"Quem era o melhor do mundo? Tu ou o Deco?" E Maniche responde com uma grande história no quarto de Scolari (com risos, risos, risos)

3 out 2024, 16:06
FC Porto - Man. United (Getty)
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Maniche esteve naquele mítico jogo em que Costinha marcou ao minuto 90 em Old Trafford e fez Mourinho correr pelo relvado e o FC Porto correr rumo à vitória na Champions desse ano de 2004. Por isso, e neste dia em que FC Porto e Manchester United voltam a encontrar-se - mas desta vez para a Liga Europa -, quisemos falar com Maniche sobre estes duelos. Mas pelo meio apareceu uma história deliciosa sobre Scolari e que envolve o próprio Maniche, Deco e ainda Scholes, precisamente um ex-Man United. E apareceu porque fizemos esta pergunta: quem era o melhor médio do mundo em 2004, ano daquele Man United 1-1 FC Porto?

Depois de um ano parado sem jogar, Maniche rumou a norte em 2002: acabou a vencer a Taça Uefa (atual Liga Europa) e depois a Liga dos Campeões, a Taça Intercontinental (que deu lugar ao Mundial de clubes) e pelo meio jogou a final do Euro 2004. Venceu ainda dois campeonatos nacionais, uma Taça de Portugal e duas Supertaças, ganhou quase tudo o que havia para ganhar entre 2002 e 2004 ao serviço do FC Porto e foi peça central dos jogos no Dragão e Old Trafford dos oitavos de final que abriram caminho à conquista da Champions 2003/2004. Agora, 20 anos depois, FC Porto e Man. United voltam a encontrar-se, desta vez na Liga Europa, e nós queríamos muito-muito falar com Maniche

Aquele icónico jogo em Old Trafford, que acaba 1-1 com um golo de Costinha que mantém o FC Porto na Liga dos Campeões, é o princípio do acreditar de que podiam conquistar o título mais desejado da Europa?
Ao contrário do que muita gente diz, obviamente que esse jogo ficou marcado porque passámos, mas acho que o mais importante até foi o jogo em casa, em que ganhámos 2-1, com dois golos do Benni McCarthy. Não éramos os favoritos, como toda a gente pode imaginar. A nossa equipa não fazia de todo parte do lote de candidatos a vencer a competição, mas o que é certo é que nesse dia fizemos um fantástico jogo, com muita qualidade, com muita confiança e percebemos aí que sim podíamos ir a Old Trafford ganhar. Sabíamos que iria ser difícil porque tinham grandes jogadores, eram uma equipa composta por muitos craques e que iria ser difícil também pelo ambiente, mas nós também estávamos habituados e tínhamos a experiência mais do que suficiente para encarar esse jogo com toda a tranquilidade - dentro do que é possível chamar tranquilidade num jogo destes. Mas o que é certo é que esse primeiro jogo é que, na minha opinião, foi o que nos impulsionou.

Benni McCarthy marcou os dois golos do FC Porto na 1.ª mão dos oitavos de final frente ao Man. United, no Estádio do Dragão foto Getty

Falando também desse primeiro jogo frente ao Man. United no Dragão, e relembrando o fenomenal cabeceamento do Benni McCarthy, o que é que aquele ponta de lança tinha de especial?
O Benni foi dos pontas de lança com que eu gostei mais de jogar. Obviamente já encontrei pontas de lança fantásticos, mas com características totalmente diferentes. Joguei com o Ibrahimović, no Inter Milão; já joguei com o Drogba no Chelsea; no Atlético Madrid com o Fernando Torres. Todos grandes jogadores, cada um com características totalmente diferentes e distintas, mas o Benni era um ponta de lança que jogava a um/dois toques. Já sabia o que nós iríamos fazer. Nós, digo mais eu e o Deco, porque éramos os jogadores que estávamos mais avançados no terreno. E às vezes o Alenichev, quando jogava na Champions. Aquilo que fazíamos os três o Benni já sabia que o íamos fazer. Ele sabia exatamente ter tudo isto: um/dois toques, era muito inteligente na desmarcação, era muito eficaz e esse golo fica para a memória porque foi um golo fantástico. Acho que a bola ainda bate na barra e entra. E um excelente cruzamento do Nuno Valente - quando também tens um cruzamento desses, depois vem o gesto técnico. Tecnicamente, o Benni era um jogador muito evoluído e fazia a diferença.

Já que falas em ti e no Deco, tenho uma questão tendo em conta o percurso no FC Porto e no Euro 2004: em julho de 2004, quem era o melhor médio do mundo, Maniche ou Deco?
[risos] É difícil. Sabes, hoje até coloquei uma imagem no Instagram porque o Paulo Ferreira me mandou aquilo, em que colocaram uma opinião sobre os melhores jogadores que passaram pela seleção... Mas para te responder: o Deco, provavelmente. Não sei... São posições totalmente diferentes, ele era um 10, eu era um 8, eu defendia mais do que o Deco, mas ele ao mesmo tempo atacava mais. O Mourinho diz no meu livro uma coisa engraçada: eu era um 6 mas também podia fazer de 10 - ao fim e ao cabo eu era um 8. Por isso... O Deco não, o Deco era um 10, era um craque. Foi o jogador com quem mais gostei de jogar, para mim é o melhor 10 ou um dos melhores 10 de sempre, o melhor médio de sempre.

Curiosamente, na seleção, o Scolari, para nos motivar aos dois, chamou primeiro o Deco ao quarto para dar algumas instruções em termos estratégicos - só te vou contar esta história porque acho engraçado como tu tocaste agora no meu nome e no do Deco. O Scolari chamou o Deco ao quarto para lhe dar algumas instruções de sentido estratégico sobre como se devia posicionar e tal e depois acaba a dizer ao Deco: 'Tu, para mim, tu e o Paul Scholes são os melhores médios-centro do mundo'. O Deco desceu e disse: 'Olha, mano, vai lá cima, o mister quer falar contigo'. Eu subi e o Scolari começa a dizer que eu tinha de dar equilíbrio à equipa, mas que, mesmo assim, eu tinha de chegar à zona de finalização; resumindo, disse-me, também no final: 'Tu e o Paul Scholes são os melhores do mundo'. [risos] Por isso, acho que naquele tempo provavelmente estávamos entre os melhores médios box-to-box, porque hoje em dia acho que já não há tanto esse box-to-box porque as equipes normalmente jogam com duplo pivô e perdeu-se.

Mas o Deco, para mim, é o melhor de sempre a jogar na sua posição. Não gosto de falar de mim e, modéstia à parte, considero que, naqueles anos, eu, Paul Scholes e o Lampard éramos dos melhores médios do mundo, mais o Gerard e o Iniesta. Depois o Pirlo também veio baixando no terreno, havia muitos jogadores... Naquela altura era difícil escolher o melhor médio porque havia muitas soluções, daí que era extremamente difícil escolher o melhor jogador do mundo, porque eram todos de um nível muito alto. Depois, vê-se que de muitos anos até esta parte, só Messi e Ronaldo foram os melhores do mundo, acho que há menos qualidade. Há muito talento, há muito potencial, mas a qualidade baixou muito em comparação com outros tempos.

Deco e Paul Scholes no jogo da 1.ª mão dos oitavos de final de 2004, no Estádio do Dragão foto Getty

Em Old Trafford, Paul Scholes marca aos 32'. Durante 58 minutos, o FC Porto esteve a perder 1-0 e esteve fora da Liga dos Campeões. Como se gere as emoções no relvado e, talvez mais importante, como mantiveram a crença no golo que só acabou por chegar aos 90'?
Acho que, acima de tudo, não entrámos bem no jogo. Entrámos muito ansiosos, não tínhamos bola e éramos uma equipa que gostava de ter bola, uma equipa com muita posse de bola porque os jogadores que estavam no onze valorizavam muito o jogo associativo, um jogo mais de bola do que estávamos a ter contra o United e, quando sofremos o golo, ficámos ali algo intranquilos. O intervalo veio depois ajudar a melhorar e a fazer toda a diferença. O Mourinho canalizou a equipa e ajudou-nos em termos até mais de motivação do que táticos. Disse que só tínhamos de fazer exatamente aquilo que já tínhamos vindo a fazer ao longo da temporada, ser nós próprios, porque naquele jogo não o estávamos a ser. Não estávamos a ter bola, estávamos algo intranquilos, muito ansiosos, e o Mourinho disse que, se nós tivéssemos bola, se nós estivéssemos tranquilos, o golo ia aparecer a qualquer momento. Tivemos uma ou outra oportunidade e depois, no inesperado, fizemos o golo. E o que fica na memória desse jogo é a corrida do Mourinho.

Maniche e Paul Scholes no jogo da 1.ª mão de 2004 foto Getty

E depois do golo do Costinha? Como se gerem os minutos finais em que todo o esforço se pode desvanecer num ápice?
Depois do golo ainda sofremos bastante. O sofrimento não ficou por aí, porque depois o Man United teve vários lances, até nos descontos teve vários cantos a seu favor, três ou quatro seguidos. Recordo-me  perfeitamente de que o Van Nistelrooy fazia de tudo e mais alguma coisa ao Pedro Manuel sem bola para que, quando a bola viesse, saltar e estar mais confortável para cabecear ou para ter oportunidade. Aquilo valia tudo dentro da área, era empurrões, era agarrões, enfim, valia tudo, não havia VAR, por isso era mais difícil o árbitro marcar falta. Valeu mesmo tudo, mas nós passámos - com a nossa força, o nosso sacrifício, a nossa vontade de passar para a outra fase e também por mérito próprio. Foi merecido.

Após o golo do Costinha seguiu-se o célebre festejo junto à bandeirola de canto, em que todo o plantel lhe salta para cima. Aquele momento espelha o sentimento de união que se vivia no balneário?
Se eu disser isto pode parecer que não estou a valorizar o golo, não é isso, mas o sentimento foi igual a todos os outros golos porque tínhamos, desde o primeiro momento em que começámos a estar juntos - e até fora do campo -, uma união muito forte. Dentro e fora do campo, acho que é assim que se constrói as equipas. Muitas vezes até fora do campo havia essa cumplicidade, essa união entre nós, e depois era transferido para dentro do campo. Isso fazia toda a diferença. Acima de tudo, acreditávamos em nós próprios. Sabíamos que o nosso colega iria fazer tudo para conquistar um lance, ou tudo para fazer um golo, ou tudo para fazer um grande passe, tínhamos de confiar e exigíamos isso uns aos outros. É mais essa palavra - exigência - e isto foi o que fez toda a diferença. Aquele momento era como todos os outros golos para nós - era importante, não só aquele, foi mais um, como disse... Dou mais relevo até aos dois do Benni no Dragão. O Mourinho dizia-nos que, independentemente do golo, independentemente do adversário, têm todos festejar. 

Houve um efeito Mourinho? Ainda não era o "Special One", mas conseguiu algo quase impensável nos nossos dias: vencer a Liga dos Campeões com uma equipa portuguesa. O que tem de especial ou de diferente em relação aos outros treinadores?
Ele já o era [o Special One], as pessoas é que não sabiam. Quem trabalhava com ele diariamente nos treinos via totalmente a diferença que colocava - não só nos treinos mas a nível psicológico. Eu já o conhecia quando coincidimos no Benfica e já sabia a forma dele de trabalhar e a forma dele de explorar ao máximo as capacidades de cada um a nível mental. Tu, para jogares na equipa do Mourinho, tens de dar o máximo, é certo, mas tens de ter compromisso, disponibilidade e qualidade - e ele é daqueles treinadores que sabem que um jogador pode dar sempre mais. Não gosta que o jogador fique cómodo faça um ou dois ou três jogos bons mas ao quarto já só faça algo mais ou menos, ao quinto já não está assim tão bem... O Mourinho não gosta disso. Gosta de consistência, gosta que o jogador tente sempre dar o máximo porque, acima de tudo, está a valorizar a equipa. Por isso, cómodos nunca ficaríamos, mas a nível mental parecia que éramos os melhores jogadores do mundo. Ele colocava-nos num patamar muito alto, dizia que não éramos inferiores a nenhuma equipa do mundo e veio a confirmar-se - ganhámos a Taça Uefa e a Champions, confirmou-se exatamente aquilo que Mourinho disse.

José Mourinho e Paulo Ferreira a instantes de receberem o troféu da Liga dos Campeões foto Getty

Maniche, Deco, Benni McCarthy, Ricardo Carvalho, Costinha, Paulo Ferreira, Nuno Valente, Jorge Costa - e a lista prossegue: o tempo veio comprovar que esta era uma equipa só de craques mas com um orçamento escasso comparado com o das maiores equipas da Europa. Como foi possível juntar-se um plantel com tanta qualidade?
Sim, ainda tínhamos o Alenichev, que teve o azar de ter o Deco na posição dele - o Deco jogava mesmo muito... Mas mesmo assim o Alenichev jogou muito e foi importantíssimo também para a nossa caminhada nas competições europeias, porque o Mourinho alterou na Champions o modelo de jogo do 4-3-3 - que costumávamos utilizar quase sempre - para um 4-4-2 em losango. Eram jogadores com muita qualidade e sabíamos que não podíamos facilitar no treino - se facilitássemos no treino ou num jogo, o outro colega tinha a qualidade também para jogar e depois seria mais difícil entrar. Ninguém queria perder o lugar e dávamos sempre o máximo e pronto, foi mais ou menos isso.

Quem foi o idealista por trás da criação deste plantel?
Não sei. Por aquilo que me apercebi na altura, acho que a construção do plantel era feita pelo treinador, neste caso o Mourinho, era feita pelo presidente Pinto da Costa e pelo Antero Henrique. Acho que eram essas três pessoas. Obviamente que depois pode haver alguma outra influência de um empresário que tem os melhores jogadores. Não faço a mínima ideia, eu fui contratado pelo FC Porto, acima de tudo, através do presidente e do Mourinho, porque já me conhecia no Benfica. Não esquecendo também que o Reinaldo Teles era uma pessoa extremamente importante na estrutura e veio a confirmar-se que, desde a sua saída, o FC Porto sofreu um bocadinho também com o desaparecer dessa proteção que o futebol tinha. O Reinaldo Teles era uma pessoa muito ligada aos jogadores, todos os dias estava no treino, todos os dias acompanhava aquilo de que o jogador precisava ou não precisava, era muito influente na estrutura, no sentido de dar para que não faltasse nada ao jogador. Até na família, para escolher casas, escolas e tudo mais, era extremamente importante na estrutura.

Vítor Baía, Derlei, Deco e Benni MacCarthy nos festejos após a conquista da Liga dos Campeões foto Getty

Agora, olhando para trás, o que achas que aconteceu ao FC Porto ao longo destes anos? É certo que saíram muitos craques, mas também entrou muito dinheiro - por exemplo, para o lugar do Deco veio o Diego. Porque não se manteve o ímpeto?
Sim, mas até o próprio Diego não deu certo no FC Porto e nunca deixou de ser um grande jogador. Ele confirmou isso mais tarde, até no Flamengo, também no Wolfsburgo, mas isso, às vezes, são etapas, são os ciclos dos clubes - obviamente que, se encontrares um clube mais organizado, isso faz toda a diferença. Acho que quando as pessoas estão a ganhar não ligam muito à parte financeira, mas o FC Porto, todos os anos a partir desse ano, contratou e vendeu sempre jogadores acima dos 20 milhões ou 25 milhões. Por isso era um clube que tinha de estar estável neste momento e não viver de soluços. Teve todas as condições, vendeu bastante, vendeu caro, e isso tinha de ajudar o clube a ser mais estável nesse sentido e a contratar bem. Quando depois, provavelmente, acontecem outras situações, outros valores que se colocam, quando se metem outros princípios, outros valores à frente daqueles de que o FC Porto precisa ou precisava, obviamente que o clube sofre mais tarde - e depois, quando se quer competir a um grande nível, não se consegue. Mas ninguém pensaria que o FC Porto em 2003 ou 2004 iria ganhar aquelas duas competições europeias e ganhou-as com orçamentos ridículos em comparação com os dos outros. Tem tudo que ver com a visão, tem tudo que ver com o critério, tem tudo que ver com a organização e para onde se quer caminhar. O que é certo é que mesmo assim o FC Porto ainda ganhou em 2010/11 a Liga Europa, com o André Villas-Boas, e continuou a ganhar a nível interno, sabendo também que neste momento é extremamente difícil um clube português ganhar uma competição europeia

O que achas sobre os novos formatos da Liga dos Campeões e da Liga Europa? Quem vieram beneficiar?
Acho que este modelo beneficia os mais fortes, mas isso, lá está, também pode beneficiar os mais pequenos, porque neste formato vai haver mais jogos e é nestas competições que os jogadores se valorizam mais. Também por aí há muito interesse dos clubes em verem outros jogadores para contratarem, também pode ser benéfico para as equipas mais pequenas, mas acho e continuo a dizer que esta nova versão é para ajudar os colossos porque são esses que vendem, obviamente.

A festa após a conquista da Liga dos Campeões foto AP

A conquista da Liga dos Campeões pelo FC Porto foi o expoente máximo da tua carreira?
Sim, porque é o expoente máximo daquilo que um jogador ambiciona ganhar. Todos os jogadores que estão no futebol querem ganhar uma competição que é a melhor de todas elas: a Champions League. E ainda mais pelo FC Porto, porque não é assim tão fácil ganhar com a camisola de um clube português. Por isso, sim, foi esse momento. Mas gostei mais de ganhar a Taça Uefa do que a Champions League.

Então porquê?
Foi um misto de sentimentos. Vinha de um ano sem jogar, como toda a gente sabe, um ano difícil para mim. Vinha também com uma desconfiança grande, porque vinha do Benfica e muitos jogadores do Benfica que chegaram ao FC Porto não vingaram. Vinha com essa desconfiança dos adeptos, vinha de Lisboa, vinha, pronto, com estes três handicapsGanhar uma competição europeia logo nesse primeiro ano foi indescritível. Acho que foi mais pelo sentimento. E até porque toda a gente dizia que na final da Champions League éramos os favoritos e ganhámos por 3-0 ao Mónaco, mas esquecem-se de que o Mónaco tinha eliminado o Real Madrid e o Chelsea. Esqueceram-se desse pormenor. O que é certo é que foi 3-0, mas podíamos ter dado mais. Abrandámos, já não era necessário. A vitória já era praticamente nossa.

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