A campeã no ciclismo que quer uma medalha olímpica e ser piloto de avião

7 mar 2023, 09:12
Maria Martins no título europeu de scratch de 2023, em Grenchen (Photo by SEBASTIEN BOZON/AFP via Getty Images)

Maria Martins, "Tata" como é também conhecida, tem escrito uma nova história para Portugal na pista e na estrada. Dos Jogos Olímpicos às medalhas europeias e mundiais, a primeira lusa no WorldTour ainda quer voar mais alto no ciclismo. E não só

«Mais longe e mais alto» é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.

O «bichinho das bicicletas» surgiu nas primeiras pedaladas com o tio no Parque Florestal de Monsanto. Tinha «seis ou sete anos». Ali, o início de uma nova história no ciclismo português, escrita no feminino.

Entre pista e estrada, Maria Martins é, aos 23 anos, uma das referências nacionais nas duas rodas.

A escalabitana que começou mais a sério no Moçarria Aventura Clube (MAC), da sua terra, estreou Portugal a nível olímpico na pista, em Tóquio. Um «sonho realizado precocemente» em 2021, com o sétimo lugar no omnium. Daqueles resultados que «não sendo de ouro, prata e bronze, é sempre muito marcante e especial».

Foi, também, a primeira portuguesa a somar medalhas em Europeus e Mundiais de elite na pista. Depois de quatro bronzes - os mundiais no scratch (2020) e no omnium (2022) e os europeus no scratch (2019) e na eliminação (2020) - Maria subiu ao lugar mais alto em fevereiro: foi campeã da Europa no scratch.

«Foi das [vitórias] que mais desfrutei e, apesar de ter outras que não são vitórias, mas que marcaram, não vou esquecer. Viver aquela emoção toda e sagrar-me campeã da Europa é muito especial e marcante».

Uma vitória que surgiu um mês depois do título nacional no omnium em Sangalhos e que teve um festejo à Ronaldo. Tata sorri e recorda. «Tinha a comitiva toda ali à frente depois de cantarmos o hino e o João Matias disse: “ó Tata, faz o Ronaldo”. E depois começaram todos: “ooooohhhhh”. E eu faço o “siuuu”. Foi daqueles aparatos giros», partilha.

Dúvidas entre êxitos: «Houve dias em que foi complicado treinar e sair da cama»

Depois do diploma olímpico e antes do título europeu na pista, a transição de época para Maria foi repleta de dúvidas. Mergulhada em receios. De momentos em que fica claro que o psicológico, num atleta de alta competição, joga por vezes tanto como o físico.

Questões financeiras afetaram o projeto da antiga equipa, a Drops-Le-Col, com quem tinha contrato até 2023. O futuro competitivo na estrada era uma incerteza para quem sente que ainda «tem muita coisa para dar» ao ciclismo.

«Foi um período instável, senti uma mistura de emoções grande num curto espaço de tempo e acabou por não me beneficiar. Senti algumas dificuldades psicológicas, mas tive as pessoas certas do meu lado e que me ajudaram a tentar ver as coisas boas de cada situação e independentemente de tudo, eu ficaria satisfeita por continuar na equipa, abriu-me as portas quando precisei e tivemos três anos espetaculares de relação. Foi um período que felizmente consegui ultrapassar e ter formas de distrair dessas situações foi importante. Tinha a pista no início da época e manteve-me meio acordada. Lembrava-me todos os dias: “Temos o Europeu no início de fevereiro, vamos trabalhar e a estrada logo se vê”. Ajudou a não perder o foco e a manter-me ativa, porque houve dias em que foi complicado treinar, sair da cama e ter um rumo, mas faz parte e vamos aprendendo e ganhando experiência nesses momentos.»

Momentos que têm na união no seio da seleção um suporte importante: «Não é uma equipa, é mesmo uma família e nunca vi nada como o que temos naquele grupo. Apoiamo-nos sempre, treinamos, crescemos e competimos juntos e isso cria uma força enorme e se eu já alcancei muita coisa, posso dizer que foi com a ajuda deles e o apoio que têm dado sempre.»

Uma mensagem no Instagram: «Foi a equipa que não contactámos e a que veio ter connosco»

«Sempre acreditando que no dia de amanhã vai acontecer alguma coisa».

Foi assim que Maria viu os astros alinharem-se e uma porta abriu-se para 2023 com o contacto da Fenix-Deceuninck, numa mensagem através do Instagram. Assinou com a equipa belga, torna-se a primeira portuguesa no WorldTour e pode vir a participar no Giro, no Tour ou na Vuelta.

«Foi uma situação engraçada e caricata e isso torna as coisas mais curiosas porque, quando menos esperamos, acontecem. Foi a única equipa que não contactámos e foi a que veio ter connosco, só nesse aspeto foi positivo e fiquei grata.»

Maria Martins no título europeu de scratch de 2023, em Grenchen (SEBASTIEN BOZON/AFP via Getty Images)

As energias estão viradas para o regresso à ação este mês, após um final de fevereiro «frustrante». Ao ouro europeu no arranque da qualificação olímpica, seguiu-se a Taça das Nações, na Indonésia, mas Maria adoeceu e ficou fora de cena com um teste positivo à covid-19. Entre o cansaço de longas viagens, perderam-se provas e preparação. «Foi uma viagem em vão e nem fiz estrada, nem pista, nem descansei, nem treinei, foi uma semana para esquecer e infelizmente estes setbacks fazem parte da vida de um atleta, mas é frustrante ter este início do ciclo olímpico não tão desejado.»

Ultrapassado o contratempo, Maria tem já o foco nos próximos objetivos entre pista e estrada, a começar pela Miron Ron van Drenthe pela nova equipa, no sábado.

«Tenho as clássicas e vamos ver como correm. [Drenthe] vai ser o primeiro teste, mas esta questão da covid é chata, porque gostava de estar nas clássicas, nomeadamente no Paris-Roubaix e na De Panne, numa boa forma e sinto que estas semanas vão ser de transição e ver como o corpo está a reagir. Para esta fase inicial do ano tenho apontado essas clássicas e depois é estudar consoante as provas por etapas, nomeadamente Giro, Tour e Vuelta. Vamos ver e avaliar com a equipa consoante as condições em que me vou apresentar e o que me seja mais útil, tentando conciliar o calendário da pista». Uma compatibilização que agrada a Maria na Fenix-Deceuninck. «Uma das coisas que me chamou a atenção foi eles respeitarem quando um atleta tem objetivos paralelos à estrada, no meu caso a pista. Sinto que respeitam bastante este meu objetivo dos Jogos Olímpicos através da pista, mas também quero mostrar serviço na estrada e provar que tenho capacidade e potencial. Agora, é sempre bom quando podemos ter o equilíbrio entre os dois, acho que estou na equipa certa.»

«Tenho o sonho de alcançar uma medalha olímpica»

Se Tóquio foi um sonho realizado por antecipação, Paris2024 está já na mira: «É o próximo objetivo a médio-longo prazo, mas há uma qualificação para ser feita e costumo sempre dizer: o difícil não é competir nos Jogos, é chegar lá e até terminar a qualificação vai ser sempre nervosismo, ansiedade e pressão, mas estamos preparados.»

E no que Maria ainda tem «para dar» ao ciclismo há uma meta clara. «Tenho o sonho de alcançar uma medalha olímpica, sonhar é grátis e trabalho todos os dias para o fazer», diz quem nutre pelo Paris-Roubaix um «carinho especial» e quem tem mais etapas por cumprir. «Tenho outros objetivos, como talvez ganhar uma prova importante, tenho o Paris-Roubaix como prova de referência e gostava de fazer sempre boas corridas lá, terminamos no velódromo em Roubaix e para mim é um sítio especial, junta dois sonhos que tenho, estrada com pista, tenho muito respeito por esta corrida [ndr: foi 19.ª em 2021 e 37.ª em 2022]. Depois tenho o objetivo de levantar os braços numa prova WorldTour, acho que é o sonho de qualquer atleta no ciclismo, brilhar nos palcos grandes. Não digo este ano ou para o ano, mas sonho com a possibilidade de que possa acontecer.»

Com tanta história já escrita e ainda tanto para dar, impõe-se a pergunta: sente que está a estabelecer uma nova era no ciclismo português?

«Acredito que seja, digamos, um ponto de mudança e fico feliz por marcar essa viragem, mas não vivo agarrada a isso e vou fazendo o meu trabalho para alcançar os meus sonhos e objetivos. As coisas têm-se dado pouco a pouco e ano após ano as coisas têm vindo a fazer parte da história do ciclismo português. Tudo com o seu tempo, tenho levado as coisas com tranquilidade e fico grata por marcar o nosso ciclismo», diz Maria, para quem a evolução no feminino tem sido notória.

Depois de fazer história na pista, Maria Martins torna-se, em 2023, a primeira ciclista lusa no WorldTour (SEBASTIEN BOZON/AFP via Getty Images)

«Sem dúvida que há margem de progressão, mas é de louvar também tudo o que o ciclismo já tem evoluído e falo no feminino porque nestes últimos três a quatro anos houve evolução enorme, com os prize money a serem igualados em algumas corridas do WorldTour, salários mínimos garantidos. Aspetos de louvar porque estamos a estabelecer algum nível de igualdade perante o masculino, mas temos ainda muito que caminhar e acredito que vamos lá chegar. É importante referir as pessoas que estão do nosso lado e que nos vão apoiando: patrocinadores, amigos, família, são pilares que nos mantêm, condições importantes e necessárias.»

Dos inícios ao sonho além-ciclismo: «Ser piloto de avião»

Natural de Moçarria, onde se federou no MAC para começar a competir, Maria começou a fazer provas de BTT e acabou a escolher a estrada e a pista quando teve de optar por um só caminho.

«Quando cheguei a júnior tive de optar por uma só modalidade e não me arrependo, foi a decisão acertada. A nível de BTT era boa, mas não era das melhores e acredito que encontrei a modalidade que se encaixa mais nas minhas características. As coisas criaram-se de forma natural, sem grande pressão. Nunca tive ninguém no ciclismo que seja da minha família», revela. O tio ajudou nos trilhos pelo Monsanto, mas «foi um processo normal». Criado por Maria e pelos seus «sonhos».

E se no ciclismo ainda quer voar mais alto, fora dele mais alto quer voar. Diz-se uma pessoa sem «muitos sonhos», mas há um bem definido. E já está a estudar. Para mais tarde voar. Literalmente.

«Além do ciclismo e da parte desportiva, só tenho um sonho: ser piloto de avião. É isso que eu mais desejo no meu pós-carreira. Não sei quando vai ser, mas sei que quero. Já estou inserida numa escola onde consigo, através do computador, ter aulas teóricas, mas vai chegar a um ponto em que vou ter de começar a ter as aulas práticas. É bom ter estes sonhos paralelos, ajudam-nos. Quando não temos de estar mais focados no ciclismo, aproveitamos e desligamos um bocado essa ficha para irmos para a outra.»

Para já, a ficha de Maria está ligada ao ciclismo. À corrente da bicicleta. Mas com uma certeza: hoje no selim, amanhã num qualquer cockpit.

«Eu gosto de voar alto».

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