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Herdeiro maltês que mandou matar jornalista de investigação pagou 150 mil euros aos assassinos e gastou mais 400 mil euros com advogados para defendê-los

CNN Portugal , MJC
3 jul, 20:47
Jornalista Caruana Galizia, de Malta, assassinada em 2017 (Arquivo AP)
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Caruana Galizia, uma jornalista de investigação que denunciou a corrupção ao mais alto nível em Malta, foi morta num atentado com uma bomba colocada no seu carro, em outubro de 2017. Esta semana começou o julgamento de Yorgen Fenech, empresário que estava a investigar e que é acusado de ser o mandatário do crime

O empresário Yorgen Fenech, acusado de ter ordenado a morte da jornalista maltesa Daphne Caruana Galizia, pagou 150 mil euros aos assassinos e gastou mais de 400 mil euros com os honorários dos advogados quando estes foram condenados pelo homicídio, afirmaram os procuradores do Ministério Público de Malta, esta quinta-feira, no segundo dia do julgamento do caso.

Caruana Galizia, uma jornalista de investigação que denunciou a corrupção ao mais alto nível em Malta, foi morta num atentado com uma bomba colocada no seu carro, em outubro de 2017. Três homens foram condenados por terem colocado a bomba debaixo do banco, mas os procuradores alegam que foram contratados por Fenech.

Caruana Galizia era jornalista de investigação e denunciou a corrupção ao mais alto nível em Malta (Arquivo AP)

Yorgen Fenech, de 44 anos, herdeiro de uma das maiores fortunas de Malta e que, em 2013, ganhou um contrato multimilionário com o Estado maltês para a construção de uma central elétrica a gás, encontra-se atualmente em prisão domiciliária, depois de pagar uma fiança recorde estimada em 50 milhões de euros.

Os assassinos, os irmãos George e Alfred Degiorgio, terão recebido 150.000 euros para levar a cabo o atentado, mais 5.000 euros para despesas após o crime e uma quantia ainda maior após terem sido detidos em dezembro de 2017. Os Degiorgio declararam-se culpados e estão a cumprir uma pena de 40 anos por homicídio voluntário. As suas despesas jurídicas - mais de 400 mil euros - foram pagas por Fenech nos meses que se seguiram, afirmou o procurador principal do caso numa declaração inicial que durou um dia inteiro.

O procurador Anthony Vella expôs o caso contra o empresário e descreveu como um taxista chamado Melvin Theuma tinha transferido quantias elevadas de dinheiro para os autores do atentado em nome de Fenech. O intermediário confessou ter recebido também um avultado pagamento pela sua função.

O empresário maltês Yorgen Fenech foi detido em 2019 (Arquivo AP)

"O arguido também financiou a defesa de Alfred e George Degiorgio, através do seu irmão, Mario. Theuma entregou-lhe mais de 400.000 euros e a polícia irá prestar depoimento sobre esse facto", declarou o procurador.

"Daphne Caruana Galizia era uma jornalista muito ativa, com uma forte presença pública e muitas investigações em curso. Costumavam descrevê-la como uma bruxa ou 'apenas uma blogger'. Podem concordar ou não com o que ela escreveu. Isso não é o que importa aqui. Ela era uma cidadã como nós, morta por causa do seu trabalho. O que importa é que ela era uma mãe, uma pessoa, uma filha, uma esposa, uma irmã. Daphne nunca viu nascer os filhos dos seus filhos. Estes crimes causam danos irreparáveis. Uma pessoa de carne e osso, com as suas aspirações e a sua dignidade. É isso que nos preocupa aqui", afirmou o procurador.

Vella afirmou que o júri iria também ouvir o depoimento de um vizinho que conduzia na direção oposta quando o carro da jornalista explodiu. "Uma testemunha passava na faixa oposta. Viu o veículo dela explodir a poucos metros de si. Ouviu um grito estrondoso. A forma violenta e bárbara como a mataram. Nos últimos segundos da sua vida, ela percebeu que a sua vida tinha chegado ao fim." Os assassinos, querendo garantir que Caruana Galizia morresse, tinham acoplado um recipiente com gasolina à bomba, disse.

Carro da jornalista Caruana Galizia, de Malta, assassinada em 2017 (Arquivo AP)

Nos meses que antecederam o seu assassínio, Caruana Galizia estava a investigar uma empresa offshore denominada 17 Black, que, segundo a jornalista, teria sido criada para canalizar pagamentos corruptos destinados aos principais responsáveis políticos de Malta. Essa empresa era detida por Yorgen Fenech.

Fenech foi detido no final de 2019 a bordo de um iate ao largo de Malta, numa operação que, segundo a polícia, travou uma tentativa de fuga. 

O julgamento arrancou na quarta-feira, nove anos após a morte da jornalista. Yorgen Fenech, de 44 anos, é acusado dos crimes de cumplicidade no homicídio e associação criminosa. O arguido nega qualquer envolvimento no atentado. Caso seja condenado, enfrenta uma pena de prisão perpétua.

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