O maior lago do planeta está a diminuir rapidamente. E pode nunca mais recuperar

CNN , Laura Paddison
2 nov 2024, 12:00
O Mar Cáspio tem vindo a diminuir desde meados da década de 1990, mas o ritmo a que está a desaparecer acelerou desde 2005. NASA

Há um ponto na costa onde Azamat Sarsenbayev costumava saltar para o salobro e azul-esverdeado mar Cáspio. Apenas uma década mais tarde, tem agora vista para o solo descoberto e pedregoso que se estende em direção ao horizonte.

A água recuou muito e rapidamente da cidade costeira de Aktau, no Cazaquistão, onde o ativista ecológico viveu toda a sua vida. “É muito difícil de ver”, diz.

Mais de 1.600 quilómetros a sul, perto da cidade iraniana de Rasht, Khashayar Javanmardi está alarmado. Aqui, o mar está sufocado pela poluição.

“Já não posso nadar... a água mudou”, afirma o fotógrafo, que percorreu a costa sul do Cáspio, documentando o seu declínio.

Os dois homens sentem-se intimamente ligados à água com que cresceram. Ambos estão aterrorizados com o seu futuro.

Azamat Sarsenbayev

 

O Mar Cáspio é o maior mar interior do planeta e o seu maior lago, uma enorme massa de água maior do que a Itália. A sua linha costeira estende-se por mais de 6.400 km e é partilhada por cinco países: Cazaquistão, Irão, Azerbaijão, Rússia e Turquemenistão.

Estes países dependem dele para a pesca, a agricultura, o turismo e a água potável, bem como para as suas cobiçadas reservas de petróleo e gás. O Cáspio também ajuda a regular o clima desta região árida, fornecendo precipitação e humidade à Ásia Central.

Mas está em apuros.

As barragens, a extração excessiva, a poluição e, cada vez mais, a crise climática causada pelo homem estão a provocar o seu declínio - alguns especialistas temem que o mar Cáspio esteja a ser empurrado para um ponto sem retorno.

Embora as alterações climáticas estejam a aumentar o nível global do mar, a história é diferente para os mares e lagos interiores como o Cáspio. Estes dependem de um equilíbrio delicado entre a água que entra dos rios e da chuva e sai por evaporação. Este equilíbrio está a mudar à medida que o mundo aquece, provocando o encolhimento de muitos lagos.

Não é preciso olhar para longe para ver o que o futuro nos reserva. O vizinho mar de Aral, que atravessa o Cazaquistão e o Uzbequistão, foi outrora um dos maiores lagos do mundo, mas já quase desapareceu, devastado por uma combinação de atividades humanas e pela escalada da crise climática.

Imagem aérea da parte norte do Mar Cáspio em 20 de setembro de 2006. NASA
Imagem aérea da parte norte do Mar Cáspio em 19 de setembro de 2022. NASA

Ao longo de muitos milhares de anos, o mar Cáspio tem oscilado entre altos e baixos, à medida que as temperaturas flutuam e as camadas de gelo avançam e recuam. No entanto, nas últimas décadas, o declínio está a acelerar.

As atividades humanas desempenham um papel importante, uma vez que os países constroem reservatórios e barragens. O Cáspio é alimentado por 130 rios, embora cerca de 80% da água provenha apenas de um: o Volga, o rio mais longo da Europa, que atravessa o centro e o sul da Rússia.

Segundo Vali Kaleji, especialista em estudos sobre a Ásia Central e o Cáucaso na Universidade de Teerão, a Rússia construiu 40 barragens e está a construir mais 18, o que reduz o fluxo de água que entra no mar Cáspio.

Mas as alterações climáticas estão a desempenhar um papel cada vez mais importante, aumentando as taxas de evaporação e alimentando chuvas mais irregulares.

Os níveis de água do Cáspio têm vindo a descer desde meados da década de 1990, mas aceleraram desde 2005, descendo cerca de 1,5 metros, indica Matthias Prange, um modelador de sistemas terrestres da Universidade de Bremen, na Alemanha.

À medida que o mundo aquece, os níveis deverão “baixar drasticamente”, antecipa Prange à CNN. A sua investigação prevê descidas de 8 a 18 metros até ao final do século, dependendo da rapidez com que o mundo reduzir a poluição causada pelos combustíveis fósseis.

Outro estudo sugere que é possível que haja quedas de até 30 metros até 2100. Mesmo em cenários mais otimistas de aquecimento global, a parte mais superficial e setentrional do mar Cáspio, principalmente em torno do Cazaquistão, deverá desaparecer completamente, antevê Joy Singarayer, professora de paleoclimatologia na Universidade de Reading, Inglaterra, e coautora do estudo.

A cidade portuária de Aktau, no Cazaquistão, situada na costa do mar Cáspio, a 1 de setembro de 2024. Muhammed Enes Yildirim/Anadolu/Getty Images
A costa sul do mar Cáspio, perto da cidade de Galugah, na província de Mazandaran, no Irão, a 23 de novembro de 2020. O nível da água baixou significativamente nas últimas décadas devido às alterações climáticas e às atividades humanas.Hossein Beris/Middle East Images/AFP/Getty Images

Para os países do mar Cáspio, trata-se de uma crise. As zonas de pesca diminuiriam, o turismo entraria em declínio e a indústria naval sofreria com a dificuldade de atracar em cidades portuárias pouco profundas como Aktau, explica Kaleji, da Universidade de Teerão.

Haveria também ramificações geopolíticas. Cinco países a competir por recursos cada vez mais escassos poderia culminar “numa corrida para extrair mais água”, diz Singarayer. Poderá também dar origem a novos conflitos em torno das reservas de petróleo e de gás, se a deslocação das linhas costeiras levar os países a fazerem novas reivindicações.

A situação já é desastrosa para a vida selvagem única do mar Cáspio. É o habitat de centenas de espécies, incluindo o esturjão selvagem, em vias de extinção, que dá origem a 90% do caviar do mundo.

O mar tem estado encravado há pelo menos 2 milhões de anos e o seu isolamento extremo resultou no “aparecimento de criaturas bizarras, como os estranhos berbigões”, aponta Wesslingh à CNN.

Mas o recuo das águas está a diminuir os níveis de oxigénio nas suas profundezas, o que “pode acabar com os sobreviventes de milhões de anos de evolução”, observa. É “uma crise enorme de que quase ninguém tem conhecimento.”

É uma crise também para as focas do Cáspio, um mamífero marinho ameaçado de extinção que não se encontra em mais nenhum lugar da Terra. Os seus locais de abrigo no nordeste do mar Cáspio estão a mudar e a desaparecer, à medida que os animais lutam contra a poluição e a sobrepesca.

Os levantamentos aéreos mostram uma enorme redução de focas, observa Assel Baimukanova, investigadora do Instituto de Hidrobiologia e Ecologia do Cazaquistão.

Em 2009, os cientistas contaram 25.000 focas num local de abrigo nas ilhas Durnev, no nordeste do Cáspio. “Na primavera de 2020, não observámos um único indivíduo.”

Há poucas soluções fáceis para esta crise. O Cáspio situa-se numa região que tem sofrido muita instabilidade política e é partilhado por cinco países, cada um dos quais irá sofrer o seu declínio de formas diferentes.

A culpa não é de nenhum país, mas se não tomarem medidas coletivas, poderá repetir-se o desastre do mar de Aral, acredita Kaleji. Não há garantias de que o Cáspio “volte a um ciclo natural e normal”, acrescenta.

Plataformas petrolíferas no mar Cáspio em Baku, Azerbaijão, a 8 de agosto de 2020. 
​​​​Aziz Karimov/Getty Images

A crescente preocupação com o destino do Cáspio surge numa altura em que a região é alvo de um maior escrutínio.

Este mês, os líderes mundiais reunir-se-ão em Baku, a capital costeira do Azerbaijão, para a COP29, a cimeira anual das Nações Unidas sobre o clima, onde discutirão a ação climática à sombra das plataformas petrolíferas espalhadas por esta parte do mar Cáspio.

Em agosto, o presidente do país, Ilham Aliyev, afirmou que o declínio do Mar Cáspio era “catastrófico” e estava a tornar-se um desastre ecológico - mas, ao mesmo tempo, o país planeia expandir a sua própria produção dos combustíveis fósseis que estão a ajudar a impulsionar esse declínio.

Azamat Sarsenbayev

 

De volta ao Cazaquistão, Sarsenbayev está a tentar chamar a atenção para a situação do Cáspio através de belas e arrebatadoras imagens que publica no Instagram.

Se a crise climática e a extração excessiva de água continuarem, teme que “o mar Cáspio possa ter o mesmo destino que o mar de Aral”.

No Irão, Javanmardi continua a fotografar a costa do Cáspio, documentando a água poluída, as costas encolhidas e os leitos marinhos dessecados, revelando também a beleza que ainda existe e as ligações que as pessoas têm com o mar.

Ele quer que as pessoas acordem para o que está a desaparecer.

“Este é o maior lago do mundo. Todas as pessoas deveriam considerá-lo como algo importante.”

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