No discurso de vitória, o novo coordenador do Bloco de Esquerda não deixou de elogiar Mariana Mortágua pela sua participação na flotilha humanitária. "A ida da Mariana na flotilha só pode ser um orgulho para todas e todos nós e um orgulho para Portugal"
Com a saída de cena de Mariana Mortágua, José Manuel Pureza assume agora o lugar de coordenador do Bloco de Esquerda e, no discurso de encerramento da XIV Convenção do partido, prometeu mudanças no funcionamento interno ao mesmo tempo que se mostrou à procura de aliados para combater a "ofensiva das direitas”.
Além disso, o novo líder fez um pedido de desculpas ao país pelo estado a que chegou o o partido, no particular, e a esquerda, no geral. "Em nome do Bloco, quero pedir desculpa ao nosso povo, porque a esquerda não conseguiu ainda vencer a extrema-direita que estrangula o país".
Para José Manuel Pureza, “o tempo exige-nos uma recusa clara do sectarismo e a junção de forças não só para combater a ofensiva das direitas, mas para lhe contrapor uma contraofensiva dos direitos”. Defendendo uma "esquerda de pontes", que saiba dialogar, Pureza afirmou como prioridades a saúde, a habitação, a solidariedade com a Palestina e a emergência climática, a luta contra a violência doméstica e o “apoio aos trabalhadores que se sindicalizam e organizam”.
Ao fim de 26 anos de vida, e reduzido eleitoralmente, com apenas um mandato no parlamento, o BE fez nesta convenção um esforço de autocrítica, com dirigentes e delegados, não só os críticos internos como membros da direção cessante, a assumirem a necessidade de mudanças ou a exigirem-nas.
O risco de erosão partidária é tal que, 24 horas antes de ser eleito, Pureza ouviu o ex-deputado João Teixeira Lopes a avisá-lo que o Bloco se encontra perto da irrelevância e que, para mudar essa tendência, o partido precisa não só de novas caras, como também de mudar as práticas organizacionais.
Talvez por isso, Pureza salientou como prioridade ser o "primeiro a ouvir todo o partido, em todo o país", pedindo que todos os militantes e dirigentes se juntem a ele nesse caminho. Entre as necessidades de mudança, o sucessor de Mariana Mortágua quer uma comunicação mais próxima com a rua e abrir às bases os processos de decisão do partido.
Para já, conhece-se também os rostos que vão sair do núcleo mais restrito: Jorge Costa, Pedro Filipe Soares, José Gusmão estão todos de saída e também Mariana Mortágua abandona a direção, mantendo-se, porém na Mesa Nacional, o orgão máximo.
Mariana Mortágua, que se despediu da liderança “com orgulho e sem arrependimentos”, tinha pedido, no primeiro dia dos trabalhos, que o partido não se esqueça das causas como o feminismo ou a luta contra o racismo.
José Manuel Pureza também se focou na antiga líder durante o discurso de vitória. Para ele, Mortágua fez bem em participar na flotilha que pretendia levar ajuda humanitária até Gaza. "A Mariana foi asperamente criticada e atacada por ter ido a Gaza. Pois eu digo-vos com toda a convicção: a ida da Mariana na flotilha só pode ser um orgulho para todas e todos nós e um orgulho para Portugal", salientou.
Mesmo perante vozes críticas quanto à estratégia, organização e prioridades políticas do partido, a verdade é que, no final da convenção, verificou-se que a esmagadora maioria dos delegados expressou confiança na lista de Pureza.
Aliás, o bloquista foi eleito coordenador com a conquista de 65 dos 80 lugares da Mesa Nacional, mais dois do que Mortágua conseguiu quando Catarina Martins não se candidatou a novo mandato.
As mudanças exigidas na XIV Convenção não se limitaram, contudo, à forma. Vários bloquistas de moções críticas defenderam a “centralidade do trabalho” na política do BE, para além das “causa identitárias”.
Foi Isabel Pires, que assume na nova direção funções de organização, a levantar a sala quando lançou, na sua intervenção, a palavra de ordem “todos à greve geral” e definiu como “tarefa imediata” do partido derrotar o “pacote laboral”.
No final de uma manhã dominada por críticas ao funcionamento interno e lamentos sobre a erosão da militância, Isabel Pires disse que “todos fazem falta”, anunciou um “programa de formação” e prometeu mais ligação aos núcleos e aos aderentes de base para “um Bloco mais aberto”.
Caras novas assumem Comissão Política de Pureza
A nova Comissão Política do BE, eleita hoje após a 14.ª Convenção Nacional, é coordenada por José Manuel Pureza e conta com uma renovação da grande maioria dos seus elementos, com 19 entradas.
Segundo informação adiantada à agência Lusa por fonte oficial do partido, logo a seguir ao encerramento da convenção, em Lisboa, a nova Mesa Nacional eleita reuniu-se pela primeira vez e elegeu a Comissão Política bloquista, órgão que assegura a direção quotidiana.
De acordo com a moção A, que saiu vencedora da reunião magna, “a coordenação da Comissão Política ficará a cargo de quem encabece a lista mais votada para a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda”, ou seja, José Manuel Pureza.
O órgão, que no mandato anterior era composto por 21 membros, passa a ter 27 elementos, e conta com um total de 19 novas presenças e oito permanências.
A moção A elegeu a grande maioria de elementos, 23, aos quais se juntaram quatro bloquistas afetos a duas moções opositoras: Alexandra Vieira, Jorge Humberto Nogueira e Nuno Pinheiro, da moção S, e Samuel Cardoso, da moção H.
Mantêm-se no órgão dirigentes conhecidos como Isabel Pires (indicada para secretária da organização do partido), o ex-líder parlamentar que deverá assumir o lugar de Mariana Mortágua no parlamento em 2026, Fabian Figueiredo, a candidata presidencial Catarina Martins, Andreia Galvão, Joana Mortágua, José Soeiro, Marisa Matias e Miguel Cardina.
Entre as nas novas entradas está a de José Manuel Pureza, que não fazia parte deste órgão, mas também bloquistas como a ex-eurodeputada Anabela Rodrigues, a antiga parlamentar na Assembleia da República Maria Manuel Rola, o ex-assessor João Curvelo e Bruno Góis, bem como vários jovens, como António Soares, Joana Neiva, Beatriz Realinho ou o atual assessor parlamentar Daniel Borges.