Manoel de Oliveira, o homem, deixou de existir a 2 de abril de 2015, há precisamente 10 anos. Manoel de Oliveira, o legado sem o homem vivo, existe desde 2 de abril de 2015, precisamente 10 anos. Portanto: isto não é um obituário porque Manoel de Oliveira não morreu - existe de outra maneira, que é o que acontece às pessoas excecionais. Esclarecido isso: 2 de abril de 2025 é só um dia particularmente excecional para evocar Manoel de Oliveira e para rever o que deixou: "Tenho a fertilidade das árvores que sabem que vão morrer"
Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu a 11 de dezembro de 1908 no Porto, na freguesia de Cedofeita, no seio de uma família da alta burguesia. O seu pai, Francisco José de Oliveira, foi um visionário: o primeiro fabricante de lâmpadas eléctricas e de produtos hidroelétricos em Portugal. O realizador até brincava com este facto, dizendo que o pai só não teve mais sucesso porque o país não estava preparado para a eletricidade, ao contrário do que acontecia, por exemplo, na vizinha Espanha.
Na juventude frequentou um colégio de jesuítas na Galiza, Espanha, e dedicou-se ao desporto, particularmente ao atletismo, tendo sido campeão nacional de salto à vara e atleta do Sport Club do Porto. Também tinha uma paixão por automóveis e automobilismo.
Com 20 anos foi para a escola de atores fundada pelo realizador italiano Rino Lupo, no Porto, e terá sido aqui que teve o primeiro contacto com o cinema, fazendo figuração no filme "Fátima Milagrosa".
Mais tarde, surgiu a ideia de filmar a primeira curta-metragem. "Douro, Faina Fluvial" (1931) é um documentário sobre a faina no Rio Douro filmado com uma câmara oferecida pelo pai. Manoel de Oliveira tinha então 23 anos e este foi o início de uma carreira como realizador que conta com mais de 50 filmes, onde se incluem 34 longas-metragens.
Nos primeiros anos do seu percurso como realizador, filmou vários documentários e só em 1942 se aventurou na ficção com a adaptação ao cinema do conto "Os Meninos Milionários", de João Rodrigues de Freitas.
Também em 1942 filmou "Aniki-Bobó", que, com o tempo, se tornou um dos filmes mais icónicos da sua obra. Só que na altura o filme foi um fracasso, quer nas bilheteiras quer entre a crítica. E terão sido estas reações negativas que levaram Manoel de Oliveira a abandonar o cinema e a dedicar-se aos negócios da família. Uma decisão que acabou por se revelar temporária.
Manoel de Oliveira esteve afastado do cinema durante 14 anos. Quando decidiu regressar deixou o preto e branco e rendeu-se à imagem a cores. "Pintor e a Cidade", realizado em 1956, foi o filme que marcou esse regresso.
Fazem parte da sua carreira obras como "Non, ou a Vã Glória de Mandar", "A Divina Comédia", "A Caixa", "Vale Abraão", "Inquietude", "O Princípio da Incerteza" e entretanto "O Estranho Caso de Angélica" ou "O Gebo e a Sombra".
Trabalhava regularmente com Leonor Silveira e Luis Miguel Cintra, atores com um papel de destaque na sua obra.
Em 1985, com 77 anos, recebeu o Leão de Ouro do Festival de Veneza, em Itália. Em 1989 foi condecorado pelo então Presidente da República Mário Soares com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique.
O seu último filme foi a curta-metragem "O Velho do Restelo", que estreou no dia em que completou 106 anos, a 11 de dezembro de 2014.
Alguns dias antes, tinha sido distinguido com a Legião de Honra francesa por uma carreira que o então embaixador francês em Portugal, Jean-François Blarel, descreveu como "fora do comum", marcada por laços de amizade com aquele país.
Casou-se com Maria Isabel de Almeida Carvalhais no Porto, em 1940, com quem teve quatro filhos, que lhe deram vários netos e estes, por sua vez, bisnetos. Um dos netos é o conhecido ator Ricardo Trêpa, que também participou em vários dos filmes de Manoel de Olivera.
Nos últimos anos de vida, muitos questionaram o segredo da sua longevidade. Para o cineasta, era apenas "um capricho da natureza". "Tenho a fertilidade das árvores que sabem que vão morrer. Não estou cansado, só me canso quando não trabalho", esclareceu em 2011 à revista brasileira "Época".