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Foi "uma espécie de bailado" com "caneladazinhas" e "algumas mágoas". Marcelo despede-se de uma presidência em que contracenou com Costa por 2.947 dias

8 mar, 12:00
Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa

Começou antes de Marcelo Rebelo de Sousa entrar em Belém, quando o então candidato escolheu dar lastro à solução governativa de António Costa, e foi-se fazendo de aproximações e choques, choques e aproximações, do guarda-chuva ao “otimista irritante”, dos incêndios à pandemia, de Galamba ao parágrafo - "assassino”. O que parecia uma das coabitações mais improváveis e mais duráveis da democracia acabaria por precipitar-se no outono de 2023 e, já depois da queda, Costa fixaria por escrito a sua leitura do desfecho numa frase curta, quase de ajuste de contas: “A ocasião fez a decisão”. Talvez por isso Marcelo tenha ido despedir-se do “brilhante” aluno Costa em Bruxelas: para que o fim político de ambos não ficasse marcado pela rutura, mas por uma derradeira imagem de reconciliação

Em Bruxelas, já se falava como quem arruma uma década. Marcelo Rebelo de Sousa estava em despedidas, a fechar o mandato por fora e por dentro, e António Costa, agora presidente do Conselho Europeu, devolveu-lhe uma frase antiga com a ligeira crueldade da intimidade. “Eu nunca tive dúvidas de que éramos muito felizes.” E logo a seguir afinou a ironia: “A dúvida era mais de quem, contrariando o otimismo saudável, cultivava, por vezes, algum pessimismo menos produtivo”. Marcelo respondeu no mesmo registo de fecho, mas por outra via: “A amizade existiu sempre, com lugares, sem lugares, com lugares diferentes, em condições diferentes”. Ao fim de tudo, a relação era assim fixada por ambos na moldura que mais lhes convinha: não a da rutura, não a do ressentimento, não a da queda do Governo em novembro de 2023, mas a de uma convivência longa, cúmplice por vezes, desigual por vezes, atravessada por crises sérias e, ainda assim, suficientemente sólida para sobreviver ao fim da coabitação.

Marcelo Rebelo de Sousa sai de Belém, António José Seguro entra, e os dez anos presidenciais de Marcelo podem ser lidos de muitas maneiras. Pela presidência de proximidade. Pela teatralidade do gesto. Pela pulsão interventiva. Pela sucessão de crises. Mas há uma linha que os atravessa quase por inteiro e que começa antes da própria posse presidencial: a contracena com António Costa. Costa já estava em São Bento quando Marcelo ainda era candidato. E, de 9 de março de 2016 a 2 de abril de 2024, os dois coincidiram em funções durante 2.947 dias, a segunda convivência mais longa entre um Presidente da República e um primeiro-ministro em democracia, só atrás de Mário Soares e Cavaco Silva.

É por aí que o mandato de Marcelo também se conta. Paulo Magalhães, jornalista e antigo assessor presidencial de quem agora sai, chama à relação “uma espécie de bailado” em que ambos “conheciam a coreografia”. Havia, no seu retrato, “bocas”, “caneladazinhas” e “bom espírito”, mas também “muito respeito” entre dois homens “muito políticos, muito viciados em política”. José Pedro Mozos, ex-adjunto nos Governos de Costa e hoje diretor de Assuntos Públicos na ALL Comunicação, coloca-os noutro registo: “eram dois institucionalistas”, “dois jogadores muito fortes de um jogo” de que ambos conheciam “muito bem” as regras. As duas leituras não se anulam. Complementam-se. Havia intimidade, picardia, gosto pelo palco e pela frase. Havia também cálculo, separação de poderes, consciência do lugar de cada um e noção exata do que o país suportava ou não suportava em cada momento. Ao longo de oito anos e 25 dias, isso produziu imagens de harmonia improvável, momentos de pressão real, divergências públicas, elogios recíprocos, feridas mal-escondidas e uma espécie de insistência, quase teimosa, em impedir que a relação se deixasse reduzir ao episódio do momento.

No fim, em Bruxelas, já falavam da felicidade passada porque a década estava fechada. Para a perceber, é preciso voltar ao princípio. E até antes do princípio. Em dezembro de 2015, Marcelo Rebelo de Sousa ainda não era Presidente. Era candidato. O país saía da troika, trazia a fadiga dos cortes, a zanga com os políticos e a fratura aberta pela solução governativa que levara António Costa a São Bento, apesar da vitória eleitoral de Pedro Passos Coelho. A geringonça dividira a direita, agitara a praça pública e levantara, em setores do sistema político e mediático, a suspeita de uma engenharia ilegítima. Nesse contexto, Marcelo escolheu o lado da estabilidade. “Eu farei o possível para que [o Governo] seja duradouro, porque se der certo é bom para o país e se não der certo é pior para o país.” E apertou logo a ideia: “O pior que podia haver era termos, em cinco anos, dois ou três governos”. A formulação importava porque não equivalia a uma adesão política à solução Costa. Era outra coisa: a legitimação da sua duração.

José Pedro Mozos lê nesse arranque “uma dose de realismo institucional” e também “honestidade intelectual” da parte de Marcelo. Sendo “um constitucionalista”, sublinha, não podia alinhar na ideia de que a solução encontrada por Costa era ilegítima, por mais que esse discurso pudesse ser emocionalmente apelativo para setores da direita. Havia ainda cálculo político: para ganhar à primeira volta, Marcelo precisava de “chegar a praticamente todos os eleitorados” e, portanto, também ao socialista. No fim de contas, resume Mozos, “as vantagens em ser aliado de Costa eram maiores do que as de ser eventualmente uma pedra no sapato do Governo”. Paulo Magalhães aproxima a decisão de outra obsessão de Marcelo, mais funda e mais antiga: “Ele sempre foi obcecado com a estabilidade, sempre foi muito”. E logo a seguir lembra o paradoxo: “Agora, para o fim, claro que ele usou a ‘bomba atómica’ [dissolução] provavelmente mais vezes do que qualquer Presidente da República”.

Ainda antes de entrar em Belém, Marcelo reforçou essa linha no caso Banif. Considerou que a solução encontrada fora “aquilo que era possível” e fora feita “de uma forma rápida”. Dias depois, iria ainda mais longe, quase em modo de programa. “A função do Presidente da República não é ser contrapoder, mas acompanhar de perto, de forma cooperante, o que vier a ser apresentado e que faça sentido a cada momento.” E ainda: “Tudo farei para ajudar a encontrar uma melhor arquitetura”. Era o Marcelo pré-presidencial a desenhar publicamente a doutrina da sua convivência com António Costa. Cooperação vigilante, não antagonismo estrutural.

Quando Costa pediu aos socialistas que votassem num candidato da sua área política nas presidenciais, Marcelo respondeu sem hostilidade. Chamou-lhe um apelo “muito patriótico”, até “uma grande ajuda”, e acrescentou que “seria absurdo” se o primeiro-ministro não o fizesse. Sobretudo, separou a campanha presidencial da futura convivência institucional. O combate eleitoral era uma coisa, a relação entre Belém e São Bento seria outra. Costa percebeu depressa o guião. Depois da eleição, falou em “máxima lealdade” e “plena cooperação institucional”. No primeiro encontro em São Bento com Marcelo já eleito, voltou à mesma gramática: era “fundamental” que os órgãos de soberania tivessem “boa cooperação institucional”. A insistência não era decorativa. Era preventiva. Os dois estavam a blindar a relação antes de ela ser testada.

Lua de mel em Paris e lua de fel em Pedrógão

A blindagem resultou, a princípio, quase melhor do que o esperado. Marcelo Rebelo de Sousa chegou a Belém depois de dez anos de Cavaco Silva e entrou, nas palavras de Paulo Magalhães, para fazer “precisamente o contrário”. Ao presidente “mais stiff”, “mais circunspecto”, “mais frio”, sucedia o homem das selfies, dos beijinhos, dos abraços, da praia, da rua, do contacto físico, da descompressão da figura presidencial. “O povo estava sedento de algum carinho”, recorda Magalhães, e Marcelo apareceu com “a história das selfies”, “o Presidente dos afetos”, quase para “reconciliar as pessoas umas com as outras e reconciliar as pessoas com os políticos”. A convivência com António Costa beneficiou desse ambiente desde o início. Era um Presidente de direita, “católico conservador”, “com pedigree de direita”, a entender-se à vista de todos com um primeiro-ministro socialista apoiado por dois partidos à esquerda do PS e “filho de um comunista”. Para Magalhães, a imagem continha uma utilidade política imediata: “Isso veio trazer uma mensagem de paz, de descontração e de harmonia à sociedade portuguesa”. Tinha, por isso, uma força própria. Normalizava a solução. Desdramatizava o país.

Em maio de 2016, Marcelo começou a dar a Costa uma personagem. Chamou-lhe homem de “otimismo crónico e, às vezes, ligeiramente irritante”. No dia seguinte, recuperou a velha relação professor-aluno: “Desde que foi meu aluno sempre o achei um otimista militante. Eu também era um otimista, mas, até porque era mais velho, menos militante”. A frase ficou. Já não sairia da relação. Tinha humor, tinha afeto, tinha um recado político sobre a forma de olhar para a realidade. Costa passava a ser, na boca presidencial, não apenas o primeiro-ministro, mas um temperamento.

Um mês depois, Paris daria à relação a sua primeira grande imagem. No 10 de Junho, entre selfies e abraços com a comunidade portuguesa, começou a chover. António Costa aproximou-se com um guarda-chuva para proteger o Presidente. Marcelo Rebelo de Sousa leu logo a cena em voz alta: “Estão a ver o que é a colaboração entre os dois poderes?” E rematou: “Quem tem o guarda-chuva é o senhor primeiro-ministro de esquerda, quem é apoiado é o Presidente que veio da direita”. Costa respondeu com a palavra mais eficaz que podia oferecer naquele instante: “É a solidariedade”. A fotografia ficou. Ficou tanto que ainda hoje serve de resumo rápido para o início da relação: improvável na origem, fácil na superfície, útil ao sistema.

Em 2017, no começo, quando “geringonça” foi eleita palavra do ano, Marcelo contrapôs que, se dependesse dele, a escolhida teria sido “descrispação”. O país, na sua leitura, ganhara menos choque, menos crispação, menos dramatização. Em setembro, apresentava-se já como “um Presidente tranquilo” com a legislatura e sem razões para pensar que o Governo não pudesse ir até ao fim. Ainda estava investido na função estabilizadora do cargo. Ainda estava, de certa forma, a proteger o ciclo.

O primeiro embate sério viria nesse mesmo ano, com os incêndios. Em Oliveira do Hospital, Marcelo endureceu como até aí não endurecera. Pediu que o Governo retirasse “todas, mas todas, as consequências” da tragédia de Pedrógão, e não só, recusou a ideia de que reformar “a pensar no médio e longo prazo” implicasse “conviver com novas tragédias até lá chegarmos” e empurrou a questão para o centro do sistema: se havia dúvidas sobre a capacidade do executivo, que a Assembleia “clarifique se quer ou não manter em funções o Governo”. Falou ainda num “novo ciclo” e admitiu que isso obrigava a ponderar “o quê, quem, como e quando melhor o serve”. Foi uma intervenção de chefe de Estado em pressão aberta sobre o Governo. Paulo Magalhães guarda-a como um discurso “violentíssimo”, “pesadíssimo”. “Vê-se aí que ele não hesita, quer dizer: amigos, amigos, mas a pátria à parte.” José Pedro Mozos reconhece ali o primeiro grande desalinhamento entre os dois e recupera a imagem de Francisco Pinto Balsemão: Marcelo era “como o escorpião da fábula”, alguém que “não consegue resistir à sua própria natureza”. O Presidente dos afetos, das selfies e dos abraços aparecia agora noutra versão: a do homem que, quando entendia que tinha de “puxar dos galões”, puxava mesmo. Costa respondeu com a sua própria psicologia transformada em frase: “Eu tenho nervos de aço, sou um otimista, às vezes talvez irritante, mas um otimista.” A velha piada passava a ser linguagem de confronto. Não ainda de rutura. Mas de confronto, sem dúvida. E não ficou apenas pelo aviso. Pouco depois, já na ressaca política dos incêndios, Constança Urbano de Sousa acabaria mesmo por sair do Governo, o que deu às palavras de Marcelo um peso ainda mais nítido.

A relação recompôs-se, como tantas vezes se recomporia. Em 2018, Marcelo Rebelo de Sousa integrou explicitamente António Costa e a sua aliança à esquerda numa leitura legitimadora da recuperação portuguesa. Falou do “milagre económico português” como recuperação em dois tempos, um primeiro no ciclo Passos Coelho, outro no ciclo Costa com a aliança à esquerda “coroada pelo ministro Mário Centeno”. Ao mesmo tempo, preservava a sua margem de exigência. Em temas como Tancos, insistia que as responsabilidades tinham de ser apuradas “doa a quem doer”. Era este o padrão: validação sistémica de Costa, autonomia presidencial no escrutínio.

Em 2019, o Novo Banco mostrou outra vez a diferença de registo. Marcelo puxava pela transparência visível, pelo escrutínio com rosto público: “Faz sentido uma auditoria”, não apenas ao que antecedera a resolução, mas também ao período posterior. António Costa encostava-se a outra gramática, mais institucional, mais contida, mais defensiva das fronteiras formais: a supervisão “não cabe ao Governo”. Não houve crise. Houve fricção. No Natal desse ano, porém, a imagem oficial da relação continuava a ser de estabilidade. Marcelo falava em “mais um [ano] da convivência e convivência estável e solidária entre o Presidente da República e o Governo”, ao mesmo tempo que deixava o aviso para diante: 2020 seria “muito exigente” e “a exigência é uma sentinela que não pode dormir”. Costa acompanhava-o no tom e no diagnóstico, valorizando a “saudável convivência” entre os órgãos de soberania como algo “muito positivo para a imagem externa do país e também para a unidade interna”. Nenhum dos dois sabia ainda o que vinha.

E de repente tudo parou

A pandemia deu-lhes uma nova fase. No primeiro estado de emergência, Marcelo Rebelo de Sousa falou da necessidade de “antecipar e reforçar a solidariedade entre poderes públicos”. Belém não surgia ali como corretivo de São Bento. Surgia como parte de uma frente comum. A crise da covid reordenou provisoriamente as diferenças de estilo. António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa continuavam a ser homens políticos muito diferentes, mas a necessidade de transmitir unidade institucional sobrepunha-se a quase tudo o resto.

Foi talvez o momento alto da coabitação. Costa chamou-lhe, já em 2021, “solidariedade institucional total”. E acrescentou o mais interessante: “Sempre estivemos unidos nas decisões a tomar mesmo quando partíamos de pontos de vista diferentes”. Marcelo, por seu lado, ofereceu uma das fórmulas mais certeiras da relação. Funcionava, explicou, por três razões: “cada um vive na sua casa”; era “uma relação institucional que pode ter momentos afetivos, mas não uma relação afetiva que pode ter momentos institucionais”; e, como em todas as relações humanas, os momentos maus “não se trazem a público”, “resolvem-se”.

Pouco depois, no último Conselho de Ministros do seu primeiro mandato, António Costa ofereceu-lhe um bonsai de carvalho português. Marcelo tinha pedido “solidariedade estratégica” para a floresta. Costa transformou o presente em símbolo da “excelente cooperação institucional” entre ambos. O bonsai ficou como miniatura perfeita da relação: cuidado continuado, trabalho paciente, forma contida, raízes fundas.

Até os estilos distintos rendiam cenas úteis. Na abertura da época balnear de 2020, Marcelo voltou a ser aquilo que Paulo Magalhães identifica como “o Presidente dos afetos”: banho de mar, banho de povo, contacto físico, disponibilidade para a fotografia e para a cena pública. António Costa, no mesmo enquadramento, manteve-se do lado oposto do retrato: não tirou os sapatos, não largou a gravata, não cedeu à coreografia balnear. A imagem valia quase como resumo visual de dois modos de ocupar o poder. De um lado, o Presidente que, nas palavras de José Pedro Mozos, procurou fazer de Belém “um cargo de proximidade” e “dar um bocado mais de humanidade à função”; do outro, o primeiro-ministro mais executivo, mais contido, mais agarrado à disciplina do cargo mesmo ao ar livre. Um parecia feito para a espuma e para a câmara. O outro, para a contenção do gabinete, mesmo fora dele. A coabitação também era isto: dois corpos políticos diferentes a ocuparem o mesmo quadro.

Mas a pandemia não aboliu a política. Apenas a adiou. Na crise do Orçamento para 2022, Marcelo Rebelo de Sousa deixou claro que o chumbo “significaria dissolução”. Não haveria terceiras vias. Era uma escolha presidencial e foi anunciada como tal. Depois, quando o PS conquistou a maioria absoluta, Marcelo acolheu o resultado e ao mesmo tempo apertou o laço à volta de Costa. “Deram-lhe uma maioria absoluta. Não lhe deram — como nunca acontece numa democracia — nem poder absoluto, nem ditadura de maioria.” E prendeu politicamente a vitória ao rosto do primeiro-ministro: “não será politicamente fácil” que a cara que vencera pudesse ser substituída a meio do caminho por outra. António Costa respondeu com a fórmula simétrica: “A maioria absoluta corresponde a uma responsabilidade absoluta”, “sem álibis e sem desculpas”.

Ali começava outra fase. Em dezembro de 2022, ainda falavam de mãos dadas para atravessar as novas crises. “Foi de mãos dadas que atravessámos as outras crises, é assim que temos de atravessar esta”, afirmou Costa. Em janeiro de 2023, apesar da sucessão de casos governativos, Marcelo ainda afastava a hipótese de dissolver: “Não contem com a ideia de dissolver o Governo”. E acrescentava que acreditava na “boa-fé” de António Costa. Em março, no auge da cordialidade pública, Costa ofereceu-lhe um dos elogios mais expansivos de toda a relação: Marcelo era “uma das melhores companhias que qualquer um pode ter, até numa viagem”. Marcelo, do outro lado, sublinhava que nunca houvera “zanga pessoal”. O contraste com o que viria logo a seguir é o que dá a esse momento um relevo especial: poucas vezes se elogiaram tanto tão perto de um conflito tão sério.

De Galamba a Lucília 

O caso João Galamba mudou o tom. A demissão do ex-adjunto Frederico Pinheiro, a noite caótica no Ministério das Infraestruturas, a saída do computador de serviço com informação sensível e a intervenção do SIS para o recuperar — uma sucessão de episódios que, em pleno inquérito parlamentar à TAP, rebentou no centro do Governo e corroeu a autoridade política do ministro. Na declaração ao país de maio de 2023, Marcelo Rebelo de Sousa fez da divergência uma doutrina. “Foi por tudo isto que entendi que o Ministro das Infraestruturas deveria ter sido exonerado.” E logo a seguir fixou o essencial: a divergência de fundo com o primeiro-ministro não era sobre qualidades pessoais nem desempenho, mas sobre “a responsabilidade, a confiabilidade, a credibilidade, a autoridade do Ministro, do Governo e do Estado”. O fecho era politicamente pesado: “No passado, com maior ou menor distância temporal, foi sempre possível acertar agulhas. Desta vez não.” António Costa tratou de reduzir o alcance do choque. “Não vale a pena dramatizarmos.” E recordou a escala da exceção: em “sete anos e dois meses”, aquele fora apenas “um momento” de “divergência rara”.

Paulo Magalhães recusa ler ali uma rutura: “Não acho que tenha sido uma rutura”. O que viu foi “mais um desentendimento entre eles”, ainda que sério, porque “Marcelo queria que Galamba caísse e António Costa estava a segurá-lo”. José Pedro Mozos carrega mais na metáfora conjugal e situa o episódio noutro ponto da história: nessa altura, a relação “já não estava em lua de mel”, “já estava até em pré-divórcio”. A maioria absoluta desgastara o Governo, as demissões acumulavam-se e Marcelo ia lembrando “várias vezes” que tinha a “bomba atómica” da dissolução à mão. Entre a contenção de Magalhães e a imagem mais dura de Mozos, o essencial fica à vista: Galamba não partiu a relação ao meio, mas tornou quase impossível fingir que ela continuava a ser a mesma.

Em junho de 2023, na África do Sul, Marcelo recuperou o António Costa aluno, “inteligente, brilhante e pró-ativo”, mas a estudar pouco “porque a política académica o absorvia”. Poucos dias depois, quando cresciam rumores de uma saída europeia de Costa, este fechou a porta: “Eu sou o garante da estabilidade” e “não aceitarei uma missão que ponha em causa a estabilidade em Portugal”. Marcelo validou a tese: quando se diz que a maioria e o seu líder são garantes de estabilidade, “é verdade”, porque “o que acontecer depende só da maioria e do seu líder”. 

Em setembro, já sob o efeito corrosivo das fugas de informação do Conselho de Estado — revelações parciais sobre o que ali se discutira, num órgão que vive precisamente da reserva e da confiança entre os seus membros —, António Costa endureceu o tom e falou em “fugas seletivas” e “mentiras”, tratando o episódio como um “péssimo serviço à democracia”. Marcelo Rebelo de Sousa, confrontado com um ruído que agravava a erosão institucional daquele ano, procurou separar os planos e deixar intacto pelo menos um deles: a amizade entre ambos era, assegurou, “recíproca e verdadeira”, “uma amizade de décadas”. No ano da maior degradação política entre Belém e São Bento, os dois continuavam assim a proteger publicamente a ideia de que o vínculo pessoal sobrevivia ao desgaste do vínculo institucional.

A crise terminal chegou a 7 de novembro. Não foi apenas a investigação que derrubou António Costa; foi também a forma como ela entrou no espaço público, de manhã cedo, pela mão da Procuradoria-Geral da República. Na nota oficial, havia um trecho curto, um parágrafo, que rebentou politicamente como uma carga inteira: a referência à “invocação” do nome e da autoridade do primeiro-ministro e à sua eventual intervenção para “desbloquear procedimentos”. Era esse o ponto decisivo. Não uma acusação formal, não uma explicação desenvolvida, mas uma formulação suficientemente grave para colar o cargo de chefe do Governo ao centro do caso. Ficaria conhecida como o “parágrafo assassino”, palavras de António Costa, precisamente por isso: porque, em poucas linhas, tornou politicamente quase impossível a continuidade de Costa em São Bento. 

A resposta de António Costa foi imediata e definitiva. “A dignidade das funções de primeiro-ministro não é compatível com qualquer suspeição sobre a sua integridade, a sua boa conduta e, menos ainda, com a suspeita da prática de qualquer ato criminal.” A frase fechava-lhe a porta de saída e abriu-a logo a seguir: Costa apresentou a demissão. Mesmo nesse momento, ainda deixou uma linha para Belém, agradecendo a Marcelo Rebelo de Sousa “a forma como sempre mantivemos uma saudável solidariedade institucional”. Mas Belém já estava dentro daquele dia desde cedo. Marcelo falara com Costa logo de manhã, recebera depois Lucília Gago, a procuradora, em Belém, e percebera depressa que o problema já não era apenas judicial. Era político, institucional e quase instantâneo. O comunicado da Procuradoria não se limitava a informar o país de diligências ou suspeitas. Belém leu isso a tempo real. Durante algumas horas, justiça, comunicação e relação institucional colaram-se ali com uma violência rara: uma procuradora chamada ao Palácio, um texto da Procuradoria-Geral da República com efeitos políticos devastadores, um primeiro-ministro a concluir que não tinha como resistir e um Presidente obrigado a gerir, quase ao minuto, o desmoronar do Governo com quem convivera durante quase oito anos.

Nessa noite, da demissão de António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa acrescentou outra camada à crise. Saiu de Belém com os jornalistas atrás e levou-os até ao Beco do Chão Salgado, junto ao Padrão dos Távoras, um lugar que em Lisboa não é apenas um lugar: é também memória de condenação, queda, castigo e ruína. A expressão “azar dos Távoras”, ainda hoje usada para nomear desgraça súbita ou queda fatal, traição polícia também, pairava ali sem precisar de ser dita. Marcelo não explicou Costa por essa via, não pediu desculpa por nada, não tirou do passeio uma moral política em voz alta. Mas também não escolheu um cenário neutro. Paulo Magalhães reconhece que havia ali uma mensagem, ainda que se recuse a fechá-la numa interpretação excessiva: “Isso, para mim, foi uma mensagem, mas depois ele nunca a desenvolveu”. José Pedro Mozos aproxima o gesto de um traço recorrente do presidente: “Marcelo gosta muito de dar alguma cor e alguns simbolismos a alguns momentos, e marcar, até pela forma e pelos cenários, alguns momentos políticos”. O passeio ficou assim suspenso entre história e insinuação. Não esclareceu a crise, mas adensou-a. E talvez tenha ficado precisamente por isso: porque Marcelo escolheu um lugar carregado de sentido — e deixou que a velha sombra do “azar dos Távoras” fizesse o resto.

Dois dias depois, na comunicação ao país, Marcelo dissolveu a Assembleia e ao mesmo tempo solenizou António Costa. “Quero sublinhar a elevação do gesto e da respetiva comunicação aos Portugueses.” E foi mais longe: testemunhava “o serviço à causa pública, durante décadas”, incluindo os “longos e exigentíssimos anos de saída do défice excessivo, saneamento da banca, pandemia e guerras”. O Presidente consumava o fim político do Governo, mas recusava fechar o antigo primeiro-ministro numa narrativa moral de culpa.

Vai, António, voa

Foi então que começou a reescrita. Ainda em dezembro de 2023, Marcelo Rebelo de Sousa projetava António Costa para a Europa. Falava do seu “prestígio europeu excecional”, sublinhava que tinha condições para vir a ser presidente do Conselho Europeu e que essa seria uma forma de continuar a fazer “o que faz bem”. Nos cumprimentos de Natal, Costa afirmava que aqueles oito anos seriam recordados como “talvez dos melhores períodos de relacionamento entre os órgãos de soberania”. E oferecia a Marcelo, em jeito de brincadeira final, um “suplemento de otimismo”. Marcelo, por seu lado, falava em “oito anos de boa convivência”, reconhecia “um esforço de compromisso”, concluía que “valeu a pena” e admitia mesmo que esperava bater o recorde de convivência com um só primeiro-ministro. A crise de novembro não era autorizada a tornar-se a única chave de leitura.

No último Conselho de Ministros do Governo Costa, em março de 2024, ambos fixaram a síntese oficial da relação. António Costa começou pelo essencial: “Quero agradecer estes oito anos de cooperação e solidariedade institucional”. E logo a seguir carregou na excecionalidade do vínculo: “dificilmente será possível encontrar outro período” em que as relações entre Governo e Presidência tenham decorrido “de forma tão fluída, tão cooperativa e tão solidária”. Marcelo Rebelo de Sousa não desfez o retrato, mas introduziu a nuance que sempre quis deixar inscrita. A “solidariedade institucional”, afirmou, “funcionou ao longo de oito anos”, com “governos diferentes”, e, “em momentos cruciais”, transformou-se em “solidariedade nacional”. O ponto decisivo vinha depois: isso aconteceu “mesmo que tenham pontos de partida e pensamentos diferentes e divergências em momentos concretos da atuação do dia-a-dia”. Ou seja: Costa sublinhava a harmonia rara; Marcelo aceitava-a, mas fazia questão de não a separar das diferenças que também a atravessaram.

Pouco depois, António Costa fixou por escrito a sua própria tese sobre o fim do ciclo. No prefácio a “Palavras Escritas”, livro de Eurico Brilhante Dias, condensou-a numa frase: “A ocasião fez a decisão”. E não ficou por aí. A dissolução, acrescentou, não nascera do nada naquele novembro: “a direita andava num frenesim, em busca de um pretexto para a dissolução”, e esse desfecho acabaria por lhes dar “uma vitória tangencial, que os deixa nas mãos da extrema-direita populista”. A leitura de Costa era transparente: a Operação Influencer não inventara a vontade de dissolver a Marcelo, apenas oferecera o momento certo para a executar. Marcelo respondeu noutra direção e procurou bloquear essa memória. Dissolver o Parlamento, sustentou, era de facto “um sonho da direita”, mas só se tornara inevitável por causa de “circunstâncias inesperadas” — o processo judicial e a demissão de Costa. A batalha da memória estava aberta.

Mas mesmo nessa altura Costa continuava a ser a unidade de medida de Marcelo. Em abril de 2024, já com Luís Montenegro em São Bento e a coabitação com António Costa formalmente encerrada, o Presidente ainda regressava ao antigo primeiro-ministro para ler o novo. Num jantar com jornalistas estrangeiros, o contraste tornou-se mais cru e mais revelador. António Costa surgia-lhe como alguém “lento” — “por ser oriental”, acrescentou —, ao passo que Montenegro, “não sendo oriental”, também seria lento, mas por outra razão: teria “o tempo do país rural, embora urbanizado”. Noutra formulação da mesma noite, voltaria a encostar o atual primeiro-ministro a “comportamentos rurais”. A polémica estava na frase, claro, mas o ponto político estava noutro lugar: mesmo depois da queda do Governo e da mudança de ciclo, Marcelo Rebelo de Sousa continuava a pensar o sucessor a partir do antecessor. António Costa já não estava em São Bento, mas permanecia como termo de referência para medir cadências, estilos, previsibilidades e até defeitos. Não havia já coabitação. Havia ainda matriz comparativa.

Em junho, quando António Costa foi eleito presidente do Conselho Europeu, Marcelo Rebelo de Sousa regressou ao elogio enfático. Chamou-lhe “excecional”, “apaixonado pela Europa”, “a solução ideal” para coser mais entendimentos. Era “uma magnífica decisão”, “uma excelente notícia para a União Europeia e para Portugal”. Em novembro, condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo. Dias depois, cunhou a frase que passaria a resumir retrospetivamente a relação: “Éramos felizes e não sabíamos”. Não era uma felicidade absoluta. Era relativa. Mas, comparada com o que viera depois, parecia felicidade. Costa respondeu à sua maneira. “Eu tendo a ser feliz, sempre.” Não confirmou a nostalgia nem a recusou. Deslocou-a para o terreno do temperamento. Em janeiro de 2025 voltou a Belém para uma audiência seguida de almoço. À chegada, perguntou a Marcelo se estava bem-disposto. Marcelo devolveu: “Muito bem-disposto.” A relação institucional mudara de natureza, mas o circuito entre os dois não se desmanchara.

E assim se chega outra vez a Bruxelas, ao fim da linha. Na visita de despedida de Marcelo Rebelo de Sousa às instituições europeias, já nos últimos dias do mandato presidencial, encontrou-se com António Costa, entretanto instalado na presidência do Conselho Europeu. Para José Pedro Mozos, aquele momento tinha qualquer coisa de necessário, quase de arrumação íntima depois de oito anos de convivência política. “Eu creio que ambos precisavam de ter este closure no fim do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa”, observa, antes de acrescentar que os dois guardam “boas recordações”, mas também “algumas mágoas mútuas”. A imagem que escolhe para resumir a relação é a de “um jogo bem jogado”: um jogo difícil, por vezes áspero, entre “bons jogadores que conhecem as regras”. Paulo Magalhães leva o fecho para um terreno menos analítico e mais temperamental. Vê ali, acima de tudo, a continuidade de uma relação que não se desfez com a queda do Governo nem com a mudança de cargos. “São dois homens que têm imensa coisa que os une” e a quem continuará a ligar “o gozo da política e das conversas”. Entre o “closure” de Mozos e a afinidade política de que fala Magalhães, o encontro de Bruxelas ganha assim um sentido mais nítido: não foi apenas um gesto protocolar na ronda final de despedidas de Marcelo, mas também a escolha de fechar, diante de Costa, com memória partilhada, uma das mais longas e densas contracenas do regime.

Talvez seja isso que sobra quando se arruma a cronologia toda: a relação não coube nem na fotografia do guarda-chuva nem na secura do “parágrafo assassino”; não coube no “otimista irritante”, nem no “éramos felizes e não sabíamos”; não coube no Presidente dos afetos, nem no Presidente que deixava cair ministros; não coube na ideia de uma amizade intacta, nem na de uma rutura irreparável. Foi mais longa, mais útil e mais sinuosa do que isso. Marcelo começou por dar duração a um Governo que muitos queriam ver breve. Costa acabou por dar ao mandato de Marcelo o seu contraponto mais constante. Durante 2.947 dias, um foi a contracena do outro. E, quando chegou a hora de fechar o pano, nenhum deles quis sair de cena sozinho.

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