"Quanto mais me proíbem, mais eu faço." Morreu a escritora Maria Teresa Horta, uma das "Três Marias", que sempre defendeu as mulheres e a liberdade

4 fev 2025, 12:28

Poeta e jornalista, Maria Teresa Horta tinha 87 anos e era, sobretudo, uma mulher livre

Jornalista, escritora, poetisa. Conhecêmo-la sobretudo por causa dos livros e dos poemas, mas se perguntássemos a Maria Teresa Horta qual a sua profissão o mais provável é que ela respondesse jornalista.  "Eu adoro o jornalismo. Nunca consegui entender porque é que tenho uma paixão por trabalhar em jornais. Naquela altura, as pessoas consideravam-me só poeta. É o jornalismo que me dá a ver que eu não sou apenas a poetisa. Eu sou uma jornalista porque adorava e sempre adorei o jornalismo", disse à jornalista Isabel Lucas, numa entrevista no ano passado, quando foi a diretora convidada do jornal Público. No jornalismo juntava as suas dimensões principais: a escrita e a luta.

"Eu tenho muita, muita dificuldade nessa coisa do cuidado. Não sou capaz de ter cuidado", dizia a escritora. "Quanto mais me proíbem, mais eu faço." E esta é bem capaz de ser uma das frases que melhor definem aquela que era a última das “Três Marias” e que morreu esta terça-feira aos 87 anos, em Lisboa, como anunciou a editora Dom Quixote: "Uma perda de dimensões incalculáveis para a literatura portuguesa, para a poesia, o jornalismo e o feminismo, a quem Maria Teresa Horta dedicou, orgulhosamente, grande parte da sua vida”, diz o comunicado. E acrescenta ainda que ela era "uma das personalidades mais notáveis e admiráveis" da literatura portuguesa, "reconhecida defensora dos direitos das mulheres e da liberdade, numa altura em que nem sempre era fácil assumi-lo, autora de uma obra que ficará para sempre na memória de várias gerações de leitores".

Nascida em Lisboa em 1937, Maria Teresa Horta cresceu num tempo em que das mulheres esperava-se obediência e decência. Cresceu controlada pela família e pela sociedade. "Naquela altura já havia mulheres que lutavam pelos seus próprios direitos e os de outras mulheres. Eram criticadas, vinham para a rua e tinham consciência de que o que estavam a fazer era muito perigoso. Eu ainda conheci isso. Ser feminista era uma coisa aviltante, tanto que diziam 'você é feminista', querendo insultar", contou. A avó era uma dessas mulheres feministas. Foi a avó Camila que a incentivou a ler, desde pequena, ao mesmo tempo que lhe ensinou a solidariedade feminina e lhe mostrou a importância de pensar pela sua cabeça.

Também muito cedo decidiu que queria ser jornalista. Aos 17 anos, apresentou-se no República: "Gosto de escrever e quero escrever aqui". Depois, trabalhou no vespertino A Capital, onde assinou entrevistas de cultura e publicou as crónicas Quotidiano Instável, entre 1968 e 1972, dirigiu a revista Mulher (1978-1989), trabalhou no Expresso e no Diário de Notícias. Pelo meio, frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi dirigente do ABC Cine-Clube, militante ativa nos movimentos de emancipação feminina.

Mas se era jornalista de profissão, era na poesia que se encontrava. "Eu sou a minha poesia. Eu não faço nada para que a poesia não seja eu. Vou sempre atrás de mim e vou atrás dela ao mesmo tempo", explicou. "Fazia poesia desde os 13 anos, mas não fazia ideia nenhuma. Queria publicar mas nem sabia se deveria. Só fiz uma jura a mim mesma: eu vou fazer qualquer coisa com isto, qualquer dia, seja o que for. Quero escrever sobre isto. Não me interessa nem sei mas vou fazer", recordou numa entrevista a Ana Sousa Dias, no Diário de Notícias.

"A poesia é a minha voz mais segura, a minha voz mais real, mais perturbadora. É o meu sentir, a minha transgressão maior e o meu prazer maior. É um prazer imenso, muito sexuado. A minha poesia é o meu corpo. Quando eu digo que eu sou a minha poesia não é uma metáfora. Não. Eu tenho prazer quando escrevo."

Começou a publicar em 1960 e logo a falar do corpo das mulheres: o primeiro livro de poemas foi "Espelho Inicial", depois em 1967 publicou "Minha Senhora de Mim", que foi um escândalo ainda maior. "Eu era uma ‘pouca vergonha’, por causa do erotismo. E a expressão é mesmo essa, e foi muita gente, mesmo muita gente que a usou", contava. Por causa da sua poesia e das coisas "obscenas" que escrevia, um dia levou uma tareia na rua. "Atiraram-me ao chão, bateram com a minha cabeça no chão, e disseram-me: “Isto é para aprenderes a não fazer aquilo que fazes."

O julgamento

"As Três Marias" - Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa - começaram por ser três amigas. Encontravam-se uma vez por semana para almoçar e conversar. Foi num desses encontros, depois do ataque a Maria Teresa Horta, que surgiu a ideia de fazerem um livro juntas, inspiradas pelas cartas de amor dirigidas por Mariana Alcoforado a um oficial francês. Cada uma levava um texto, que depois era discutido por todas. "O que a gente se ria! Foi tão divertido! Nunca houve nenhum texto recusado por nenhuma de nós, nunca, foi fabuloso, das coisas mais bonitas da minha vida. Foi tão bonito, tão bonito...", recordou. Nunca nenhuma delas revelou quem tinha escrito as diferentes partes do livro.

"As Novas Cartas Portuguesas" eram um manifesto contra a ideologia do Estado Novo, denunciavam a guerra colonial, as opressões a que as mulheres eram sujeitas, um sistema judicial persecutório, a emigração e a violência fascista. O livro foi publicado por Natália Correia em 1972 e, três dias depois de estar nas livrarias, foi apreendido pela PIDE, considerado "uma ofensa aos costumes". As autoras foram interrogadas na Polícia Judiciária por um agente especializado em processos de prostituição e foram alvo de um processo judicial. 

O julgamento tornou-se um caso mediático - sobretudo fora de Portugal, desencadeando uma enorme solidariedade que ultrapassou fronteiras e provocou protestos em vários países. Depois de banido, o livro foi imediatamente traduzido em França, Itália, Alemanha, Estados Unidos. Em Portugal, as autoras foram a julgamento. A primeira audiência aconteceu em outubro de 1973 e, após sucessivos incidentes e adiamentos, a sessão seguinte estava marcada para 25 de abril de 1974 - mas acabou por ser adiada por causa da revolução. A 7 de maio foi lida a absolvição. Por tudo isto, o livro acabaria por se tornar um marco na história do feminismo, da literatura portuguesa, da oposição ao regime e da luta pela liberdade. "É um livro político, essencialmente político, feito num país fascista", haveria de reconhecer Maria Teresa Horta.

O 25 de Abril trouxe muitas mudanças na sociedade portuguesa, mas para as mulheres a luta continuava e Maria Teresa Horta estava nessas batalhas. 

Deixou o jornalismo para escrever o romance "As Luzes de Leonor, Uma sedutora de anjos, poetas e heróis", publicado 2011. O livro ganhou o Prémio Dom Dinis, mas a autora recusou-se a receber o prémio das mãos do então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. “Sou uma mulher de esquerda, sempre fui, sempre lutei pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores”, justificou na altura. "Foi um burburinho", contou mais tarde. "Eu fiquei estarrecida, porque aquilo não era nada! O que é que me podiam fazer? Nada, vivemos em liberdade. Eu fiz muitíssimo pior no tempo do fascismo e ninguém me achava uma heroína e eu também não. Era perigoso, mas combatia-se pela liberdade, não há coisa mais importante que a liberdade. Eu sempre me senti uma pessoa incompleta sem a liberdade."

Na sua obra contam-se mais de vinte livros de poesia e dez livros de ficção.  Ao longo da sua carreira, Maria Teresa Horta foi amplamente premiada, destacando-se, só nos últimos anos, o Prémio Autores 2017, na categoria melhor livro de poesia, para “Anunciações”, a Medalha de Mérito Cultural com que o Ministério da Cultura a distinguiu em 2020, o Prémio Literário Casino da Póvoa que ganhou em 2021 pela obra “Estranhezas” e a condecoração em 2022 com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade, pelo Presidente da República.

Em dezembro, Maria Teresa Horta foi incluída numa lista elaborada pela estação pública britânica BBC de 100 mulheres mais influentes e inspiradoras de todo o mundo, que incluía artistas, ativistas, advogadas ou cientistas.

No ano passado, Patrícia Reis publicou a biografia de Maria Teresa Horta com o título "A Desobediente". Aquela mulher de voz doce e ar frágil, sempre simpática quando recebia o telefonema de uma jornalista em início de carreira, sempre disponível para falar de literatura e da importância da liberdade, que mexia as mãos cheias de anéis e discutia poesia e o papel da mulher na sociedade, mas também se preocupava com a roupa para passar e a casa por arrumar, aquela mulher, era, na verdade, uma desobediente.

"Às mulheres acham sempre tudo mal, seja no início ou no fim. Não julgue que vai mudar com a idade. Eu não sigo os estereótipos da idade, eu não penso 'com esta idade não sinto, com esta idade não apaixono, com esta idade não vou para a cama, com esta idade não tenho prazer, com esta idade não vou dizer isto, vão vou fazer aquilo'. Eu não aceito estes estereótipos, se aceitasse estava a desrespeitar-me a mim própria. Eu nunca aceitei essas regras. Essas regras machucam as pessoas, deformam as pessoas. Eu não quero isso para mim. Nunca quis e até à minha morte não quero."

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