Este retiro intensivo de cinco dias acolhe apenas homens americanos: rapazes, amigos, jovens, filhos e pais. Com uma nota excecional: o projeto é uma ideia original de uma mulher
Sonoma, Califórnia — Este vale sabe bem o que é a fragilidade. Anos de paciência, fracasso e renascimento estão gravados no seu solo vulcânico. As uvas aqui são vulneráveis: se forem colhidas demasiado cedo, tornam-se amargas; se se esperar demasiado, murcham com o calor. Os enólogos compreendem o que está em jogo.
E por trás de um portão imponente, numa bela casa, o que está em jogo parece ser igualmente importante. Três homens estão a renascer. Pagaram vários milhares de dólares para estarem aqui: para chorar, abraçar-se, gritar e aprender. São tão frágeis como as videiras que dançam com a brisa do norte da Califórnia. Quando partirem, esperam ser homens diferentes.
Este retiro intensivo de cinco dias acolhe apenas homens americanos: rapazes, amigos, jovens, filhos e pais. Com uma nota excecional: o projeto é uma ideia original de uma mulher, Lori Jean Glass, e da sua equipa de formadores, na sua maioria mulheres. É, diz Lori Jean Glass alegremente, juntando as mãos, um “acampamento para homens!”.
Lori Jean Glass organiza retiros de saúde mental para homens há mais de uma década, com uma equipa de cerca de duas dúzias de formadoras, tendo trabalhado com centenas de homens ao longo desse tempo. No início, muitos inscreveram-se com relutância, a pedido das esposas, algumas das quais já tinham participado anteriormente nos retiros para mulheres organizados por ela. Mas a procura aumentou e cada vez mais homens vêm por vontade própria, afirma Lori Glass, à medida que se sentem cada vez mais perdidos numa sociedade mais solitária, mais dividida e aparentemente mais machista.
“Os homens estão a passar por dificuldades”, afirma a responsável à CNN. Alguns carecem de líderes positivos, diz ela. Outros são “cancelados” com demasiada facilidade, acredita ela. As oportunidades de emprego estão a esgotar-se para muitos e outros aprendem desde cedo a não falar dos seus sentimentos.
Para ela, tudo isto se resume a uma coisa: em todo o país e em todas as faixas etárias, “os homens estão a passar por um período difícil”.
Há muitas evidências que Lori Jean Glass poderia apontar. Um estudo da Gallup do ano passado revelou que um em cada quatro jovens americanos se sentiu solitário no dia anterior. Cerca de um em cada seis homens afirma não ter amigos íntimos, segundo revelou o Survey Center on American Life (parte do American Enterprise Institute) em 2021, um número cinco vezes superior ao registado há três décadas. Os homens americanos têm menos probabilidades do que as mulheres de serem diagnosticados com depressão, mas quatro vezes mais probabilidades de morrerem por suicídio - uma disparidade que, segundo os investigadores, indica que muitos estão a sofrer em silêncio.
E agora, os acampamentos de Lori Jean enfrentam um novo desafio. A atração inebriante da “manosfera” - a comunidade hiperativa na Internet liderada por homens que promovem definições misóginas de masculinidade - proporcionou a Lori Jean Glass uma brigada ruidosa de rivais. A vulnerabilidade está fora de moda; após alguns anos de ostracismo na sequência do movimento #MeToo, o macho alfa está de volta. Com toda a força.
Se existe um contrapeso à “manosfera”, é este. Lori Jean afirma que os seus acampamentos oferecem aos homens desiludidos um caminho melhor a seguir. A especialista trabalha diretamente para compreender e reformular a perceção que os seus participantes têm da masculinidade. Mas é uma luta solitária; por cada cinco homens que entram no seu acampamento, dezenas de milhões seguem influenciadores como Andrew Tate, Adin Ross e Myron Gaines, que pregam a importância de ganhar dinheiro, ficar com um corpo musculado e dominar emocionalmente as suas esposas e namoradas.
O próprio passado de Lori Jean Glass está repleto de tragédias e desilusões amorosas. Mas ela afirma conhecer o caminho para sair dessa situação. Pretende que o seu método seja ensinado em todas as escolas secundárias dos Estados Unidos e quer afastar os rapazes dos seus rivais “red-pilled”. Ou, afirma, no mínimo “adoraria, sem dúvida, tentar”.
Os repórteres da CNN Rob Picheta e David Culver participaram num dos recentes acampamentos de Lori Jean Glass, organizado pela sua organização sem fins lucrativos de coaching, a Pivot, para testemunhar a sua experiência. Lori Jean concedeu-nos acesso desde que nos submetêssemos ao seu “processo Pivot”, participando ao lado de três homens em diferentes fases das suas vidas. Inscrevemo-nos, viajámos para Sonoma e imergimos no grupo.
Os horários estavam repletos. Os dias começavam com ioga matinal e consistiam em sessões de terapia individual, exercícios em grupo emocionalmente exaustivos e aulas experienciais, como terapia pela arte e dramatizações. Os formadores de Lori Jean Glass - Gaby Fabian, Deb Reid e Markus Weingart - ensinaram-nos o seu método, aperfeiçoado ao longo dos anos a partir de uma vasta gama de teorias psicológicas.
Ainda assim, entrámos com ceticismo. É fácil revirar os olhos perante o carácter tipicamente californiano de tudo isto: o ambiente era luxuoso, o acampamento custa mais de 5 mil dólares por pessoa e o espaço de autoajuda está repleto de abordagens não convencionais e tratamentos não comprovados. Estes homens, poderá supor, são demasiado brandos e sensíveis. Mais Pinot Noir do que Cabernet.
Mas descobrimos algo muito mais complexo. Cada um dos três participantes chegou aqui à beira de uma mudança ou em plena fase de luto: Matt Sanders, de 61 anos, e Jason Owens, de 52, estão a lidar com a morte de um pai e de uma esposa, respetivamente; enquanto Geoff Granger, de 42 anos, aguarda nervosamente a partida dos seus filhos para a universidade.
Nos próximos dias, irão mergulhar profundamente nos seus próprios passados e confrontar-se com traumas há muito escondidos. As suas jornadas irão tomar rumos inesperados. E, contra todas as expectativas, irão encontrar uma nova esperança.
É um homem à maneira dos homens. E está a desmoronar-se
“Sou o Matt Sanders”, diz Matt. Está a conter as lágrimas, até que, de repente, já não consegue. “E isto”, diz ele, apontando para um pano roxo no chão, “é o meu pai”.
É o quarto dia do acampamento para homens e Matt Sanders está prestes a ter uma epifania. Está a “correr pelas bases” - um exercício concebido por Lori Jean Glass que transporta os participantes de volta à sua infância, adolescência e idade adulta. Matt irá falar com o seu pai a partir de cada fase da sua vida. E tem muito para dizer.
Matt Sanders é um homem musculoso, de camisa xadrez, educado nos balneários e criado a ouvir Bruce Springsteen e no frio do oeste de Nova Iorque. É de uma beleza rude e tem um físico imponente. Imagine um homem à maneira antiga: Matt Sanders é o tipo que o derrotaria numa luta.
Mas ele está a desmoronar-se. Está de luto pelo pai, o seu herói, que faleceu apenas um mês antes do início deste acampamento, após uma doença que se arrastou por décadas.
Há uma vertente paralela na vida de Matt. Uma que conduz às cavernas profundas da “manosfera”. “0Identifico-me, de certa forma, com aqueles homens que se sentem niilistas”, afirma ele à CNN. Sentia-se a “ferver por dentro”, após a morte do pai. “Sinto mesmo uma raiva. Uma raiva mais profunda”.
Ele também vê raiva à sua volta. Matt trabalha como conselheiro numa escola em Tucson, no Arizona, e, ultimamente, a toxicidade de que tem ouvido falar tem-no desmoralizado. “Estou a ver isso em muitos jovens que não esperava”, afirma. “É como se (os homens) tivessem acordado zangados, hipermasculinos e com vontade de assumir o controlo - como a ativação de uma célula adormecida”.
Por isso, Matt Sanders decidiu enfrentar essa raiva. No meio da complicada tempestade de luto, está a fazer algo raro: está a lutar contra os ensinamentos do pai sobre a masculinidade. Adora o pai. E quer ser um homem diferente.
A sala fica em silêncio absoluto. Matt dá um passo hesitante, rumo à sua infância maravilhosa e dolorosa.
Sam Sanders cresceu na raiva; o seu pai, um alcoólico, regressava do trabalho furioso, conta Matt, espancando Sam com o cinto.
Mas Sam encontrou uma forma de canalizar essa agressividade: o futebol americano. Era um linebacker central de grande impacto e era bom. Sam jogou pela Universidade de Buffalo e, depois, na NFL pelos Bills, a equipa da sua cidade natal. Era o início da década de 1960, quando o desporto se assemelhava a uma briga de rua e uma concussão significava que se estava a jogar bem. Depois, tornou-se treinador, transformando pequenas universidades em equipas difíceis que ninguém queria encontrar no seu calendário.
Matt recorda-se do pai como um gigante gentil - imponente, mas de uma bondade cativante. Até o jogo começar, altura em que Sam se transformava num “animal selvagem”.
Mas ser filho de um treinador é difícil, afirma Matt. “Ganhar ou perder definia realmente o tom do jantar de domingo à noite. A casa podia ficar muito silenciosa. Era preciso perceber o ambiente”.
Esses ambientes mudavam constantemente. A família mudava-se sempre que Sam trocava de equipa. “Sempre que aparecia numa comunidade, era o alvo do valentão local”, recorda Matt. Era como uma prisão: toda a gente queria dar uma sova ao filho do treinador de futebol americano. Na sua primeira semana na escola em Alfred, Nova Iorque, onde o Sam acabaria por se tornar uma lenda local do treino, “três rapazes atiraram-me contra o cacifo e deram-me uma sova de rachar”.
Matt queria ripostar. Mas estava a ser observado: “Não queria que ele ficasse mal visto”, diz. “Tive de aguentar muita agressão".
Matt e o irmão cresceram numa adolescência moldada pelo pai. Sam Jr. jogava como wide receiver na Universidade de Alfred e, no quintal, Matt lançava-lhe uma espiral atrás de outra. “Se ele deixasse cair uma, acrescentávamos outra”, conta Matt. Desenvolveram uma sincronia perfeita. E, a cada lançamento, o próprio lugar de Matt no mundo foi-se definindo, pouco a pouco. "Queixar-me parecia um pecado", diz ele. "Ser 'suficiente' era ser a pessoa com a bola nas mãos no final do jogo".
Mas Matt Sanders queria sair dali. À medida que o seu físico imponente se desenvolvia, o oeste de Nova Iorque ia encolhendo à sua volta. Havia um homem que Matt idolatrava tanto quanto o treinador - o “Boss” - e, tal como muitos dos heróis das pequenas cidades de Springsteen, sentiu o chamamento da estrada aberta. Temos de sair daqui enquanto somos jovens. Assim, ele e o irmão compraram bicicletas e pedalaram de Nova Jérsia até ao Oregon, descendo depois pela Costa Oeste, em direção às exuberantes colinas californianas.
Pela primeira vez, viram a América com os seus próprios olhos. Um vento violento chicoteava-lhes o rosto enquanto pedalavam e, todas as noites, à volta de uma fogueira, os irmãos conversavam. Matt sabia quando Sam Jr. iria demarcar-se numa rota exterior, mas, na verdade, não conhecia o seu irmão de todo. “Ele tinha a sua própria jornada para tentar ser bem-sucedido à sombra do meu pai”, descobriu Matt.
Depois dessa viagem, Matt quis conhecer mais do mundo. Conheceu uma rapariga e mudaram-se para o Japão. A sua vida estava a tomar forma.
E então recebeu um telefonema.
Sam Sanders queria que a sua história terminasse onde tinha começado: na sua antiga universidade, os Buffalo Bulls. Assumiu o cargo de treinador principal em 1990, sabendo que seria o seu último. E interrompeu as viagens do filho com um pedido: “Queres juntar-te à minha equipa técnica?”.
Matt nunca tinha treinado futebol americano; tinha tentado afastar-se completamente do mundo rude dos balneários. Mas o seu pai disse-lhe: “Conheces o meu esquema ofensivo”. Tinha-o vivido toda a sua vida, em cada passe ao seu irmão no quintal. Conhecia as rotas, o timing, as alterações de jogada. Era tudo o que sabia. Sam estava a perguntar, mas só havia uma resposta.
Matt recorda os dois anos em que treinou com o pai como uma espécie de tortura feliz. Os seus jogadores eram resistentes – “com concussões, maltratados e exaustos” após cada série - mas Matt viu algo no pai pela primeira vez: fraqueza. Ele estava cansado. Tinha dificuldade em andar. Tinha um segredo: a esclerose múltipla estava a minar-lhe o corpo.
Após duas épocas, Sam Sanders nunca mais voltou a treinar. Os rapazes seguiram caminhos diferentes pelo mundo e o pai continuou a aguentar-se. Até ao início deste ano, quando, finalmente, já não conseguiu.
Ela teve uma epifania que mudou a sua vida
Em 1997, enquanto Matt Sanders lidava com a dor do pai, Leri Jean Glass rendia-se à sua. “Na verdade, não quero morrer”, disse a si própria num quarto de hotel em Chicago, com nada além de escuridão do lado de fora da janela. “Mas não sei como viver”.
“Estava debaixo da onda”, conta. “Não sabia como voltar à superfície”. Por isso, deixou de tentar. Lori Jean Glass encolheu-se em posição fetal e tentou suicidar-se. Fechou os olhos, à espera que a dor acabasse.
Lori Jean e Matt têm apenas quatro anos de diferença de idade e, durante décadas, as suas vidas seguiram um ritmo semelhante.
“Nasci no seio do amor”, conta-nos numa noite tranquila, com um pôr-do-sol cor-de-rosa da Califórnia a rodopiar no céu. O seu pai era um herói: um jogador de basquetebol universitário que bateu recordes e se tornou treinador, cujo legado já estava consolidado quando Lori Jean Glass nasceu. “Ele era alto, moreno e bonito. Como um príncipe”, diz Lori Jean, com um sorriso sincero a estender-se pelo rosto. “Tal como uma menina quer ver o seu pai”.
Lori Jean tem fotografias do pai, com os braços a envolvê-la num amor que ainda hoje sente. Mas quando tinha três anos, ele partiu de canoa num rio. A embarcação virou e ele desapareceu para sempre. Demorou muito tempo até que o seu corpo fosse encontrado. A cor desapareceu da vida de Lori Jean.
A sua mãe voltou a casar e, seguindo o conselho do médico, começou a beber para entorpecer a dor. “As pessoas não falavam de trauma nem de tragédia”, recorda. “E o álcool, com o passar do tempo, roubou-lhe a essência de quem ela era”.
O seu lar alegre tornou-se hostil. “O meu padrasto costumava bater-nos com o cinto se fizéssemos algo de errado”, diz ela. Por fim, o luto da mãe também a arrancou de Lori Jean. Ela suicidou-se quando Lori Jean era adolescente.
Estes são os pensamentos que rodopiavam na mente de Lori Jean naqueles que, segundo ela acreditava, eram os seus últimos momentos de vida. “A culpa que carregava por não ter conseguido salvar a minha mãe do alcoolismo… e a culpa profunda, muito profunda, de que, de alguma forma, de algum modo, eu devia ter saltado para aquela água e salvado o meu pai”.
“Ansiava profundamente por essa ligação com o meu pai. E esse anseio nunca abandonou o meu coração”, afirma. “Estava a afogar-me”.
Mas, à medida que a sua vida se esvaía, outro pensamento assaltou-a: os seus filhos. Tinham três e cinco anos. Ligou à sua terapeuta, com a intenção de deixar-lhe uma mensagem de voz que esta pudesse transmitir-lhes.
Em vez disso, a sua terapeuta atendeu. Tinha saído do consultório, mas esquecera-se das chaves; o telefone tocou precisamente quando regressava à sua secretária. Lori Jean acredita que algo no universo, ou talvez algo acima dele, foi responsável por as duas mulheres terem conversado naquela noite.
Lori Jean gaguejou ao telefone, mas a resposta agarrou-a pelo colarinho e puxou-a de volta, precisamente quando o chão debaixo dela começava a abrir-se. “Se se suicidar, deixará os seus filhos com o que a sua mãe lhe deixou”.
“Isso acordou-me”. Lori Jean obrigou-se a vomitar. Tinha-lhe sido dada uma segunda oportunidade. E não queria desperdiçá-la.
Alguns anos mais tarde, estava a vasculhar um roupeiro em Tiburon, na Califórnia. Era esta a sua vida agora: trabalhava como estilista pessoal, ajudando pessoas nos subúrbios de São Francisco a reinventar os seus guarda-roupas.
Mas, naquela casa, algo não batia certo. O roupeiro da sua cliente estava cheio de peças novas, com as etiquetas ainda colocadas. A mulher era linda, o seu estilo imaculado. Não precisava de conselhos de moda.
“Tenho a sensação de que o que tenho para oferecer não é necessariamente o que a senhora precisa”, disse Lori Jean, com tacto, à cliente. “E ela começou a chorar”, recorda. O marido estava a traí-la, revelou a mulher, mas ela tinha medo de o deixar. “O coração dela estava a partir-se”, tal como o seu.
“Ela despertou algo dentro de mim”, recorda Lori Jean, que teve uma epifania: “Quero ajudar as pessoas”.
Assim, estudou psicologia e, num dia fortuito, ouviu por acaso uma mulher a falar sobre planos para abrir um centro de tratamento para mulheres. Lori Jean apresentou a sua candidatura e foi contratada como coach.
Mas, com o tempo, reparou num padrão.
“É difícil falar sobre isto e ser politicamente correta”, diz, com algum desconforto. “Mas já vi o que ambos os lados fazem quando estão a sofrer: como magoam as pessoas”. Ela diz que viu mulheres “a unirem-se na sua crítica aos homens”, esperando que Lori Jean se juntasse a elas enquanto lançavam generalizações sobre os seus maridos, irmãos e pais. Perguntou-se como se sentiriam esses sentimentos se fossem invertidos. “Quer que os homens digam que todas as mulheres são completamente loucas?”.
Lori Jean Glass precisava de ouvir os homens.
A lidar com o luto
Tudo - o amor severo, os sentimentos reprimidos, a crueldade da doença do seu pai - está a jorrar de Matt Sanders. Ele está de volta à base, naquela sala quente e silenciosa, onde apenas as suas lágrimas quebram o silêncio. A sua semana - de certa forma, a sua vida - tem vindo a conduzi-lo a este momento.
Matt não está curado. A complicada confusão de luto ainda o oprime todos os dias. Mas algo está a mudar; ele está a aprender, finalmente, a pensar em si próprio.
“Sempre suspeitei que seria uma mulher a servir de espelho e a trazer isso à tona”, revela ele à CNN nessa noite. “Consigo esconder isso nos meus atos nobres como homem. Mas é uma porra de uma mentira”, afirma. “Há aspetos de mim que têm vindo a mentir a mim próprio, apenas para cumprir algum destino que aprendi desde cedo”. Tal como Geoff Granger e Jason Owens, ele quer ensinar aos seus próprios filhos um caminho diferente.
Matt tem muito a dizer e diz tudo. Deixa tudo em campo. Mas antes de terminar, é a vez de Lori Jean lhe dizer.
“Perdi o meu pai muito jovem”, diz Lori a Matt, com as palavras a ficarem-lhe presas na garganta. “O meu pai era treinador. E quando penso no meu pai… sei que era um homem como o senhor”.
Este acampamento é um espaço único. As amizades formam-se instantaneamente. Ao quarto dia, estes homens conhecem-se mais profundamente do que muitos dos seus amigos e familiares.
Matt criou laços rapidamente com Geoff e Jason, cuja esposa, Sara, faleceu de cancro da mama. Comeram, choraram e abraçaram-se juntos. E ajudaram-se mutuamente a aliviar a dor, nem que fosse só um pouco.
Era uma dor para a qual Jason Owens não tinha um guia. Mas a sua esposa sabia o que estava para vir. “Quando recebeu o diagnóstico de fase quatro, a primeira coisa que ela me disse foi: ‘Desculpa’”, conta. “‘Porque sei pelo que vais passar’”.
Aquele diagnóstico deu início a uma corrida que Jason Owens nunca deixou de correr. Nas últimas semanas de vida dela, ele dormia no sofá ao lado de Sara, tendo sorte se conseguisse dormir duas horas por noite. Sempre que acordava, havia uma nova crise. Durante uma viagem de regresso a casa depois de uma consulta médica, a sua esposa teve uma convulsão que esgotou o seu tanque de oxigénio portátil. Tinham ultrapassado o “ponto de não retorno”, recorda Jason. Ele fez as contas: “A vinte minutos de casa. Doze minutos de oxigénio”. Os olhos da mulher começaram a revirar-se. “Não vamos conseguir”.
Jason acelerou. “Estava a ir a 120 na autoestrada, a ziguezaguear entre os carros”, lembra. Não estava em pânico. Não estava preocupado em ser mandado parar pela polícia, nem em destruir o carro. “Não me interessa. Não vou parar”, recorda. “Porque, se o fizer, ela vai morrer”.
Jason conseguiu chegar a casa e ligou um novo cilindro com apenas alguns segundos de sobra. Sabia que estava a sofrer de fadiga do cuidador. “É exaustivo”, confessa.
E então, de repente, tudo acabou. A sua esposa faleceu em outubro. “Depois, paramos. E fica tudo em silêncio”, revela. “Essa foi a minha identidade durante tanto tempo - ser o cuidador”. Estava sempre a fazer alguma coisa. E agora, já não há mais nada a fazer.
Jason chegou a este acampamento perdido no mesmo mar de luto que tinha engolido Matt. Encontra-o nos locais mais inesperados. “Durante anos, havia uma casa de banho que precisava de ser remodelada”, conta ao grupo. “Finalmente, fiz isso na semana passada. E senti-me péssimo quando terminei. Culpa. Porque era algo que a minha mulher sempre quis e eu não o fiz enquanto ela estava viva”.
Lori Jean Glass insiste que nunca viu um homem sair do seu acampamento num estado pior do que aquele em que chegou. E ela trabalha com qualquer pessoa: fala com carinho de um antigo participante que tinha agredido a mulher e confessado o abuso aos outros homens do grupo. “Ele sentia tanta vergonha em relação a isso”, recorda. Mas esta revelação levou outros participantes a abrirem-se. “Começaram a falar sobre a sua agressividade… um homem tinha batido nos seus filhos algumas vezes enquanto estes cresciam e sentia-se muito culpado por isso”.
“Não é aceitável bater em outra pessoa. Não quero que isto seja mal interpretado”, ressalva Lori Jean. Mas observa que o participante teve uma infância difícil e um pai controlador. “Por vezes, as pessoas reagem na vida a comportamentos que lhes foram infligidos”.
“Nunca o esquecerei, nem à sua coragem”, afirma a coach. “Foi muito, muito corajoso”.
O trauma aqui exposto é real e Lori Jean é uma coach de vida, não uma terapeuta licenciada. Por isso, é legítimo questionar se o acampamento dispõe das ferramentas necessárias para curar feridas profundas.
“Selecionamo-los com bastante cuidado”, afirma Lori Jean Glass sobre a sua equipa. Cada um recebe formação no seu “processo Pivot” antes de se juntar aos acampamentos, embora não seja exigida uma qualificação independente. “Não dizemos às pessoas que as vamos curar completamente em cinco dias”, acrescenta. “Essas feridas permanecem nos nossos corpos”.
Mas é categórica: isto funciona. O custo é proibitivo para muitos, pelo que Lori Jean transformou recentemente o seu grupo numa organização sem fins lucrativos, na esperança de oferecer bolsas a homens de rendimentos mais baixos. “Gostaria que pudéssemos ensinar isto em todas as escolas secundárias do país”, afirma. “Quero que isto perdure para além de mim”.
“É um balneário lá fora”
A “manosfera”, afirma Lori Jean, está a prejudicar os homens. “Os homens estão a ser mal interpretados em consequência disso”, diz-nos. “A guerra de géneros parece-me uma guerra civil… dois lados que simplesmente entram em combate”.
Mas Lori Jean compreende as ansiedades que empurram os homens para os líderes do movimento e as suas promessas de controlo - porque muitas dessas mesmas forças os levam até à sua porta. “Quem vou eu ser neste mundo? Onde é que me encaixo? Tenho algum valor?”.
Lori Jean lamenta a falta de oportunidades para os homens. Afirma que são vítimas de estereótipos e mal compreendidos e condena o que considera ser a condenação pública precipitada de muitos homens proeminentes no tribunal da opinião pública. “Infelizmente, condenamos as pessoas antes de estas terem sido condenadas”, afirma.
O que deve um homem fazer? “Não se pode ser controlador, especialmente no clima político atual. Não se quer ser demasiado poderoso, porque então alguém pode pensar que o está a dominar… Por isso, esconde-se as próprias emoções”.
Mas a solução de Lori Jean Glass é radicalmente diferente da de Tate, Gaines e das outras figuras de proa da “manosfera”. Enquanto eles pregam a força, ela promove a vulnerabilidade.
Está escuro e os homens estão exaustos. As emoções, afinal, dão muito trabalho. Uma fogueira tremeluzente e s’mores em chamas iluminam os seus rostos enquanto desabafam sobre mais um dia cansativo. O mundo real, mantido à distância durante toda a semana, começa a regressar às suas mentes.
Esse mundo parece muito diferente agora. Está zangado, amargo e reacionário - e a toxicidade, dizem eles, está a florescer.
“Os homens estão a tentar encontrar o seu caminho num futuro que parece bastante sombrio”, afirma Matt Sanders. “Eles querem as coisas agora mesmo”. Por isso, alguns recorrem àqueles que lhes dizem para aceitarem as coisas como estão - como Tate, o santo padroeiro da “manosfera”, que se gaba perante os seus mais de 10 milhões de seguidores no X de que consegue “olhar para um homem e saber instantaneamente que é um cobarde de merda”.
“Ainda se vive num ambiente de balneário”, sublinha. “Mas agora, parece que está em todo o lado”.
Mas não se estes três homens que participam neste acampamento tiverem alguma influência no assunto.
Matt, Geoff e Jason saem do acampamento com uma missão. Falar com homens que possam estar a sofrer em silêncio. Agarrá-los pelo colarinho e afastá-los da “manosfera”. Para eles, isto não é apenas um retiro: é uma clínica de aperfeiçoamento masculino que os transformou em guerreiros.
“Tenho imensos homens na minha vida, a quem respeito. Preciso de os trazer para cá”, diz Matt a Lori Jean. “Isto é um ponto de viragem para mim. Não me tinha apercebido do quanto precisava disto”.
Ele sabe que é uma batalha. Matt já viu muitos jovens, nos balneários e no seu gabinete, tornarem-se zangados, amargurados e radicalizados. Mas insiste que existem soluções. Conversar e chorar podem ser uma delas. “Os homens precisam disto”, afirma. “Muito”.
