensamentos desde que assumiu a equipa principal do Union Berlin: "Não acordo de manhã a pensar que sou a primeira mulher, acordo a pensar em como ajudar a minha equipa."
Internamente, Marie-Louise Eta era há muito considerada uma treinadora pronta para assumir um desafio maior. Tinha passado pelos escalões jovens do Union Berlin, orientava os sub-19 e conhecia de perto a estrutura da equipa principal. Quando o clube entrou numa sequência de maus resultados e se aproximou perigosamente da zona de despromoção, a direção decidiu apostar numa solução interna.
"Estou grata pela confiança que o clube depositou em mim e tenho plena consciência de que estou a dar continuidade ao trabalho de muitas mulheres que vieram antes de mim", afirma.
No entanto, percebeu rapidamente que a responsabilidade que passava a carregar ia muito além dos resultados do Union Berlin. Desde logo, quando, por detrás das portas da sala onde ia dar a primeira conferência de imprensa, estavam mais de 50 jornalistas à sua espera.
"Quando comecei, havia muito poucos modelos visíveis nesta área", recorda. "Se a minha presença tornar um pouco mais fácil para uma jovem imaginar-se na linha lateral de uma equipa profissional masculina, isso significa muito para mim." Apesar disso, insiste numa ideia que atravessa praticamente toda a entrevista: não quer que o seu caso permaneça eternamente tratado como exceção. "Espero que, no futuro, isto seja algo normal e não algo especial que precise de ser constantemente destacado."
A consciência de que teria constantemente de provar o seu valor acompanha-a desde muito antes de chegar à Bundesliga. Marie-Louise Eta cresceu em Dresden, numa realidade em que o futebol continuava profundamente associado ao universo masculino. Jogava quase sempre entre rapazes e habituou-se desde cedo a ouvir comentários que questionavam a sua presença em campo.
Com o passar dos anos, preferiu evitar transformar essas experiências numa guerra entre homens e mulheres. "No final, a credibilidade vem da competência e do trabalho diário. Se os jogadores perceberem que aquilo que o treinador faz os ajuda, aceitam-no, independentemente do género", afirma.
Essa forma de olhar para o futebol reflete-se também na maneira como encara a liderança dentro do balneário do Union Berlin. Desde que assumiu a equipa masculina, uma das perguntas mais recorrentes tem sido se uma mulher consegue liderar um grupo habituado a treinadores homens. Marie-Louise Eta volta a puxar a conversa para a relação humana e profissional entre treinador e jogadores: "A relação com a equipa constrói-se com confiança, honestidade e clareza", considera. "Existem limites práticos que todos respeitam, mas isso não impede ligações fortes. Estou presente no campo, nas reuniões, nas conversas individuais. Os jogadores sabem que estou ali por razões futebolísticas."
Ao longo da conversa com a CNN Portugal, a treinadora alemã descreve-se como alguém muito focada na comunicação, na organização e na forma como gere as relações dentro do grupo. Mais do que impor autoridade pela posição que ocupa, procura construir confiança junto dos jogadores.
"A minha liderança baseia-se na clareza, consistência e respeito", afirma. "Desde o primeiro dia, tento ser muito transparente quanto às expetativas e à forma como queremos trabalhar. Ouço muito, mas também tomo decisões e mantenho-as. Os jogadores rapidamente percebem que os padrões são os mesmos para todos. Quando veem que a liderança é justa e focada no desempenho, o facto de eu ser mulher torna-se menos importante do que o trabalho diário que fazemos juntos."
Para Marie-Louise Eta, o mais importante continua a ser perceber o que cada jogador precisa individualmente para conseguir atingir o melhor nível. "Gosto de compreender a pessoa por detrás do jogador. Isso muitas vezes determina até onde alguém consegue chegar", explica.
Ao recordar episódios de desrespeito e comentários sexistas ao longo da carreira, a treinadora admite que tenta "não levar isso para o lado pessoal". "Concentro-me no meu trabalho, em ser profissional e em comunicar de forma clara. Quando algo ultrapassa os limites, deve ser tratado diretamente. Mas muitas vezes a melhor resposta é manter a calma, fazer bem o trabalho e deixar que o tempo e os resultados mudem a perceção das pessoas."
Antes de chegar ao banco, Marie-Louise Eta construiu uma carreira sólida dentro de campo. Passou pelo Turbine Potsdam, um dos clubes mais importantes do futebol feminino alemão, venceu a Liga dos Campeões em 2010 e conquistou vários títulos nacionais numa das fases mais fortes da história da equipa. O futebol ocupava praticamente toda a sua vida e a então jovem jogadora imaginava-se dentro das quatro linhas durante muitos mais anos. "Costumava dizer que jogaria até deixar de conseguir andar", recordou anteriormente. No entanto, sucessivas lesões, incluindo problemas graves de cartilagem e uma rotura de tendão no pé, acabaram por obrigá-la a terminar a carreira mais cedo do que esperava. Ainda assim, abandonar o futebol nunca foi verdadeiramente uma hipótese.
A passagem de Marie-Louise Eta pela equipa principal do Union Berlin terminou no final da temporada, conforme previsto pelo clube, antes de assumir oficialmente o comando da equipa feminina na época seguinte. A treinadora deixou a equipa longe da zona de despromoção, estabilizada a meio da tabela e com duas vitórias expressivas frente a adversários mais bem classificados. Enquanto isso, tornou-se inevitavelmente uma referência numa discussão que o futebol masculino adiou durante décadas: a possibilidade de mulheres ocuparem espaços de liderança sem que isso seja constantemente tratado como algo extraordinário.
"A porta está mais aberta do que estava antes, diria eu", afirma. "Há progresso, mas ainda não é normal ver mulheres nestas posições. Ainda há passos a dar para uma mudança real. Isso exige coragem e paciência. Espero que o meu caso, e outros, possam ajudar a mostrar que resulta, e que com o tempo isto passe a fazer parte do futebol do dia a dia."
Ainda assim, a própria parece menos interessada nessa dimensão histórica do que quase toda a gente à sua volta. "Penso que este momento será sempre um marco na minha carreira", reconhece. "Mas não define tudo aquilo que sou como treinadora."
