Portugal e Governo em "situação muito difícil": Marcelo pode ter arranjado um "conflito diplomático" com palavras sobre Trump

28 ago 2025, 21:00
Marcelo Rebelo de Sousa e Donald Trump

Esta foi a 11.ª vez que Marcelo Rebelo de Sousa participou na Universidade de Verão do PSD, local onde pode ter deixado "o país, o Governo e Paulo Rangel numa situação muito difícil", ao chamar Trump de "ativo russo"

Foi com surpresa que os portugueses ouviram Marcelo Rebelo de Sousa considerar Donald Trump como “um ativo russo” em plena Universidade de Verão do partido que já liderou, o PSD. Com a declaração surgiu também uma questão: poderemos estar na iminência de um conflito diplomático com os EUA?

“Claro que sim", começa por dizer o politólogo José Filipe Pinto. "O Presidente da República é a mais alta entidade do país e não existe separação entre o chefe de Estado, o cidadão ou o antigo líder do PSD. Estas declarações, quer tivessem sido feitas num comentário televisivo ou num evento partidário, ao assumirem carácter público, levantariam sempre uma questão de natureza diplomática.”

Foi de surpresa que Marcelo Rebelo de Sousa apareceu perante uma planeia que inicialmente o aguardava através de uma videoconferência em Castelo de Vide. Num painel intitulado “As respostas do Presidente”, o chefe de Estado aproveitou para abordar a situação internacional e destacar Donald Trump como exemplo de um estilo de liderança mais “emocional”, próximo do cidadão comum e marcado por estratégias de comunicação direta. Mas foi quando classificou Trump como “ativo soviético” - depois corrigido para "ativo russo" - que a intervenção deixou o registo académico e entrou no terreno delicado da diplomacia.

“Não é uma aliança baseada na amizade, na cumplicidade económica, ideológica ou doutrinária. Funciona como ativo”, frisou o Presidente da República, perante jovens quadros sociais-democratas.

Foi nesse momento que, para José Filipe Pinto, a situação tomou contornos mais preocupantes. “Um presidente classificar outro presidente como ‘ativo soviético’ ou ‘ativo russo’ é mais do que uma acusação ofensiva: é afirmar que Trump estaria ao serviço dos interesses da Rússia.”

O especialista recorda que Portugal é “um país da União Europeia, aliado dos EUA, país com quem tem vários acordos, nomeadamente o da Base das Lajes". "Nesse contexto, as palavras do Presidente têm um peso acrescido”.

Apesar disso, a professora Paula do Espírito Santo defende que a polémica pode não escalar, pois “trata-se de uma declaração que se esgota naquele momento pessoal”. “Portugal não está escondido do ponto de vista diplomático. Mas não sabemos se há interesse dos EUA em criar uma guerra institucional. Julgo que não terá consequências maiores. É mais um desconforto do que uma crise.”

Para a especialista, o objetivo de Marcelo Rebelo de Sousa não passava por espoletar uma reação internacional, mas sim por “estimular o pensamento dos estudantes presentes”, tendo em conta que, “enquanto professor, era algo que gostava de fazer”, ao mesmo tempo que "quis mostrar que é isento, mas não neutro, que deve ser equidistante, mas não desprovido de opiniões sobre a atualidade”.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, intervém durante uma aula na Universidade de Verão (UV) do PSD, numa unidade hoteleira, Castelo de Vide, 27 de outubro de 2025. LUSA

Marcelo pode ter deixado "o país, o Governo e Paulo Rangel numa situação muito difícil"

Caso Donald Trump entenda como ofensivas as palavras do Presidente português, poderá optar por adotar uma medida que, para José Filipe Pinto, “configura um incidente diplomático”.

“A administração americana pode chamar o embaixador para pedir esclarecimentos, e isso já configura um incidente diplomático. Mais do que isso, pode ser chamado o embaixador norte-americano em Lisboa a Washington, DC, colocando em causa as relações entre os dois Estados”.

Para o politólogo, a situação “poderia ter sido evitada”. “A palavra ‘ativo’ tem uma conotação tremendamente ofensiva e deveria claramente ter sido evitada. Podemos estar perante um incidente diplomático de grande gravidade.”

O mesmo especialista alerta para os custos desta escolha de palavras. “Sendo que foi o Presidente da República quem proferiu as palavras, se a administração americana exigir satisfações, será o Governo, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a ter de responder. Isto fragiliza não só a figura do Presidente, mas também o país e o Governo, que acaba por ser uma vítima colateral.”, afirma, avisando ainda que “Paulo Rangel pode ver-se numa situação muito difícil”.

"Um embaraço" para o PSD

“As declarações geraram certamente um verdadeiro embaraço para os responsáveis do PSD que estavam naquela sala”. O alerta foi dado inicialmente por Helena Matos, comentadora da CNN Portugal, no espaço de debate “Crossfire”, onde considerou a declaração de Marcelo como “comprometedora”.

“O Presidente da República estava a falar num encontro daquele que é o seu partido, mas para todos os efeitos ele é Presidente da República. (…) Há coisas que comprometem não apenas quem o diz, mas também quem o ouve e que fica numa situação em que tem de fazer de conta que não ouviu”, avisou a comentadora.

A mesma opinião é partilhada por José Filipe Pinto, que considera que “tais declarações serem ditas numa reunião do partido que governa Portugal só agravou a dimensão do desastre”. “Marcelo não conseguiu ter o distanciamento suficiente para perceber que não estava apenas numa reunião de amigos, mas num evento partidário. Não estava ali como ex-presidente do partido, mas sim como Presidente da República”.

Ainda assim, Paula do Espírito Santo desvaloriza o cenário em que a declaração foi proferida, tendo em conta que “estava num ambiente de liberdade de expressão”. “Não foi uma declaração pública, mas feita durante uma reunião com estudantes. Deve ser relativizada tendo em conta o contexto.”

Na sua perspetiva, Marcelo parece regressar ao estilo académico que marcou a sua vida pública. “Está a voltar a ser o pensador que estimula a audiência sem pensar tanto nas consequências. Quer voltar a ser o professor que procura retirar os alunos do pensamento único, ainda para mais numa altura em que se aproxima do fim de mandato e sabe que não vai ter qualquer consequência”.

As outras vezes

Nas suas 11 intervenções na Universidade de Verão dos sociais-democratas, muitas foram as declarações que ficaram míticas ao longo dos anos, sobretudo direcionadas para a política interna. 

Em 2010, já com Passos Coelho à frente do partido, Marcelo descreveu-o como um líder “muito cerebral e frio”, prevendo que resistiria às pressões internas e acabaria por alcançar o Governo. A previsão viria a confirmar-se no verão do ano seguinte, com Marcelo a frisar, então, que seria preferível esperar mais tempo do que avançar em clima de precipitação.

Dois anos mais tarde, com Portugal sob assistência externa e o PSD a governar em coligação com o CDS-PP, Marcelo defendia a necessidade de criatividade para lidar com as exigências da Troika, sublinhando que o Executivo não deveria pedir mais tempo nem mais fundos aos credores, algo que, de facto, não aconteceu.

Em 2013, num contexto ainda dominado pela intervenção financeira, reforçou a ideia de que o país precisava de “margem de manobra” para enfrentar as sucessivas decisões do Tribunal Constitucional que travavam várias medidas do Governo.

Esta foi a 11.ª vez que Marcelo Rebelo de Sousa participou na Universidade de Verão do PSD. A última presença remonta a 2023, quando marcou presença num jantar-conferência dedicado à guerra na Ucrânia, a única ocasião em que marcou presença física nesta iniciativa de formação política desde que assumiu funções como Presidente da República.

Em 2024 interveio novamente, mas através de uma mensagem em vídeo. Antes disso, já tinha integrado as edições de 2005, 2006, 2007, 2009, 2010, 2012, 2013 e 2014, abordando então diversos temas junto dos jovens participantes.

Marcelo Rebelo de Sousa deixa o lugar mais alto do Estado português já em 2026, tendo já deixado claro, também na Universidade de Verão deste ano, que tenciona afastar-se da política "totalmente", pois considera que "quem termina a função de Presidente da República não pode a opinar sobre Governos, sobre primeiros-ministros ou sobre lideranças partidárias".

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