A Malásia está na iminência de ter um governo islâmico, catapultado pelo TikTok

23 nov, 07:35
Muhyiddin Yassin, líder da coligação nacionalista apoiada pelo Partido Islâmico da Malásia

Rei tenta fazer acordos que garantam um governo estável, depois de umas eleições de que não resultou qualquer maioria, mas em que os radicais islâmicos saíram reforçados

Pela primeira vez na sua história, a Malásia está na iminência de poder ter um governo dominado por um partido radical islâmico, que propõe uma mudança radical numa democracia secular que já leva mais de seis décadas de existência. Apesar de integrar a coligação que ficou em segundo lugar nas eleições de sábado passado, o Partido Islâmico Malaio (PAS) foi o que mais viu crescer a sua bancada parlamentar, e alimenta a expectativa de poder integrar o futuro governo, o que, a acontecer, marcará uma viragem radical na história política do país. 

As eleições do fim de semana passado, marcadas com o objetivo de clarificar a situação política e tirar o país do impasse em que tem vivido - foi governado por três primeiros-ministros nos últimos três anos, cada um de uma força política diferente -, acabaram por agravar ainda mais o impasse, com um resultado que não permite a qualquer dos principais candidatos garantir uma maioria estável no Parlamento.

Agora, a saída do impasse depende do rei, que tem uma função bastante cerimonial, mas a quem cabe em exclusivo a tarefa de nomear o primeiro-ministro. A Malásia é uma monarquia constitucional desde a independência, em 1957- antes, era uma colónia inglesa. 

Esta quarta-feira pode ser o dia decisivo para o futuro imediato do país, com o monarca, Al-Sultan Abdullah, a receber o representante da terceira força política do país, que tem nas suas mãos o poder de formar maioria com qualquer dos dois primeiros classificados.

"Vou tomar uma decisão em breve", disse o rei aos jornalistas, na terça-feira, depois de terem falhado as suas tentativas de fazer um governo de unidade nacional que juntasse as duas forças partidárias mais votadas.

Corrida a três

Pela primeira vez na história da sua democracia, a Malásia vê-se com um parlamento completamente dividido, sem que qualquer dos principais candidatos a primeiro-ministro tenha uma maioria absoluta dos 222 lugares do Parlamento. No essencial, a representação parlamentar ficou dividida entre as três grandes coligações que concorreram às eleições:

  • Pacto da Esperança: coligação progressista e multi-étnica, liderada por Anwar Ibrahim, que venceu as eleições de 2018 mas perdeu o poder devido a divergências internas na maioria relativa que o apoiava. Anwar era até agora o líder da oposição

  • Aliança Nacional: coligação nacionalista e conservadora, incluindo o Partido Islâmico Malaio. É liderada por Muhyiddin Yassin, que foi primeiro-ministro entre 2020 e 2021, e que não deu grande conta do recado na gestão da pandemia.

  • Frente Nacional: constituída em torno do UMNO, o partido mais antigo da Malásia, que governou o país ininterruptamente até 2018, quando perdeu o poder para o Pacto da Esperança. O seu candidato a primeiro-ministro era Ismail Sabri, que ocupou esse cargo ao longo do último ano e convocou estas eleições acreditando que conseguiria reforçar a sua posição.

Nenhuma das coligações conseguiu metade dos 222 lugares no parlamento. Os progressistas do Pacto da Esperança foram outra vez os mais votados, mas perderam força em relação a 2018. Ficaram com 82 lugares. A coligação nacionalista e islâmica ficou em segundo lugar, mas foi a que mais cresceu em relação a 2018 - um crescimento devido sobretudo ao Partido Islâmico, que assegurou que a coligação saltasse de 47 para 73 deputados. Desses, a grande maioria (49) são deputados do partido islâmico, que no anterior parlamento tinha apenas 18 assentos.

A Frente Nacional, o partido do ainda primeiro-ministro, ficou em terceiro lugar mas perdeu ainda mais terreno do que a coligação vencedora, ficando-se pelos 30 deputados eleitos.

Os dois primeiros classificados cantaram vitória, o Pacto da Esperança por ter efetivamente vencido, e a Aliança Nacional por ter registado o maior crescimento, e ambos declararam estar em condições de governar, assegurando que têm apoio parlamentar de pelo menos 112 deputados, o mínimo para uma maioria. Porém, nenhum estabeleceu acordos políticos que assegurem essa vantagem.

Governo de unidade nacional?

Para quebrar o impasse, o rei Al-Sultan Abdullah sugeriu ontem que os dois mais votados formassem um "governo de unidade", mas Muhyiddin, o líder da aliança conservadora islâmica comunicou que não vai trabalhar com Anwar, que dirige a coligação multi-étnica. 

Depois de um encontro com o monarca, Anwar disse aos jornalistas que este havia defendido o desejo de que seja possível formar um governo forte "que seja mais inclusivo em termos de raça, religião, ou região", e que se possa centrar na economia. Ou seja, a confirmar-se esta posição, Al-Sultan quererá evitar que os radicais islâmicos cheguem ao poder.

Sem acordo possível entre progressistas laicos e conservadores muçulmanos, o líder da Frente Nacional (terceira maior força) foi recebido hoje pelo monarca. E pode ser o atual primeiro-ministro, Ismail Sabri Yaakob, da Frente Nacional, a ter a palavra decisiva, pois a sua aliança tem a força suficiente para garantir qualquer maioria absoluta.

Apesar de estar distante das posições confessionais do Partido Islâmico, o partido de Ismail é visto como o arquirrival do Pacto da Esperança desde que esta coligação conquistou a maioria em 2018, afastando pela primeira vez o UMNO do poder em mais de seis décadas.

Porém, o acordo entre a coligação mais votada e a terceira maior força é a forma mais segura de garantir que os radicais islâmicos não controlam o governo, com o risco de transformar a Malásia, uma democracia funcional, num estado islâmico, com leis religiosas, racistas e xenófobas, diminuindo as mulheres e perseguindo minorias.

Os nacionalistas muçulmanos são dirigidos por Hadi Awang, um imã que durante a campanha defendeu a primazia da raça malaia e dos valores islâmicos, num país que tem minorias étnicas chinesas e indianas de dimensão considerável, que seguem outras fés.

Segundo os estudos eleitorais, o crescimento deste partido foi impulsionado sobretudo pelos jovens. Os eleitores com menos de 30 anos eram a principal base de apoiantes do PAS, que propõe a implementação de leis islâmicas rigorosas, numa sociedade que é tradicionalmente secular. 

Ultraconservadores atacam no TikTok

Hadi declarou uma "vitória confortável" mesmo antes de serem conhecidos os resultados finais, e agradeceu aos "jovens eleitores" que deram o impulso ao seu partido. E reiterou o objetivo de que o PAS governe a Malásia com base nos princípios islâmicos até 2051. "Faremos o nosso melhor para implementar as promessas e continuar com a agenda em direção à Visão 2051", disse.

Os jovens entre 18 e 29 anos são a maior faixa demográfica entre os eleitores malaios, e a campanha dos conservadores foi muito dirigida a esse segmento, com uma forte presença no TikTok, a rede social mais utilizada pelas pessoas desta faixa etária na Malásia.

Durante a campanha, Muhyiddin, o líder da coligação conservadora, usou os vídeos do TikTok para acicatar as sensibilidades religiosas dos seus potenciais eleitores. Num desses vídeos, acusou os partidos rivais de serem influenciados por agentes judeus e cristãos, que quererão desviar os malaios da fé muçulmana. 

A ser assim, seria um comportamento criminoso, pois a apostasia é punível ao abrigo das leis do país, que já têm uma considerável influência islâmica. 

Amanhã o monarca malaio reúne os seus conselheiros. A convocação deste encontro especial indica que a audiência com o primeiro-ministro e líder da terceira força política, na manhã desta quarta-feira, não terá resultado em qualquer solução para o atual impasse.

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