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"As unidades retiraram-se". Como Vladimir Putin está a perder o controlo do Mali

28 abr, 17:37
Rússia Grupo Wagner África Burkina Faso (Sophie Garcia/AP)

Uma sucessão de derrotas relâmpago e a morte de uma das figuras-chave da junta militar expõem a fragilidade do controlo russo neste país africano

Ao mesmo tempo que Vladimir Putin justifica a guerra na Ucrânia com a necessidade de "desnazificar" o país, uma unidade paramilitar russa batizada com o mesmo nome da unidade de elite de Hitler em África, o Africa Corps, enfrenta agora o seu maior teste de sobrevivência. Desde o dia 25 de abril, este grupo, que substituiu os mercenários do Grupo Wagner no apoio à junta militar do Mali, tem sofrido uma sucessão de derrotas humilhantes. O avanço dos rebeldes e a perda de cidades estratégicas mostram que a nova estrutura de Moscovo está a falhar em manter o controlo do Sahel.

Desde o último fim de semana, uma série de ofensivas dos grupos rebeldes provocaram uma série de derrotas para as forças governamentais apoiadas pelo Kremlin. O grupo paramilitar controlado pelo Ministério da Defesa russo admitiu publicamente que as suas forças foram obrigadas a retirar-se da cidade de Kidal, no norte do Mali, depois de fortes combates contra o grupo de rebeldes tuaregues, conhecidos por Frente de Libertação Azawad, em coordenação com um grupo afiliado da Al-Qaeda. 

"De acordo com uma decisão conjunta da liderança da República do Mali, as unidades do Africa Corps que estavam estacionadas e envolvidas em combates na cidade de Kidal retiraram-se da área juntamente com o pessoal do Exército maliano", escreve o Africa Corps no seu canal de Telegram, acrescentando que todos os militares feridos e o equipamento pesado foram retirados e que os combates continuam.

Fontes não oficiais, como alguns dos principais bloggers militares russos, garantem ainda que um helicóptero foi abatido junto à cidade de Gao e que os pilotos e tripulantes não sobreviveram. 

Não existe um número de baixas confirmadas, embora o chefe das forças armadas da junta militar, o major-general Oumar Diarra, tenha garantido num discurso televisivo que 200 terroristas foram mortos. No entanto, um porta-voz do governo admitiu que militares do regime e civis foram mortos, embora não tenha dito quantos.

Mas a velocidade e a ferocidade dos ataques surpreenderam todos. Os grupos rebeldes atacaram instalações militares em, pelo menos, cinco cidades, incluindo a capital. Embora a junta tenha tentado minimizar os danos, uma perda foi impossível de ocultar: o tenente-general Sadio Camara. O poderoso ministro da Defesa, considerado o principal elo entre Bamako e Moscovo, terá sucumbido aos ferimentos após um ataque suicida contra a sua residência.

A morte de Camara é um golpe pesado nas aspirações geopolíticas russas na região. O general foi um dos principais responsáveis pela reorientação geopolítica do país, quando as forças armadas do país tomaram o poder em 2021. O Mali acabou por expulsar as forças francesas na região, que ali se encontravam desde 2013 a ajudar a combater as forças dos radicais islâmicos, principalmente do grupo conhecido como o Estado Islâmico da Província do Sahel. 

Os grupos terroristas operam vastos territórios nos estados do Sahel central que atravessam não só o Mali, mas também o Níger e o Burkina Faso. Estes dois países, à semelhança do Mali, expulsaram as forças francesas e americanas após uma sequência de golpes de estado em 2022 e 2023. Após a expulsão, todos se aproximaram de Moscovo, com o objetivo de recuperar um bloco capaz de controlar a região. No entanto, em nenhum destes países a presença russa é tão grande quanto no Mali, onde se estimam que mais de dois mil veteranos estejam a apoiar o esforço de guerra da junta militar.

Durante os primeiros anos, os resultados dos mercenários russos pareciam estar a funcionar. Os métodos das forças de Yevgeny Prigozhin ajudaram a junta militar a recuperar território estratégico para o Mali. Em novembro de 2023, forças do governo apoiadas pelo grupo Wagner retomaram a cidade de Kidal, que até então eram um dos principais bastiões dos tuaregues, há mais de uma década.

Tudo isso mudou com a tentativa de golpe do líder do grupo Wagner que acabou com a morte de Prigozhin num acidente de avião meses depois. O Kremlin foi rápido a cair em cima do império do oligarca, integrando a estrutura no ministério da Defesa e mudando o seu nome para Africa Corps. Só que a nova administração tem sentido fortes dificuldades de manter a fasquia criada pelos homens de Prigozhin. E isso viu-se logo no verão de 2024, quando um grupo de 50 soldados russos foram emboscados e mortos por um grupo de rebeldes.

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