Marcelo ouviu testemunhos de "heroínas da paz" na Irlanda do Norte

Agência Lusa , CE
20 out, 15:45
Marcelo Rebelo de Sousa em Londres, para o funeral da rainha (Lusa/Nuno Veiga)

O Presidente da República foi visitar a Glencree Centre, uma organização não-governamental para a paz e reconciliação fundada em 1974 em resposta ao conflito na Irlanda do Norte

O Presidente da República ouviu esta quinta-feira testemunhos de "heroínas da paz" na Irlanda do Norte, entre as quais Anne Walker, ex-combatente do IRA que se dedicou à reconciliação entre protestantes e católicos.

No segundo e último dia da sua visita de Estado à Irlanda, Marcelo Rebelo de Sousa foi até um vale no meio das montanhas de Wicklow, a sul de Dublin, para conhecer o Glencree Centre, organização não-governamental para a paz e reconciliação fundada em 1974 em resposta ao conflito na Irlanda do Norte.

Neste centro, acompanhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, e por deputados de PS, PSD, Chega, Iniciativa Liberal e PCP, visitou a exposição "heroínas da paz", sobre mulheres de várias esferas que desempenharam um papel no processo de paz da Irlanda do Norte e que estão envolvidas em projetos de reconciliação.

No local, chefe de Estado e comitiva ouviram as histórias de Joanne Fiztpatrick e Anne Walker e depois participaram numa sessão de diálogo mais alargada, confidencial, fechada à comunicação social.

Joanne Fiztpatrick junta crianças e jovens católicos e protestantes da Irlanda do Norte a jogar basquetebol para mostrar que é possível "viverem lado a lado".

Anne Walker, ex-combatente do Exército Republicano Irlandês (IRA), tornou-se promotora da paz no Theater of Witness, uma forma de atuação testemunhal de sobreviventes ao trauma, marginalização e opressão. O seu trabalho, entretanto, já se estendeu a outros conflitos, como o israelo-palestiniano.

"É a sociedade civil que chega onde os políticos não chegam, só chegam depois, preparam o caminho", comentou Marcelo Rebelo de Sousa, em declarações aos jornalistas, após ouvir estes testemunhos.

Anne Walker contou ao Presidente da República que o seu tio foi morto no Domingo Sangrento de 30 de janeiro de 1972, que cresceu num ambiente de conflito e injustiça e que aos 18 anos se tornou membro do Exército Republicano Irlandês (IRA), sem conhecimento dos pais.

"Embora me sentisse uma combatente da liberdade na altura, questionei muitas das coisas que fazíamos. A vida trouxe-me muita dor", disse Anne, referindo que "abusos sexuais, violações e violências" deste conflito são temas de que não se fala.

O Theater of Witness mudou a sua vida, aproximou-a de pessoas que combateram do lado oposto e agora acredita que "quando se fala a verdade, com honestidade, e os outros estão disponíveis a fazer o mesmo, as coisas acontecem e o impossível torna-se possível".

Marcelo Rebelo de Sousa mostrou-se impressionado com a sua história e elogiou "o papel das mulheres e destas organizações de mulheres que estiveram na base do entendimento que levou ao acordo político".

Anne Walker também deixou elogios ao chefe de Estado português, "tão próximo e tão humano e tão interessado", e assinalou que com ele vieram "pessoas de diferentes partidos".

"Na Irlanda do Norte temos políticos que não conseguem falar uns com os outros. Saber que ele está interessado em todas as vozes de todos os partidos, é tão, tão importante. Acredito que o vosso Presidente e Portugal têm muito a partilhar", considerou.

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