opinião

Quatro horas no carro com o "conversador" Marcelo: a entrevista que você gostaria de fazer

11 ago, 23:05

A jornalista Anabela Neves escreve sobre os bastidores da entrevista exclusiva com Marcelo Rebelo de Sousa

Um entrevistado inteiramente disponível para responder a “todas as perguntas”, um conversador com gosto pela palavra e pela pedagogia que ela pode representar, cerca de quatro horas de viagem com muito tempo para perguntar e responder...
 
É e foi um luxo e uma oportunidade que qualquer jornalista gostaria de ter uma vez na vida!
 
E que muitos cidadãos não desdenhariam para poder, cara a cara, interpelar o Presidente da República que tanto é popular e amado como criticado ou, nalguns casos, já odiado.
 
A entrevista nasceu de uma ideia simples: uma conversa de verão com Marcelo Rebelo de Sousa, durante as férias, em agosto. 
 
O Presidente aceitou mas num modelo híbrido. Não seria em férias mas algo parecido, com o chefe de Estado a conduzir o seu próprio carro, de pólo azul e com a segurança (obrigatória em qualquer circunstância) discretamente num outro veículo, atrás.
 
Na véspera, a equipa (os repórteres de imagem Tiago Ferreira e Helder Tavares e eu própria) fez a chamada visita técnica para testar a parafernália tecnológica que iria ser usada. No total, seis câmaras, incluindo quatro microcâmaras, três delas colocadas no vidro da frente e uma no carro de reportagem da TVI/CNN, mais duas câmaras. E ainda um drone.
 
Tudo verificado, com o aval da equipa presidencial e do próprio entrevistado que “espreitou” a imagem das microcâmaras e gostou, estávamos preparados para o dia seguinte.
 
Houve alertas e preocupações. Qual o melhor caminho para Viseu? A8, A17 e A25, autoestradas com menos trânsito, ou a A1 com saída para a  A25 perto de Aveiro? Pelo menos, nada de IP3, uma das estradas mais perigosas do país.

Afinal, Marcelo, um presidente que gosta de conduzir mas que tem fama de ser distraído, precisava de um trajeto que não acrescentasse mais dificuldades a uma aventura jornalística exigente, com câmaras dentro do veículo e jornalistas a fazer perguntas.
 
O próprio resolveu o assunto. Fomos pela A1 e A25 sem telemóveis presidenciais que ficaram com a ajudante de campo. Na última área de serviço antes de Viseu, a militar mostrou-lhe as chamadas e mensagens que tinham “entrado” até ali. Eram dezenas!
 
A viagem/entrevista correu sem incidentes. E a palavra dada foi honrada, parafraseando o Primeiro-ministro, um dos protagonistas de vários momentos da conversa.
 
Não houve, de facto, uma única pergunta que não fosse respondida mesmo que não fosse na ordem que eu tinha colocado nos cartões vermelhos da CNN Portugal, onde ficou o registo desta entrevista histórica.
 
No início da viagem, ainda tentei seguir o  “guião” que preparei mas o “conversador” Marcelo foi introduzindo temas, histórias, “cachas” sobre os vários temas.

O guião improvisado funcionou e não faltou quase nenhum assunto por abordar. E ainda houve espaço para algumas surpresas... a direita que não se soube “colar” a um presidente que abria espaço político ao centro; a relação com António Costa que “suga” tudo rapidamente tipo mata-borrão (e não é que os mais jovens não sabem o que é este objeto?!); a ministra da saúde que o presidente percebe melhor agora.
 
Mas também os “picos altos e picos baixos” do primeiro-ministro, a maioria absoluta que “percebeu” antes de acontecer, a alergia que os mais jovens têm à xenofobia e descriminação, o que já disse, em privado, a André Ventura sobre a incoerência do discurso anti-imigrantes num partido com enorme apoio da comunidade brasileira.
 
E ainda a vida que tem em Belém desde que se mudou para o palácio, a agenda intensa e as malas que gosta de fazer e desfazer ele próprio. Os cerca de oito quilómetros diários que faz durante o dia ou depois de jantar;  as dezenas de pessoas com que se cruza e servem de barómetro para aferir se o “governo está desgastado ou não”. E o momento mais difícil, o dos fogos, em que sentiu que podia ter ido tudo por “água abaixo” se não tivesse usado o “fusível de segurança”. Os quase 15 anos de televisão que fizeram dele “um parente” para os portugueses.
 
Não faltou quase nada neste registo que parece quase uma entrevista de despedida ou, pelo menos, um balanço sobre o que fez até agora e sobre o legado que gostaria de deixar.
 
Faltou foi tempo de edição porque não era possível usar as quase quatro horas de gravação das seis câmaras. 
 
A direção de informação da CNN foi, extraordinariamente, generosa e aceitou uma versão de quase uma hora e 7 minutos, um tempo quase inédito numa entrevista com este formato.
 
De fora, ficaram uns “pozinhos” sobre o futuro de Marcelo pós mandato, a falta ou não da foto de família ao longo dos dois mandatos, o último dia em 2026 e a almoçarada que vai fazer com bife, ovo a cavalo e cerveja para celebrar. Vão entrar no ar este domingo, dia 14.
 
Para memória futura  fica, sem dúvida, um testemunho único sobre um Presidente da República singular na sua forma de ser e estar.

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