O último discurso no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas foi curto. O Presidente da República admite que o país enfrenta uma “obrigação” neste “novo ciclo da nossa história”. Para concretizar Portugal, é preciso olhar para o passado e contrariar os extremismos que ganham força, mostrou
O Presidente da República desafiou os portugueses a “recriar” Portugal num momento em que o país entra num “novo ciclo”. Em Lagos, Marcelo Rebelo de Sousa recordou o passado nacional para atacar a ascensão dos extremismos, como o racismo ou a xenofobia.
“Não há quem possa dizer que é mais puro e mais português do que qualquer outro”, atirou, depois de lembrar que Portugal é uma “mistura” feita pela passagem de vários povos.
"Nós somos portugueses, somos universais. E somos universais porque somos portugueses", vincou.
Em Lagos, naquele que é o seu último discurso enquanto Chefe de Estado num 10 de Junho, Marcelo descreveu os portugueses como "experientes, resistentes, criativos, heróis nos momentos certos, capazes de falar línguas, de entender climas e usos, de conviver com todos, de fazer construindo dia a dia pontes".
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Por isso, perante o “novo ciclo” que se desenha, Marcelo argumenta que “temos o dever de nos recriar, de nos ultrapassar, de cuidar melhor da nossa gente”.
"Este recriar Portugal é a nossa obrigação primeira neste novo ciclo da nossa história, 50 anos depois de termos chegado á democracia, à liberdade", rematou.
Houve uma referência à pobreza, um problema que se arrasta “regime atrás de regime”. “Cuidar dos que já ficaram para trás ou estão a ficar. E são sempre entre dois e três milhões. E são muitos há muito tempo”, disse.
No final do discurso, o Presidente da República fez uma menção especial aos militares, para através da condecoração a Ramalho Eanes, com o grande-colar da Ordem Militar de Avis, "nunca atribuído", homenagear toda a classe.
“Por aqui ninguém tem sangue puro”
O combate a extremismos num mundo em transformação foi também o foco do discurso da escritora Lídia Jorge, presidente da Comissão Organizadora destas comemorações, que discursou antes de Marcelo.
Lídia Jorge também recorreu ao passado para avisar sobre os loucos que estão a chegar ao poder e criticar a “fúria revisionista que nos assalta pelos extremos”.
“Consta que em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana. Esta população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade”, afirmou.
Para a escritora, enfrentamos agora um “novo tempo, que está a acontecer à escala global”. E com direito a uma menção que se pode associar a Donald Trump e Elon Musk.
“O poder demente aliado ao triunfalismo tecnológico faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a Terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque. E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas”, argumentou.