Até ao momento, o corpo de uma das vítimas foi encontrado à entrada de uma caverna subaquática labiríntica
Mergulhadores internacionais de cavernas chegaram às Maldivas para intensificar a busca pelos restos mortais de quatro italianos que morreram enquanto praticavam mergulho nas águas deste destino paradisíaco, um dia depois de um socorrista militar ter perdido a vida na tentativa de recuperação.
Cinco italianos morreram na quinta-feira enquanto exploravam o atol de Vaavu, levando ao lançamento de uma missão multinacional de recuperação.
Até ao momento, o corpo de uma das vítimas foi encontrado à entrada de uma caverna subaquática labiríntica, segundo o porta-voz do governo das Maldivas, Mohamed Hussain Shareef.
Três mergulhadores finlandeses da Divers Alert Network (DAN), um grupo global de segurança no mergulho, chegaram às Maldivas no domingo e definiram uma nova estratégia com um quarto especialista e a guarda costeira local, referiu Shareef. Equipamento especializado está a ser fornecido pelo Reino Unido e pela Austrália.
As autoridades estiveram a avaliar na manhã desta segunda-feira se as condições meteorológicas eram seguras para iniciar uma terceira missão de recuperação.
Quem são as vítimas?
O corpo do instrutor de mergulho Gianluca Benedetti foi encontrado à entrada da caverna, levando as autoridades a acreditar que os outros quatro italianos permanecem no interior, disse Shareef.
São eles Monica Montefalcone, professora associada de ecologia na Universidade de Génova; a sua filha Giorgia Sommacal; o biólogo marinho Federico Gualtieri; e a investigadora Muriel Oddenino.
Um sexto mergulhador decidiu não entrar na água quando o restante grupo mergulhou, confirmaram as autoridades.
O grupo realizava uma expedição de mergulho a bordo da embarcação Duke of York, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros italiano.
A Cruz Vermelha ofereceu apoio psicológico de primeiros socorros a cerca de 20 italianos que permaneceram a bordo, sem registo imediato de feridos.
A tentativa de recuperar os quatro corpos desaparecidos já fez outra vítima, sublinhando o perigo e a complexidade da operação.
O mergulhador militar sénior, sargento Mohamed Mahudhee, de 43 anos, morreu no sábado durante uma segunda missão de recuperação na caverna, que no seu ponto mais profundo atinge 70 metros abaixo da superfície e se estende por 200 metros.
“Ele era um dos mergulhadores mais experientes, o que mostra o quão desafiante este mergulho é”, afirmou Shareef.
Doença de descompressão
As autoridades acreditam que Mahudhee, membro das forças de defesa nacionais, morreu devido a doença de descompressão — causada por uma redução rápida da pressão envolvente, seja do ar ou da água.
A doença de descompressão é mais comum em mergulhadores, mas pode também ocorrer em viagens aéreas a grande altitude ou sem pressurização, segundo a Harvard Health.
Cada mergulho na missão de recuperação nas Maldivas está limitado a cerca de três horas devido às necessidades de oxigénio e descompressão, referiu Shareef.
No entanto, as condições são extremamente difíceis, com correntes fortes e imprevisíveis, passagens estreitas que conduzem a uma vasta câmara subaquática e escuridão total, acrescentou.
“É preciso ser especialista para este nível de mergulho”, afirmou.
Durante a operação de sábado, dois mergulhadores marcaram a entrada da caverna com um balão à superfície, permitindo que as restantes equipas se orientassem e maximizassem o tempo no interior.
Antes de regressarem à superfície, os mergulhadores têm de permanecer em águas pouco profundas para descompressão após a subida.
As autoridades acreditam que Mahudhee morreu devido a complicações durante este processo.
“Ele mergulhava em dupla, como previsto no protocolo, e regressava à superfície quando o parceiro percebeu que algo estava errado e o resto da equipa interveio para tentar salvá-lo”, disse Shareef.
Mahudhee foi sepultado com honras militares numa cerimónia na capital Malé, onde milhares de pessoas prestaram homenagem, incluindo o presidente Mohamed Muizzu, responsáveis do turismo e militares e embaixadores estrangeiros.
As Maldivas têm protocolos extensivos de segurança aquática e mergulhadores experientes, sublinhou Shareef, referindo que o território marítimo do arquipélago é cerca de 3.000 vezes maior do que a sua área terrestre.
Toxicidade do oxigénio
John Volanthen, responsável de mergulho do British Cave Rescue Council e envolvido no resgate da equipa de futebol juvenil da Tailândia em 2018, afirmou que não se sabe se as correntes tiveram influência no incidente, mas que a profundidade e os sedimentos da caverna estão a dificultar “inequivocamente” os esforços de recuperação.
“É essencialmente uma grande distância para o interior da caverna e normalmente os mergulhadores de cavernas deixam uma linha-guia para se orientarem. E é possível que isso tenha acontecido com o grupo desaparecido”, disse à CNN.
O pânico também pode afetar mergulhadores, referiu, com o risco a aumentar em mergulhos profundos devido à narcose — um estado temporário de intoxicação provocado pela respiração de ar comprimido.
“Isto também torna mais provável que estejam intoxicados ou essencialmente incapazes de se controlar”, acrescentou.
“À medida que se desce, esse efeito pode gerar pânico e também dificultar a capacidade de encontrar o caminho de saída.”
“E se a caverna ficar com sedimentos, como é normal neste tipo de formação quando se tocam as paredes ou o fundo, encontrar a saída torna-se muito mais difícil.”
Carlo Sommacal, marido de Montefalcone e pai de Giorgia, disse não saber o que pode ter causado o acidente, afirmando que “algo deve ter acontecido lá em baixo”, tendo em conta a experiência da esposa e da filha.
Em declarações à televisão italiana, descreveu Montefalcone como uma mergulhadora cuidadosa e disciplinada, que nunca colocaria em risco a filha ou colegas, segundo a Associated Press.
Recordou ainda que ela lhe dizia por vezes: “Isto consigo fazer, tu não consegues”, e que sobreviveu ao tsunami de 2004 enquanto mergulhava ao largo do Quénia.
Questões sobre a legalidade do mergulho
Está em curso uma investigação para apurar o que aconteceu aos mergulhadores e se todos atingiram tais profundidades.
“No mergulho recreativo e comercial, por lei, ninguém pode descer além dos 30 metros e, infelizmente, isto parece ter acontecido a uma profundidade muito superior, porque até a entrada da caverna está a quase 50 metros”, disse Shareef.
A licença da embarcação foi suspensa enquanto decorre a investigação, segundo o responsável, que afirmou: “Tudo será analisado.”
O operador turístico italiano que gere a viagem negou ter autorizado ou ter conhecimento do mergulho a grande profundidade que violava os limites locais.
Segundo a advogada do operador Albatros Top Boat, este não sabia que o grupo planeava descer além dos 30 metros.
As vítimas eram mergulhadores experientes, mas o equipamento utilizado era de mergulho recreativo e não equipamento técnico adequado para mergulho profundo em cavernas.
A empresa esclareceu ainda que apenas comercializou o cruzeiro e não era proprietária do navio nem empregava a tripulação, que foi contratada localmente.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros italiano afirmou que tudo será feito para recuperar os restos mortais das vítimas.
Ligação italiana
As Maldivas dependem fortemente do turismo, recebendo mais de 2 milhões de visitantes em 2025, segundo o ministério do turismo, face a uma população residente de 500.000 habitantes.
O operador de mergulho baseado em Itália George Corbin é creditado por ter introduzido o turismo no antigo território britânico em 1972.
Desde então, a Itália tem estado consistentemente entre os principais mercados turísticos das Maldivas.
“A Itália tem uma relação muito especial connosco no que diz respeito ao turismo, e temos sido grandes amigos na nossa hospitalidade ao longo de muitos anos”, disse Shareef.
“A população local está devastada não apenas porque este é o maior acidente de mergulho de sempre no país, mas também porque as vítimas são italianas.”
Os governos das Maldivas e da Itália têm estado em contacto ao mais alto nível, com Muizzu a enviar as suas “mais profundas condolências” ao Presidente italiano Sergio Mattarella e às famílias das vítimas, referiu Shareef.
O embaixador de Roma no país juntou-se aos socorristas a bordo de um navio da guarda costeira na sexta-feira, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros italiano.
A jornalista Sharon Braithwaite, da CNN, contribuiu para este artigo.
