Vicente: nome próprio de 12 ouros e três recordes do mundo aos 16 anos

5 nov 2021, 09:45

Ainda com idade júnior, Vicente Pereira, atleta do Sporting, venceu o prémio de melhor nadador dos Europeus para pessoas com síndrome de Down

«Mais longe e mais alto» é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.
 
Até custa a acreditar!

Mas é o Vicente. E o significado do próprio nome já o indica: ‘o que vence’; ‘aquele que conquista’; ‘vencedor’; ‘conquistador’.

Vicente Pereira não quer menos do que o topo.

Por isso, é nos melhores que se inspira. São os gestos deles que tenta replicar. É o sucesso deles que procura atingir. Braçada atrás de braçada.

Como Vicente é nadador, há um nome maior que todos os outros: Michael Phelps, pois claro.

E se Phelps garantiu a eternidade no olimpo em 2008, quando conquistou oito medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, vencendo todas as provas em que participou, Vicente não lhe quis ficar atrás.

Vai daí, aos 16 anos, ainda com idade júnior e na primeira competição internacional em que participou, o nadador do Sporting venceu as 12 (doze) (DO-ZE!) provas que fez no Europeu.

Mais: veio de Ferrara, Itália, com três recordes do mundo de seniores – que são também recorde do mundo de juniores, obviamente -, tornando-se no primeiro nadador com idade júnior a conquistar o prémio de Melhor nadador de um Europeu.

Até custa a acreditar!

Ah, quase nos esquecíamos de um pormenor.

Um detalhe tão pequeno como ter um cromossoma a mais. Mesmo que seja o menor dos cromossomas humanos.

Vicente Pereira é um atleta com Síndrome de Down.

Mas esse facto não pesa mais nem menos do isso mesmo na vida de um jovem que fez todo o percurso escolar regular, que está no 11.º ano de um curso de culinária - a outra grande paixão! - e que na vida, como na natação, procura sempre fazer o mesmo que os melhores.

Rui Gama viu o talento e desenvolveu «a garra»

Há um nome indissociável do de Vicente Pereira nesta história de sucesso desportivo: Rui Gama.

O treinador está lá desde o primeiro momento até aos pódios consecutivos nos Trigames que se realizaram em Itália.

Foi o olho atento do técnico a detetar o diamante que estava naquela turma do ‘Externato O Poeta’, algures em 2012.

«O treinador que trabalhava com eles chamou-me a atenção e eu fui espreitar. O que se destacava era o à vontade dele na água. Fez uma adaptação ao meio aquático muito rápida», recorda.

Percebendo que podia haver potencial para transformar aquele miúdo em atleta, Rui Gama foi falar com Nelson Pereira e Susana Barros Pereira, os pais de Vicente, que acederam a deixar o filho passar a treinar com os atletas do Sporting.

E a partir daí, foi sempre a evoluir.

«Aos 11 anos, comecei a dar-lhe aulas individuais para desenvolver as técnicas de bruços, mariposa e costas. E trabalhar a técnica, coordenação e respiração», continua.

Rui Gama percebeu então uma característica muito importante do Vicente: a capacidade de observação e imitação.

«Ele aprende muito a ver os outros. Por isso, puxei-o para treinar com atletas tecnicamente mais evoluídos. Porque ele ia atrás deles», continua.

Essa capacidade de observar e absorver conhecimento é uma das coisas que Rui Gama acredita tornar Vicente Pereira um atleta especial. Mas não é a única.

«O Vicente é muito inteligente e tem um controlo e um autoconhecimento do próprio corpo que são muito diferenciados. Ao conjunto dessas características, chamamos talento. E o que nós fizemos foi pegar nesse talento e ajudar a desenvolver-lhe a garra», descreve, orgulhoso.

Pandemia ‘obrigou-o’ a ir treinar com os atletas de alto rendimento

O crescimento em competição foi-se consolidando sob a forma de títulos e recordes nacionais que começaram a ter inscrito o mesmo nome: Vicente Pereira.

Ao ponto de já ser difícil de contabilizar tanto uns como outros.

Isto, apesar de uma pandemia que veio paralisar o mundo e tirar o Vicente – tal como tantos outros desportistas – das competições.

Para o jovem nadador com as agravantes de o ter apanhado numa fase de grande desenvolvimento e de estar numa modalidade na qual precisa do contacto com a água para ter as condições ideais de treino.

Felizmente para Vicente, o afastamento das piscinas durou pouco mais que três meses. E o regresso foi feito na companhia ideal para o fazer evoluir.

«Apesar de a piscina do Sporting não estar disponível, achámos que era um desperdício ele estar parado e conseguimos puxá-lo para treinar no CAR do Jamor, onde passou a treinar com os atletas de Alto Rendimento», sublinha Rui Gama.

Aí, além de poder colocar em prática a tal ferramenta de observação dos melhores, Vicente Pereira, já com 15 anos, pôde juntar ao treino na piscina o trabalho de ginásio que o CAR disponibiliza e que é mais difícil de fazer no Sporting.

Essa conciliação teve um impacto físico tão grande no atleta, que o treinador só queria vê-lo em competição.

«Estávamos ansiosos para o testar na água em competição. E ele na primeira prova que fez, bateu três recordes do mundo», resume.

Até custa a acreditar!

«O mais difícil? O peso das medalhas ao peito»

Na piscina do Sporting, assistimos junto do pai a mais um treino de Vicente Pereira. É só um treino, mas no final, ao sair da piscina, o adolescente festeja em direção ao pai.

Está a tornar-se tão habitual vencer que já não consegue não festejar, pensamos.

A verdade, porém, é bem mais simples e surge na conversa que mantemos com ele minutos mais tarde.

«A natação é o meu desporto favorito, por isso adoro treinar todos os dias da semana», resume.

Dos títulos europeus que conseguiu no início de outubro, oito foram individuais e quatro coletivas. Mas na hora de escolher, Vicente não tem dúvida de como prefere competir.

«Eu gosto mais de nadar em equipa, de puxar pelos meus colegas para irmos mais rápido. Assim, não posso pensar só em mim, mas também nos meus colegas», descreve.

Rapidez. Essa é a característica principal do nadador que é o mais rápido do mundo em 25m, 50m e 100m mariposa. Uma característica que lhe valeu uma alcunha em casa.

«O meus pais chamam-me Flash. Sou o Flash da piscina porque sou rápido, rápido, mesmo muito rápido a nadar», atira, sorridente.

Quanto ao Europeu, claro que Vicente gostou dos títulos e dos recordes. Mas só a possibilidade de se testar, de se lançar à água e competir com os melhores da Europa, já o encheram de orgulho. Porque foi para isso que se preparou.

«A competição é o meu sonho, porque gosto de ganhar e de bater recordes», aponta, quem só sentiu uma verdadeira dificuldade nesta história de vencer todas as provas em que participou.

«O mais difícil foi trazer as medalhas. Era muito peso ao peito», declara, provocando gargalhadas em todos os que o escutam.

Até custa a acreditar!

O sonho que ainda é impossível

Vendo os resultados e conversando com Vicente Pereira, percebemos que a ambição dele, aos 16 anos, não parece ter limites.

Mas formalmente não é bem assim. E há um objetivo que ele tem e que ainda não é possível de concretizar: ir aos Jogos Paralímpicos.

Quem nos explica a razão é Rui Gama, que além de treinador do Sporting, foi o técnico que acompanhou a seleção no Europeu.

«A luta pela participação de atletas com síndrome de Down nos Jogos Paralímpicos é uma luta que dura há anos e anos. Existe uma categoria para deficiência intelectual, mas estes atletas teriam uma desvantagem física clara devido às características deles e fisiologicamente é impossível competirem com esses atletas», aponta.

Essa luta que se arrasta há anos parece agora dar algum resultado e poderá haver novidades nesse sentido já em 2024, nos Jogos Paralímpicos de Paris. Mas não será ainda uma vitória. Apenas um pequeno passo: está em estudo a possibilidade de haver uma classe de exibição nos Jogos de Paris em 2024.

Apesar dessa luz de esperança que parece acender-se, tudo o resto permanece na penumbra. Incluindo os apoios que seriam necessários para Portugal ser um dos países a marcar presença.

«Para nos qualificarmos, precisamos de participar na prova que a VIRTUS está a organizar também em Paris, porque são eles que estão na linha da frente da luta para a existência da classe de exibição», começa por explicar o técnico.

Contudo, para garantir essa participação, os atletas precisam de cumprir uma série de formalidades burocráticas. E depois disso, assegurar apoio financeiro para a seleção participar. Mas apoios oficiais parecem ser uma miragem.

«Se conseguirmos a qualificação, não vamos ficar parados, nem que vamos pedir a particulares. Mas para já, não temos apoios nem da federação nem de ninguém», lamenta Rui Gama.

Até custa a acreditar!

A convicção do vencedor: «Eu vou ser campeão do mundo»

Alheio a essas burocracias, Vicente Pereira vai pensando noutra competição: o Mundial que se disputa em Albufeira, dentro de um ano.

E depois de o ter visto consagrar rei da Europa, Rui Gama acredita que Vicente também pode vir a conquistar o mundo.

«Ser campeão do mundo não é uma miragem. Se conseguirmos trabalhar tudo da forma como queremos, pode ser possível», analisa sem hesitar.

Para já, o percurso internacional do atleta de 16 anos é imaculado. E não cansa repetir: doze provas, doze títulos e três recordes do mundo. Nada mau.

Mas é só mesmo isso: nada mau. Porque Vicente Pereira quer ser o melhor do mundo. Quer não, ele corrige-nos.

«Eu vou ser campeão do Mundo».

Não custa nada a acreditar.

 

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