Marek Cech: um tricampeão pelo FC Porto num restaurante de Mindelo

17 mar, 09:05
Marek Cech

Os pais moram em Trebisov, a 50 kms da fronteira com a Ucrânia, mas o ex-jogador eslovaco mantém-se longe da guerra, na tranquilidade do Norte de Portugal

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

Marek Cech chegou a Portugal em 2005 para reforçar o FC Porto de Co Adriaanse. O lateral esquerdo nunca foi um titular absoluto dos dragões, mas fez mais de vinte jogos por época e sagrou-se tricampeão português com a camisola azul e branca, para além de vencer uma Taça de Portugal e uma Supertaça.

O jogador da Eslováquia jogou no seu país (Inter Bratislava) e na República Checa (Sparta Praga) antes de cumprir um ciclo de três épocas em Portugal, ao serviço do FC Porto. Seguiram-se outras três temporadas em Inglaterra (West Bromwich), duas na Turquia (Trabzonspor) e época e meia em Itália (Bolonha e Como), entre seis meses de regresso a solo luso, por intermédio do Boavista.

Cech terminou a carreira em 2016 e optou por permanecer na região de Vila do Conde com a família, adaptada a um país que nem sempre apreciamos devidamente. «Morei em Inglaterra, na Turquia e em Itália e posso dizer que prefiro Portugal. Desde que vim para o FC Porto e comprei aqui casa, disse sempre que ia ficar aqui no fim da carreira. Só não sei até quando, se será até ao fim da vida ou se voltaremos à Eslováquia entretanto», começa por dizer.

«O tempo aqui é mais estável que na Eslováquia, por exemplo, onde há 40 graus positivos no verão e 20 negativos no inverno. Depois, a comida é muito boa, as pessoas do Norte têm muito bom coração e há sobretudo segurança. A segurança em Portugal é enorme, vive-se em sossego. Nunca tive problemas por ser estrangeiro aqui e até acho que os portugueses são piores com eles próprios do que com os estrangeiros», atira Marek Cech, entre gargalhadas, ao Maisfutebol.

Por estes dias, o antigo jogador tem uma razão acrescida para destacar a segurança em Portugal.

«Eu nasci em Trebisov, a 40/50 quilómetros da fronteira com a Ucrânia e tenho os meus pais lá. Estão a 200 quilómetros de onde caem bombas e até dizem que conseguem ouvir as bombas ao longe. É uma situação complicada. Nota-se que há muitos mais refugiados e também muitos mais soldados nas ruas.»

O cenário entre Árvore e Mindelo, duas freguesias de Vila do Conde, é completamente distinto.

Quanto pendurou as chuteiras, o ex-lateral de FC Porto e Boavista foi desafiado por um casal amigo a apostar na área da restauração. Marek Cech tornou-se sócio do restaurante Tia Mila, em Mindelo, e tomou-lhe o gosto. Tanto que, uns meses depois, decidiu tornar-se funcionário regular do espaço, fazendo de tudo um pouco, desde encomendas a atendimento a clientes na hora das refeições. Sem complexos.

«Quando acabei de jogar, um amigo meu, o Hélder, perguntou-me se não queria fazer sociedade com ele no restaurante, que existia há mais de 25 anos. A Sandra, esposa do Hélder, recebeu o restaurante da mãe, eles mudaram algumas coisas e, quando eu cheguei, já estavam numa situação estável. Eu é que tive de aprender, porque não percebia nada deste ramo», reconhece.
 

Marek Cech com os sócios no restaurante Tia Mila, Hélder e Sandra

No primeiro ano, o antigo jogador preocupou-se em conhecer todas as áreas do negócio: «Ao fim de um ano, comecei a trabalhar mesmo aqui e recebi muito bom feedback dos clientes, que gostam de me ver aqui. Não posso dizer que aquela questão de parecer mal um jogador a servir às mesas não me passou pela cabeça, mas a vida continua e estou a fazer algo que gosto. Penso que cresci nesta área e fiquei mais sociável, por exemplo.»

«Ficar em casa, sem fazer nada, não faz bem à cabeça»

Cech arranca diariamente da vivenda que adquiriu quando representava o FC Porto, na freguesia de Árvore e a 500 metros do mar, e ruma ao restaurante em Mindelo, bem próximo da zona industrial.

Nesta altura, importa salientar que o ex-lateral esquerdo não precisava de trabalhar. «Tenho apartamentos e terrenos na Eslováquia, alguns investimentos em bancos e uma sociedade na Alemanha com um amigo. Não precisava de trabalhar todos os dias no restaurante, mas ficar em casa, sem fazer nada, não faz bem à cabeça», frisa.

O antigo internacional eslovaco cresce assim numa área de negócio inesperada. «Nunca pensei em trabalhar na restauração, mas estou a gostar. É muito importante trabalhar no espaço, no dia a dia, para perceber verdadeiramente o que o restaurante precisa. Fora da cozinha, faço de tudo e, com o tempo, as minhas funções e responsabilidades cresceram.»

«Agora, estou responsável pelas compras, pelas encomendas a fornecedores, pela qualidade dos produtos», explica Marek Cech, admitindo que o restaurante procura recuperar o fluxo que apresentava antes da pandemia: «Trabalhamos mais à semana, porque temos aqui a Zona Industrial de Mindelo, que nos traz muitos clientes ao almoço. Antes da pandemia, fazíamos uma média de 80/90 almoços. Ao almoço, trabalhamos com refeições económicas. Ao jantar, apostamos em mais qualidade e estamos a crescer.»

A par do tempo passado no restaurante e em família (com a esposa e os dois filhos - um deles nascido em Portugal), o antigo jogador ainda consegue matar saudades da competição em jogos do FC Porto Vintage, a equipa de veteranos dos dragões, apresentando uma forma física invejável.

«Por acaso não tenho tido tempo para ir ao ginásio, embora consiga manter este corpo magro. É verdade que já temos alguns ex-jogadores com mais barriga na equipa, mas são momentos espetaculares de convívio e é sempre um orgulho jogar pelo FC Porto», salienta.

No início de março, os dragões venceram o VI Torneio Veteranos do Bairro – Torneio Vitor Paladino, batendo em Óbidos a equipa local, o Sporting e o Benfica. Marek Cech jogou ao lado de nomes como Bruno Vale, João Pinto, Gaspar, Ricardo Silva, Paulo Assunção, Bock, Pena ou Rui Barros. «Tenho de tirar o chapéu ao Rui Barros, que já é mais velho (56 anos) e está sempre em grande forma. De resto, aquilo está muito bem organizado e nós, do Vintage, sentimo-nos como jogadores da equipa principal.»

«Diziam-me todos os anos no FC Porto que ia ser difícil para mim»

Cech foi jogador da equipa principal do FC Porto entre 2005 e 2008, após um período de afirmação no Inter Bratislava e uma época de bom nível no Sparta Praga, confirmando as excelentes indicações deixadas no Euro de sub-19 em 2002 e no Mundial de sub-20 em 2003.

«Marquei um grande golo no jogo de abertura do Mundial, frente aos Emirados Árabes Unidos, e penso que foi isso que projetou a minha carreira. Todo o Mundial correu-me muito bem, estava a ser transmitido para 63 países e passei a ser muito seguido. Joguei mais uma época na Eslováquia, fui campeão no Sparta Praga e depois fui para o FC Porto, onde fui tricampeão», recorda.

O lateral esquerdo afirmou-se como um valor seguro no plantel azul e branco, com Co Adriaanse e Jesualdo Ferreira, não obstante as dúvidas recorrentes.

«Foi o período mais bonito da minha carreira. Já tinha sido campeão da Eslováquia, fui da Rep. Checa e depois de Portugal, ganhando também uma Taça e uma Supertaça. O FC Porto é um grande clube mundial, a organização é espetacular e adorei os anos que lá passei.»

«Em cada ano, diziam-me sempre que ia ser muito difícil para mim, porque iam buscar outro lateral e eu devia pensar no meu futuro, mas a verdade é que fui sempre o lateral esquerdo que fiz mais jogos. Só alternei mais com o Fucile, que jogava à esquerda quando precisávamos mais de defender. Quando era mais para atacar, jogava eu», explica.

No verão de 2008, Mareh Cech rumou ao West Bromwich com a perspetiva de jogar com maior regularidade: «O presidente do clube veio a Portugal para me buscar, o treinador ligou-me a dizer que precisavam muito de mim, que ia fazer 50 jogos, mostraram-me o estádio, o centro de treinos, tudo. Tinha três clubes interessados, outro era o Nápoles, mas senti que o West Brom me ia dar mais espaço.»

Pura ilusão. Na primeira época em Inglaterra, o lateral eslovaco fez apenas 11 jogos. «Treinei sempre a lateral esquerdo e quando chegámos ao primeiro jogo, com o Arsenal, fora de casa, o treinador colocou-me a extremo direito. Perdemos 1-0 e o jogo não me correu bem, naturalmente», reconhecendo, apontando o dedo ao técnico Tony Mowbray.

«Depois disso, o mesmo treinador que tanto me convenceu a ir para lá deixou-me 13 jogos no banco. Entretanto, mais de três meses depois, voltei a ser titular, com o Tottenham. Vencemos por 2-0, fiz duas assistências para golo e fui considerado o Homem do Jogo. Resultado? Voltei para o banco. Perguntei-lhe porquê, disse-me que o outro iria destruir o balneário se não jogasse», desabafa.

O West Bromwich desceu de divisão, Roberto Di Matteo assumiu o comando técnico da equipa e convenceu Mareh Cech a permanecer no clube: «Eu queria sair, mas ele falou comigo e cumpriu. Fiz 37 jogos, subimos de novo à Premier League e terminei o ano a ir ao Mundial de 2010 na África do Sul, outra experiência inesquecível.»

«Ia passar a capitão do Boavista e chamaram-me para me dispensar»

Mareh Cech cumpriu uma terceira época no WBA e esteve duas temporadas no Trabzonspor (Turquia) e uma no Bolonha (Itália) antes de aceitar um convite para regressar ao futebol português, com a camisola do Boavista, em janeiro de 2015.

«Já tinha a ideia de ficar em Portugal a morar, mantivemos sempre aqui a nossa casa e foi um desafio aliciante.  Cheguei numa altura importantíssima para o Boavista, que tinha regressado à Liga de repente, com muitos jogadores da terceira divisão. O objetivo era a permanência, muito importante para o futuro do clube, e não foi nada fácil», refere.

O Boavista terminou a época na 13.ª posição, 11 pontos acima da linha de água. Cech, com 32 anos, ainda participou em 16 jogos, marcando um golo ao Vitória de Guimarães. O desejo de continuidade no emblema axadrezado, porém, caiu por terra.

«Aquele período no Boavista foi uma das experiências mais bonitas na minha vida, formámos um grande grupo e estava feliz. Estava a morar aqui em Vila do Conde, a jogar na Liga, num clube com história, era perfeito. Perto do fim da época, o Fary disse-me que iam ficar comigo, que iam renovar contrato e que eu ia passar a ser um dos capitães.»

A época terminou e a conversa mudou de tom: «No fim da época, chamaram-me ao balneário e estava lá o treinador, o Petit, e penso que o Jorge Couto. Agradeceram-me pelo que tinha feito mas disseram-me que não contavam comigo para a próxima época. Portanto, ia passar a capitão do Boavista e chamaram-me entretanto para me dispensar. Foi muito estranho, até hoje não sei o que passou. Deviam precisar de espaço para outros jogadores, não sei.»

Marek Cech viu-se obrigado a procurar outras soluções e pendurou as chuteiras depois de uma curta experiência no Calcio Como, na Serie B de Itália. Nem a beleza da região transalpina cativou o internacional eslovaco.

«Estive meio ano em Itália, foi uma experiência diferente, mas percebi que ficar sem a minha família já não era para mim. No final dessa época, em 2016, não recebi propostas que permitissem levar a minha família comigo e decidi nessa altura terminar a minha carreira. Fiquei em Portugal de vez com a minha mulher e os meus filhos», conclui o antigo lateral.

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