O que Marcelo disse sobre Trump tem potencial para se tornar um conflito diplomático? Tem. É provável que se torne isso? Depende - Trump é imprevisível. Marcelo vai ter de pedir desculpa? Não necessariamente - um "mea culpa" pode chegar
“Ativo soviético - ou russo”: estas quatro palavras que Marcelo Rebelo de Sousa usou para descrever Donald Trump podem criar, na visão de muitos comentadores e analistas, um verdadeiro conflito diplomático. Um irritante, para recuperar uma expressão que o meio diplomático conhece bem.
Para quem está habituado à negociação entre países e à resolução deste irritantes – como embaixadores ouvidos pela CNN Portugal, que optam pelo anonimato tendo em conta a sensibilidade do assunto –, não há um protocolo perfeito a seguir nestes casos. “Tudo depende do próprio Trump - que, como sabemos, é imprevisível”, diz um desses embaixadores.
O tema tem alimentado notícias e comentários na América. Mas, por muito que o presidente dos EUA se alimente daquilo que se fala na imprensa, não deverá passar disso. Mas se Trump reagir, gere-se o caso a partir daí. Senão, o interesse de Portugal é tentar que o assunto “caia no esquecimento”. A haver movimentações de bastidores, partiriam sempre do lado de Washington. E no que consistiriam? “Uma reação do Departamento de Estado ou o embaixador cá em Lisboa a pedir algumas explicações sobre o assunto”, diz um antigo diplomata.
Outro dos caminhos passaria por chamar à Casa Branca um representante português, não necessariamente o embaixador, mas sempre com a maior das discrições, apontam outros embaixadores nacionais à CNN Portugal. “Apenas para demonstrar desconforto”, justificam.
“A minha previsão é de que nada vai acontecer. Os EUA vão fazer de conta que não ouviram nada e o nosso Governo vai fazer a mesma coisa”, refere um dos embaixadores. “Acho que o melhor é não fazer nada e fingir que nada se passou”, junta outro. “Do nosso lado, há todo o interesse em não enviar achas para a fogueira”, completa um terceiro.
Um pedido de explicações dos representantes diplomáticos portugueses pode ser o suficiente para acalmar os ânimos. Mas, no que à diplomacia diz respeito, explica quem dela vive, por vezes pode ser necessário um pedido de desculpas de quem causou a situação.
“Não digo que Marcelo tenha de fazer um ‘mea culpa’, mas talvez tenha dar uma explicação do contexto em que estava [a Universidade de Verão do PSD], de que estava com alunos, de que era necessário usar uma imagem mais simplificada, percetível pelos alunos”, explica um embaixador, lembrando a constante presença mediática do chefe de Estado.
A possibilidade de uma retaliação – como a expulsão do embaixador português em Washington – é extremamente improvável. Até porque, mesmo com uma aliança histórica e uma base militar na Lajes, Portugal é pequeno no mapa do mundo que o presidente norte-americano tem na cabeça. “Trump está-se a marimbar para Portugal ou para a base dos Açores”, diz um diplomata.
Embora sem querer comentar as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, já veio lembrar que as posições sobre a política externa são do Governo e não do chefe de Estado.
“A condução da política externa cabe ao Governo e, portanto, obviamente é através do Governo que as posições de Portugal são veiculadas neste plano”, afirmou o ministro.
Ou seja, mesmo que as palavras sejam do Presidente da República de Portugal, não devem ser vistas como a posição de Portugal. É um dos argumentos, justifica um dos embaixadores ouvidos pela CNN Portugal, que poderá ajudar a colocar água na fervura. “Será encarada como uma posição pessoal do Presidente da República, até porque todos temos liberdade para tecer a nossa opinião sobre o que se passa na política de outros países.”
Ainda assim, concordam os diplomatas, “ativo soviético - ou russo” não deixa de ser uma “expressão infeliz”. Marcelo, que ainda é Presidente, optou pelo fato de professor e comentador quando disse isso. Mas, afinal, é chefe de Estado.