O Ministério Público teve o inquérito do caso EDP aberto durante 12 anos. Doze, de 2012 a 2024, em investigação. O que dá uns 4380 dias (12 x 365, com mais ano bissexto, menos ano bissexto), que nem sequer contesto face à complexidade da coisa. O que me choca mesmo é o procurador Carlos Casimiro, do DCIAP, depois de 4000 dias com o processo do seu lado, ter, numa cruel coincidência, feito sair a acusação precisamente no dia em que Manuel Pinho fez 70 anos.
Pinho, que vive em prisão domiciliária numa quinta na zona de Braga, recebeu em mãos as 1500 páginas em que é acusado, novamente, de ter sido corrompido enquanto ministro da Economia, pelas 18h00 do dia em que completou 70 anos (repito). A umas duas horas de provavelmente jantar com a família - e meia hora depois de ter já ter sido “notificado” por uma notícia do Observador.
O Observador, diga-se, fez com mérito o que lhe competia e o que qualquer jornalista teria feito - uma notícia. Mas este Ministério Público o que fez foi uma vergonha que em nada dignifica a justiça, no mínimo por falta de bom senso, e o dr. Casimiro o que parece querer fazer é dar razão - neste caso, teriam toda - aos senhores dos manifestos que propõem pôr o MP na ordem.
Depois de 25 adiamentos para acabarem o inquérito, sabíamos que a acusação sairia finalmente esta semana. Mas 4000 dias depois não podiam esperar por terça, quarta, quinta ou sexta? Tinham que cometer a brutalidade de ser logo na segunda, quando, repito, Pinho festejava em família os seus 70 anos?
Terá sido só uma triste coincidência, mesmo tendo em conta todo o histórico de conflitualidade entre o procurador Casimiro e a defesa de Pinho - do arresto da pensão à apreensão de garrafas de vinho e de uma máquina de flippers quando o antigo ministro já estava preso em casa, passando pelos alegados insultos do magistrado à orientação sexual de um juiz durante uma das buscas.
Foi só uma coincidência, e o dr. Casimiro não orientou o dia da saída da acusação como presente de 70 anos para Manuel Pinho, ou eu teria que dizer ao dr. Casimiro para ir fazer justiça particular com uma empresa de segurança privada, mas não com os poderes que o Estado lhe confere, com os meios do Estado e em nome do Estado, que é também em meu nome.
Goste-se ou não de Manuel Pinho, podemos ou não achar que Manuel Pinho é corrupto - está condenado a 10 anos de prisão por ter sido corrompido pelo BES de Ricardo Salgado e em fase de recurso. Mas a verdadeira Justiça, que se quer cega, é administrada em nome de pessoas de bem, que não se revêem em indignos exercícios de humilhação. Eu não me revejo.
