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Margarida Fonseca Santos quis tornar visível o papel da mulher em livro "A Chave"

Agência Lusa , AM
26 abr, 09:34
Margarida Fonseca Santos

Autora diz que este pode “de certa forma ser um livro feminista” sem ser panfletário

O romance “A Chave”, de Margarida Fonseca Santos, vencedor por unanimidade do Prémio João Gaspar Simões em 2025, aborda o papel da mulher e a sua possível “invisibilidade” mesmo no seio da família.

Em declarações à agência Lusa, a autora afirmou que este pode “de certa forma ser um livro feminista” sem ser panfletário.

“No fundo, falamos de como as mulheres foram exploradas durante anos, e continuam, muitas, a ser, e sobretudo estas mulheres que eram quase apagadas, invisíveis nas famílias e que asseguravam o funcionamento de tudo, roupa, comida, arrumações, etc., e nem eram consideradas, apesar de estarem no seio da família”, disse.

Esta situação que gerou na escritora um sentimento de “confusão e pena” e levou a que sentisse “necessidade de falar disto”.

“Parece que há coisas no dia-a-dia que ficam realmente invisíveis como se fosse por milagre que foram feitas, tratadas”, disse a escritora referindo como muitas vezes, trabalhos feitos pelas mulheres são ignorados ou passam despercebidos.

Em “A Chave”, Margarida Fonseca Santos escreve: “Pois eu, a criada, era invisível, transparente, uma não-existência com o propósito apenas de assegurar soluções”.

O 25 de Abril de 1974 proporcionou “um revés” a esta situação, permitindo desde logo às mulheres votarem, algo que uma das referenciadas personagens tanto desejava e morreu sem nunca ter exercido esse direito de cidadania.

“O 25 de Abril mudou quase tudo, quer do ponto de vista político, quer social”, declarou.

“A Chave” apresenta três personagens: a criada Deolinda, a única que é nomeada, uma editora e um escritor. Existe uma quarta, a mãe do escritor, que já morreu, mas que “paira” sobre toda a narrativa, “é quase fantasmagórica”.

O cenário narrativo “pode ser uma qualquer cidade” portuguesa, e quanto ao espaço de veraneio, a escritora inspirou-se na região da Figueira da Foz, sem nunca a referir. Cronologicamente, o romance passa-se “algures entre as décadas de 1960 e 1970”.

À exceção da criada Deolinda, nenhuma das outras personagens têm nome, uma opção da autora que justificou que nomeá-las seria conotá-las de alguma forma.

“Eu não queria, mesmo enquanto escritora, ter um nome a associar-me na narração a uma ou a várias pessoas que conheço com esse nome, foi uma defesa durante a escrita para poder estar a falar sempre de uma forma a que as pessoas colassem as personagens às suas próprias histórias. Se começasse a nomeá-las ia torná-las mais palpáveis, reais”, disse.

Deolinda - nome que foi muito discutido, até em família - é uma das mulheres que passou despercebida no seio de uma família que cuidava.

A editora exerce uma profissão que não era comum ser ocupada por uma mulher até às décadas de 1970 e 1980. “Isto para chamar a atenção, que se calhar até hoje, continuamos a achar que há trabalhos feitos para homens e trabalhos feitos para mulheres. Tudo o que tem a ver com o trabalho intelectual acaba por ser mais masculino que feminino”.

Uma situação que merece críticas da escritora, que afirmou que “apesar de [atualmente] haver o registo que de mais mulheres a escrever, que homens, a verdade é que nos festivais literários temos sempre mais homens que mulheres”.

Sobre a sua escrita, Margarida Fonseca Santos reconheceu que procura uma cumplicidade com o leitor, de tentar colocá-lo dentro da narrativa, “puxar por ele”.

“No fundo, há três tipos de narração, embora sejam as três [narrações] na primeira pessoa, são diferentes no estilo, e não há nomes, a não ser para a Deolinda, o que obriga o leitor a estar com atenção, e a ideia é mesmo não descrever fisicamente, para as personagens surgirem na cabeça do leitor com a roupagem de pessoas que habitaram na sua própria vida”, explicou.

A narrativa leva a que o leitor esteja dentro dela, e “a viva totalmente”, afirmou.

O livro “implicou muita investigação e muito estudo”, pelo contexto sociopolítico coevo, “não tanto de parte do espaço narrativo, que é muito familiar” à autora, nomeadamente o de veraneio que se passa na região da Figueira da Foz, onde reside.

O livro “A Chave" é apresentado no dia 09 de maio, na Biblioteca Municipal da Figueira Foz, numa sessão que conta, além da autora, com a participação da editora Rita Fazenda e de José Manuel Araújo, da parte do grupo Leya.

O livro tem uma sessão de apresentação prevista para 14 de maio, em Lisboa, na Livraria Buchholz.

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