Se não for tratado com rapidez, a hérnia pode levar a que a “parede do intestino faça necrose, gere uma úlcera e abra uma perfuração intestinal”, explica o diretor do serviço de Gastroenterologia do São João
"Há uma área do intestino que se expande e que entra para um espaço que não é o seu". Foi isto que, segundo explica Guilherme Macedo, diretor do serviço de Gastroenterologia do São João, aconteceu a Marcelo Rebelo de Sousa esta noite e levou a que o Presidente da República tenha sido operado de urgência a uma hérnia encarcerada. "É uma víscera vai ocupar um espaço que, de uma maneira geral, está ocupado por uma baínha muscular que, no caso, se encontra fragilizada”.
O médico destaca como o Presidente da República tem vindo a ser alvo de sucessivas intervenções médicas por problemas relacionados com hérnias e úlceras, tendo vindo mesmo já a ser submetido a duas cirurgias, uma em 2017 e outra em 2021, relacionadas com uma hérnia umbilical e com duas hérnias enguinais. “Há um histórico de fragilidade dessa baínha muscular, o que faz com que haja um espaço onde o intestino possa entrar”.
No caso que levou a que Marcelo tenha de ser operado de urgência tudo indica que existiu uma “migração do intestino delgado”. “Se essa migração demorar algumas horas pode haver um compromisso vascular”, levando a sintomas como vómitos, dor e perturbação do processo digestivo.
Antes de ser internado, o site oficial da Presidência da República informou que Marcelo tinha sofrido uma “paragem de digestão” enquanto regressava de Amarante, onde marcou presença nas cerimónias fúnebres de António Mota, antigo presidente da Moto-Engil que morreu no domingo.
Para o diretor do serviço de Gastroenterologia do São João, o histórico de Marcelo mais a observação das imagens captadas com recurso a uma TAC levaram a uma decisão rápida para que o Presidente da República tenha sido submetido a uma cirurgia com o objetivo de remover aquela área e repôr a normalidade daquela zona. “Nestes casos em que não há muita demora na reação, o procedimento é a redução da hérnia, recolhendo-se depois a parte do intestino fora da cavidade abdominal e, finalizando-se com a reparação da parede abdominal”.
Guilherme Macedo sublinha também que a rápida intervenção cirúrgica é essencial para que não surjam complicações, nomeadamente levando a que a “parede do intestino faça necrose, gere uma úlcera e abra uma perfuração intestinal”. Nessas situações, “é mais complexo resolver em cirurgia”. “Operar uma hérnia encarcerada é bastante melhor do que quando uma hérnia tem uma víscera que rompeu e lança os seus detritos para o abdómen”.
O médico destaca também que uma das razões que pode provocar este tipo de hérnias é a “fraqueza da área muscular”. Nomeadamente através de “variações de pressão dentro do abdómen, como o ato de sentar ou de levantar”. Isto “faz com que parede abdominal fique fragilizada e abra caminho a que uma víscera, que devia estar contida, como é o intestino delgado, acabe por invadir um território que não é o seu território próprio”.
De uma maneira geral, a recuperação da cirurgia a que Marcelo está a ser alvo tende a ser “rápida e sem muitos problemas”, explica o médico, acrescentando que o Presidente da República está a debater-se com o mesmo tipo de hérnia “com que o Papa Francisco teve de lidar durante os últimos anos de vida”.