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Comentador da CNN Portugal

Última paragem antes de Ialta

13 dez 2025, 18:37

A escolha é clara: ceder aos diktats de Moscovo e de Washington ou afirmar a nossa própria “esfera de influência”. Uma nova cortina de ferro está a descer sobre a Europa. Desta vez, temos voz, temos meios. Resta saber se teremos vontade no próximo Conselho Europeu

A Doutrina Primakov emergiu dos escombros do pós-Guerra Fria como um manual de instruções para uma Rússia incapaz de conceber um mundo ordenado sem a sua assinatura imperial. Idealizada por Yevgeny Primakov, elevou a multipolaridade à categoria de dogma, proclamou a Rússia como grande potência por inerência histórica e conferiu-lhe uma missão quase messiânica: reconstruir uma esfera de influência onde a soberania alheia seria maleável, quando não meramente decorativa. Sedutora para Moscovo, a narrativa revelava-se corrosiva para os vizinhos, em especial para uma Ucrânia que ousou olhar para o Ocidente como uma saída de emergência para um futuro melhor.

A Ucrânia tornou-se rapidamente o ponto de ignição da doutrina. Cada aproximação de Kiev à NATO e à União Europeia significava uma fissura no edifício conceptual de Primakov. Não porque a NATO representasse uma ameaça direta à Rússia, mas porque demonstrava que os povos do espaço pós-soviético ainda sabem escolher. O Kremlin não podia tolerar tal ousadia. Daí a anexação da Crimeia, a guerra no Donbass, a sabotagem económica contínua e, finalmente, a invasão de 2022. O objetivo era manter a Ucrânia num limbo estratégico, onde a liberdade de escolha era substituída pelo medo e a independência tratada como provocação. O que se apresentava como realismo cedo se desmascarou como bullying geopolítico.

Putin, contudo, levou a doutrina a extremos que nem Primakov anteciparia. Ao negar a própria existência da nação ucraniana, ao invocar uma missão civilizacional e ao lançar uma guerra de larga escala, o Kremlin revelou que a sua multipolaridade não passava de uma forma requintada de imperialismo, um império com fachada de geometria internacional. A ironia é patente: a política concebida para conter a NATO acabou por fortalecê-la, expandindo capacidades e consolidando a vocação europeia da Ucrânia. Cada soldado russo que atravessou a fronteira debilitou um pilar da doutrina que afirmava servir.

A estratégia russa reproduz, paradoxalmente, no espaço euroasiático aquilo que denuncia no Ocidente. A adesão da Bielorrússia à Organização de Cooperação de Xangai e a sua permanência na Organização do Tratado de Segurança Coletiva evidenciam esta contradição.

Lukashenko encontrou nas estruturas dominadas por Moscovo e Pequim um seguro contra as exigências democráticas do seu próprio povo. O discurso russo – repetido diariamente em televisões, de forma mais sibilina ou transparente – que acusa o Ocidente de blocos agressivos, cai por terra quando a prática concreta da Rússia consiste em criar dependências forçadas, impor lealdades, desestabilizar vizinhos ou dividir aliados.

A hipocrisia atinge proporções teatrais. Putin denuncia o alargamento ocidental como provocação, enquanto integra vizinhos da NATO em estruturas de segurança sob seu controlo. Condena a militarização europeia, ao mesmo tempo que mobiliza território próprio e de aliados para uma guerra de agressão. Acusa a Europa de expansionismo quando são precisamente os Estados que buscam abrigo contra a ameaça russa que desejam aderir à NATO. E por muito que insistam em apresentar a Rússia como um ator racional que defensivamente reconquista a sua esfera de influência perante ameaças existenciais, foi o Kremlin que impulsionou a expansão da NATO. Este tipo de discurso exime Moscovo de qualquer agência, transformando a invasão de 2022 numa resposta inevitável à Cimeira de Bucareste de 2008 e às aspirações euro-atlânticas da Ucrânia, reduzindo a complexidade histórica e política a uma inevitabilidade fabricada.

Diante deste quadro, a resposta europeia não pode ser hesitante ou pontual. É urgente acelerar a integração da Ucrânia no mercado único, na energia e no digital, impulsionando o processo de adesão e garantindo ajuda militar de longo prazo que impeça Putin de transformar a agressão em ganhos políticos. É necessário reforçar sanções sobre setores estratégicos e empresas-chave como a Lukoil, evitando que interesses corporativos e estatais se tornem brechas num regime sancionatório cada vez mais sofisticado, mas ainda imperfeito. E, acima de tudo, recorrer a todos os instrumentos jurídicos da União Europeia, incluindo o Artigo 122º do TFUE, para garantir que os 210 mil milhões em ativos russos permaneçam congelados até que Moscovo pague as reparações devidas à Ucrânia, contornando os vetos da Hungria e da Eslováquia e alertando a Bélgica – agora apoiada por Itália, Malta e Bulgária – de que não existem soluções ideais.

A mensagem é simples: a agressão tem custos duradouros, tangíveis e inevitáveis. Ainda assim, o ponto mais importante é narrativo. A Europa deve desmontar, com rigor, os mitos que sustentam a doutrina Primakov, tanto lá fora como cá dentro. Não existe direito histórico a uma esfera de influência. Não há legitimidade para negar soberania alheia. Não há simetria entre alianças voluntárias e dependências forçadas. Existe apenas um império que se recusa a admitir a própria decadência e projeta força para ocultar fragilidades internas.

A Doutrina Primakov é um exercício de hipocrisia monumental. Defende multipolaridade enquanto exige submissão. Clama por segurança enquanto exporta instabilidade. Denuncia ingerência ocidental enquanto intervém militarmente em países vizinhos. Moscovo contempla-se como potência indispensável, porém o mundo vê apenas um Estado que não é suficientemente forte para impor a sua vontade, nem suficientemente fraco para ceder: a ambição de uma superpotência sem os meios para atuar como tal.

Mas temos de encarar a realidade: não conseguiremos derrotar a Rússia sem o apoio dos EUA hoje, mas podemos impedir a sua vitória explorando as suas fragilidades. As receitas de petróleo e gás caíram 22%, o défice orçamental aproxima-se dos 3% do PIB e o país continua pouco atrativo para investimento externo, obrigando-o a financiar-se internamente e a aumentar impostos.

Praticamente metade do orçamento destina-se a forças armadas, segurança e serviço da dívida – um modelo económico cada vez mais dependente da guerra. A União pode transformar estas limitações, também elas demográficas, em instrumentos estratégicos de pressão, aplicando sanções redobradas ou reforçando tetos de preços à energia que ameacem a sobrevivência interna de um regime assente num keynesianismo militar sem precedentes neste século.

Putin só recuará quando houver uma Defesa Comum Europeia digna desse nome, que vá muito além do ReArm Europe e do SAFE. Só quando deixarmos de hesitar sobre quem queremos ser e formos capazes de aprovar orçamentos que sustentem defesa, inovação e setores estratégicos, resistindo a pressões de antigos aliados. Quando formos capazes de exigir escolhas a quem não deseja integrar esta comunidade: ou mudam de política, ou mudam de aliados.

Este é um desafio estrutural que exige coerência entre defesa, economia e governação. A Defesa Comum não pode ser apenas um escudo, mas um motor de inovação. A União Europeia poderá inspirar-se no DARPA, que ligou a defesa à inovação tecnológica nos EUA, e expandir iniciativas como o Fundo Europeu de Defesa e o Chips Act, a fim de fortalecer a sua capacidade tecnológica e estratégica. Reduzir dependências críticas, investir em tecnologia dual, consolidar a indústria de defesa e soberania tecnológica não são opções, são imperativos.

É nesse quadro que a interoperabilidade plena entre exércitos, a partilha de dados em tempo real e os programas conjuntos, como o Eurodrone, deixam de ser exercícios técnicos e passam a ser escolhas políticas. Um verdadeiro mercado único da defesa, capaz de eliminar duplicações nacionais, daria substância a essa ambição. Estados candidatos, como a Ucrânia, devem ser integrados em círculos concêntricos de cooperação, não como exceção, mas como parte de uma arquitetura de segurança coerente. A narrativa tem de ser clara e consequente: segurança, competitividade e defesa são faces do mesmo processo. Um apoio consolidado à Ucrânia e projetos estratégicos pensados de forma integrada tornarão evidente que a defesa é hoje uma dimensão inescapável do projeto europeu, setenta e cinco anos depois da Declaração Schuman.

A escolha é clara. Ou continuamos a aceitar os diktats de Moscovo e de Washington ou assumimos, de uma vez, a ambição de defender o nosso lugar no mundo. Isso exige uma visão estratégica capaz de proteger interesses europeus, negociar em bloco e usar o euro e o mercado interno como alavancas de poder estratégico, não como vulnerabilidades. Exige promover uma “esfera de influência” benigna, ainda que firme. Diplomática, quando a prudência o exigir. Decisiva, quando a hora o reclamar. Mas nunca espectadora.

Não se trata de antagonizar, mas de cultivar a maturidade política de dizer não. O apaziguamento cristalizou-se num ciclo vicioso que desgasta a União aos olhos dos cidadãos, alimenta agendas populistas e oferece aos líderes extremistas um palco conveniente para quando eleitos se limitarem a “confirmar” a incapacidade do bloco para decidir.

Uma nova cortina de ferro está a descer sobre a Europa. Infelizmente para Orbán e Fico, a União Europeia cruzou mesmo o Rubicão. Desta vez, temos voz, temos meios. Resta saber se teremos vontade no próximo Conselho Europeu para continuar até Roma.

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