Presidente da República assinalou em Estraburgo os 40 anos da adesão de Portugal à CEE e pediu aos aliados da Europa para perceberem que "não há senhores únicos no globo, que não há poderes eternos e que as nossas alianças e parcerias valem mais do que a espuma, mesmo espetacular, mesmo sedutora, de cada dia"
Marcelo Rebelo de Sousa defendeu esta quarta-feira o papel central da Europa na organização mundial e o multilaterismo e, mesmo sem o mencionar, deixou uma crítica ao presidente norte-americano, Donald Trump, dizendo que preferia que os EUA fossem "sempre aliados a 100% e não com hiatos, intermitências ou estados de alma".
No seu discurso no Parlamento Europeu, numa sessão comemorativa dos 40 anos da adesão de Portugal e Espanha à então Comunidade Económica Europeia (CEE), o Presidente da República lembrou também a história de Portugal e afirmou que “não há portugueses puros, há portugueses diversos”, frisando que o país se formou “num caldo de etnias, de culturas e de religiões”.
"É hoje moda do momento esquecer, minimizar, diminuir a Europa e o seu papel no mundo. Não percamos um segundo a hesitar, a duvidar, a autoflagelarmo-nos. Temos mais liberdade, democracia e estado de direito do que tantos outros", disse Marcelo Rebelo de Sousa aos representantes europeus.
No entanto, admitiu, "temos de fazer mais e melhor. Precisamos de mais juventude, mais conhecimento, mais ciência, mais tecnologia, mais segurança comum, mais crescimento, mais justiça, mais capacidade de mudança dos nossos sistemas políticos, económicos e sociais. Precisamos de mais unidade. Precisamos de mais futuro. Precisamos. Mas então tratemos disso. Contemos antes de mais connosco. Reconstruamos a Europa. Sem medos, sem inibições, sem complexos."
A Europa pode contar também com os seus aliados, disse, destacando o Reino Unido e os EUA. E sobre estes: "Preferiríamos que fôssemos sempre aliados a 100% e não com hiatos, intermitências ou estados de alma".
"Europeus, sempre. Transatlânticos, sempre. Universais, sempre. Avancemos, pois, que os aliados e os parceiros virão como sempre vieram, quando perceberem que não há senhores únicos no globo, que não há poderes eternos e que as nossas alianças e parcerias valem mais do que a espuma, mesmo espetacular, mesmo sedutora, de cada dia".
Marcelo acredita que ninguém consegue resolver os problemas do mundo sozinho. "Falhará quem o tente no século XXI, como falharam outros no século XX". Por isso, critica o bilateralismo que é uma forma de unilateralismo e "uma forma de enfraquecer o multilateralismo e as instituições internacionais sem que, quem deseja exercer essa hegemonia e esse controlo, tenha condições para o fazer como sonha e afirma. Não há como fazê-lo ignorando a Europa".
Marcelo Rebelo de Sousa salientou que o Reino de Portugal “nasceu na Europa e nasceu de linhagens europeias”, recordando a ligação materna de D. Afonso Henriques ao Reino de Leão, que mais tarde “formaria o Reino de Espanha”, e paterna ao Duque de Borgonha, “que ajudaria a formar o Reino de França”. “Mas nasceu também de linhagens vindas de outras Europas, do Norte, do Sul, do Oeste e do Leste. E de África e das Ásias. Mais tarde, das Américas e das Oceânias. Num caldo de etnias, culturas e religiões”, afirmou.
O Presidente da República frisou que os portugueses são “europeus desde as raízes”, mas essas “raízes mesclaram-se, logo à partida, com as de outros continentes e outros universos”. “Por isso, não há portugueses puros. Há portugueses diversos, na sua riqueza cultural”, afirmou, recebendo um aplauso de alguns eurodeputados.
Marcelo Rebelo de Sousa acrescentou que os portugueses são “europeus na língua, na cultura, na História”. “E, porque europeus, universais”, concluiu.