Marcelo usou "um tom paternalista mas a mensagem dele é clara: o Governo não esteve à altura" nos incêndios
Marcelo: "Não me pronuncio sobre se o Governo comunicou bem nos incêndios. Mas quem tem de tomar decisões em cima da hora muitas vezes chega tarde ou não percebe bem"
"Eu avisei o primeiro-ministro a 13 de agosto que o dia 15 ia ser complicado": Marcelo sobre os incêndios [nota: a festa do Pontal foi a 14]
Marcelo considera que ministra da Administração Interna não tem experiência suficiente para lidar com estes incêndios
Na íntegra: as declarações em que Marcelo conta que avisou Montenegro antes da festa do Pontal
Na íntegra: a comunicação ao país em que Montenegro assume que "contribuiu" para a "perceção" de que o Governo não acompanhou de perto os incêndios
Presidente da República diz que avisou a 13 de agosto, numa reunião que teve com Montenegro, que a situação dos fogos estava a complicar-se e que o dia 15 podia ser ainda mais "complicado". Certo é que no dia 14 de agosto o primeiro-ministro optou por manter a festa do Pontal, no Algarve, onde apareceu a celebrar com vários ministros enquanto parte do país ardia. Marcelo aproveitou ainda esta sexta-feira para dizer que a ministra da Administração Interna não tem experiência para lidar com os incêndios em curso
Ao lembrar a reunião de 13 de agosto, “Marcelo Rebelo de Sousa lançou uma crítica velada nas entrelinhas ao Executivo como um todo, especialmente ao líder do Governo - foi uma forma de dizer 'eu avisei, fiz a minha parte'”, considera o politólogo José Filipe Pinto. “Foi um aviso que, ao mesmo tempo, contém uma crítica ao Governo e àquilo que falhou na condução do processo dos incêndios.”
Quanto à ministra da Administração Interna, o Presidente afirmou que Maria Lúcia Amaral não tem experiência para lidar com fogos como os atuais. Tudo somado - a reunião de 13 de agosto e a avaliação da ministra -, José Filipe Pinto diz que Marcelo usou “um tom paternalista, quase como um pai que desculpa o filho, mas a mensagem é clara: o Governo não esteve à altura”.
Para Paula Espírito Santo, investigadora em Ciência Política, a argumentação usada pelo Presidente sobre a ministra “é contranatura, considerando os cargos que a ministra ocupou ao longo da carreira dela”. “Marcelo quis suavizar a falha, mas acabou por diminuir a própria ministra e, de forma indireta, fragilizar a credibilidade de uma pasta fundamental.”

Paula Espírito Santo afirma que Marcelo não podia manter o silêncio “por muito mais tempo”. “O Presidente está a fazer o seu papel institucional de comunicar num momento de pressão. Não pode ficar atrás do Governo, mas também não se pode sobrepor. Por isso escolheu um tom crítico, mas sem palavras hostis, embora a mensagem tenha sido clara.”
A 14 de agosto, em plena crise dos incêndios, o primeiro-ministro e vários ministros do PSD apareceram a celebrar na festa do Pontal, em pleno Algarve. “Marcelo percebeu que a imagem de Montenegro na praia colheu muito mal junto da opinião pública. Mas também percebeu que o problema não foram as férias, que são um direito de qualquer cidadão, mas sim o espírito de festa num momento em que o país estava em chamas. Ninguém entendeu quem estava a comandar o Governo a partir de Lisboa. Essa falta de clareza fragilizou Montenegro”, observa José Filipe Pinto.
Para o politólogo José Filipe Pinto, Marcelo quis reforçar a sua solidariedade institucional mas ao mesmo tempo “deixou claro que fez o que lhe competia”. “Aproximando-se do fim do mandato, o chefe de Estado não podia ser acusado de hostilizar o Governo nem de ficar à margem.”
Trata-se de uma espécie de "equilíbrio", corrobora Paula Espírito Santo. “Faz uma leitura crítica, sem palavras agressivas, mas suficientemente claras para marcar uma posição.”
Estas declarações de Marcelo surgem um dia depois de Luís Montenegro ter feito uma declaração ao país de mais de 30 minutos em que assumiu que pode “ter contribuído para a perceção” de que o Governo não acompanhou de perto os incêndios. Para José Filipe Pinto, essa admissão revela que, em termos políticos, o primeiro-ministro “aprendeu” e tentou assumir responsabilidade. “Foi uma maneira de reconhecer os erros sem os admitir de forma plena. Os erros não se desculpam, evitam-se.”
