Prata mundial entre mortais, piruetas e investigação oncológica

1 dez 2021, 09:27

O ginasta Diogo Cabral interrompeu o Erasmus para brilhar nos Mundiais em Baku

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«Mais longe e mais alto» é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.

Um sprint. Um salto. Licenciatura em Biotecnologia Medicinal. Um duplo mortal. Outro salto. Duas piruetas empranchadas. Um Erasmus. Mestrado em oncologia. Uma aterragem perfeita.

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Aplausos. Ovação!

A medalha de prata em duplo mini-trampolim nos Mundiais de Ginástica de Trampolim! Correção: duas medalhas de prata nos Mundiais de Ginástica de Trampolim.

Isto parece estar tudo embrulhado, mas Diogo Cabral fá-lo com uma harmonia perfeita e uma técnica irrepreensível.

Há pouco mais de uma semana, o jovem ginasta de 22 anos interrompeu por uns dias o mestrado que está a fazer em Lund, na Suécia, e foi a Baku conquistar duas medalhas de prata para Portugal nos Mundiais.

E depois voltou normalmente ao laboratório e à sua dissertação na área da Imunologia no Cancro. Com duas medalhas de prata ao peito.

Foi já em Lund, com as emoções assentes na terra, que o Maisfutebol apanhou o atleta da Académica de Espinho e o desafiou a fazer uns mortais à retaguarda até ao início da caminhada na ginástica, em Espinho.

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A paixão do outro lado do «vidro da Académica»

Por muitas voltas que se dê na história de Diogo Cabral, há influências impossíveis de saltar. E a primeira de todos é a dos pais, como explica o ginasta.

«A culpa da minha ida para a ginástica é dos meus pais, que são ambos professores de Educação Física, mais a minha mãe, que está mais ligada à Ginástica», começa por dizer, antes de se ‘colar’ ao sonho que encontrou desde cedo do outro lado do vidro do ginásio onde treinava.

«Por volta dos seis anos, comecei a praticar ginástica e natação, mas sempre preferi a ginástica. E através do vidro da Académica via os treinos de trampolins, percebia a alegria genuína das pessoas enquanto saltavam, e fique completamente apaixonado», relata.

Daquilo que via através do vidro e do que imaginava ao ver os outros, até à prática, Diogo não se desiludiu. E a paixão consumou-se.

«Só se pode competir nos trampolins depois dos sete anos e eu lembro-me perfeitamente da primeira prova que fiz, precisamente no dia em que fiz sete anos», recorda.

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Logo de início, Diogo conciliou a diversão às conquistas. O segundo lugar em trampolim sincronizado nessa primeira prova só lhe deu um impulso maior para continuar a saltar.

E a paixão com que o faz é fácil de perceber ao escutá-lo.

«Não há felicidade mais genuína do que saltar, estar aqueles instantes no ar a planar, como se voássemos. É uma coisa pela qual ansiamos, é adrenalina pura. O coração acelera e temos uma sensação de liberdade total», descreve.

Mas não os saltos que apaixonam Diogo Cabral. É o espírito que se vive na modalidade e que faz com ele considere a ginástica de trampolins o «desporto individual mais coletivo que existe».

«Tanto nos treinos como nas competições, é normal apoiarmos e darmos indicações uns aos outros. Porque todos queremos ser o melhor, mas o queremos ser à custa de erros dos outros ou porque algo correu mal. Quanto melhores forem os outros, melhor nos obrigam a ser também», defende, num discurso pleno de desportivismo.

A ‘normalidade’ de conciliar estudos e ginástica

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Com a ginástica a fazer parte do dia a dia de Diogo desde tão cedo, o atleta garante que nunca sentiu qualquer dificuldade em compatibilizar com a parte escolar com o desporto.

«Conciliar a ginástica com os estudos sempre foi algo natural. Sempre soube gerir as duas coisas e não me custava. Sabia que tinha aquelas duas horas e meia de treino, duas vezes por semana, e que precisava de fazer as minhas coisas sem contar com esse tempo», descreve.

E nem quando chegou à Universidade as dificuldades o fizeram pensar largar a ginástica. Nem mesmo no momento em que decidiu mudar-se para a Suécia para terminar o mestrado. Pelo contrário.

«A minha vida seria muito mais difícil e o estudo estaria a custar-me muito mais se estivesse em Erasmus sem a ginástica». Fico muito mais descansado assim», admite, ainda que ter um local para treinar não tenha sido decisivo no momento de escolher a instituição de ensino, em agosto.

«A Universidade de Lund despertou-me o interesse porque é uma instituição inovadora, por isso, no momento de escolher, a prioridade foi a universidade e não se tinha um local onde treinar», revela.

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A solução, porém, não demorou muito a surgir. E valeu a Diogo a tal entreajuda que a modalidade promove entre atletas.

«Nunca ponderei desistir. Quando soube que vinha, falei com atletas e treinadores suecos e eles aconselharam-me o clube onde estou a treinar», desvenda.

Para treinar, o português tem de fazer uma hora de viagem para cada lado, mas as condições de treino que encontrou foram as ideais e a prova veio em forma de prata. As tais duas medalhas de prata.

«Fiquei apático e tive de adiar as emoções»

Diogo Cabral fala connosco como vice-campeão do Mundo de duplo minitrampolim, uma conquista que aconteceu um dia depois de ter contribuído para a prata por equipas no mesmo aparelho.

«Os Mundiais correram-me muito melhor do que eu estava à espera. Acreditamos sempre que podemos chegar à medalha, mas consegui estar ao meu melhor nível e alcançar a minha primeira medalha individual em Mundiais», orgulha-se.

Mas se agora consegue falar com toda a emoção dos feitos que alcançou, o mesmo não aconteceu instantes após conquistar a medalha na prova individual.

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«Aquilo foi o realizar de um sonho de criança, fiquei sem reação e completamente apático depois da prova», recorda, antes de justificar a forma como (não) reação.

«No dia seguinte ainda ia ter a prova coletiva de all-around, por isso tive de me manter calmo e adiar as emoções. Só no dia seguinte é que consegui respirar, festejar, sorrir, chorar… expressar emoções», lembra.

Um turbilhão de emoções que Diogo Cabral não pretende ver terminar tão depressa.

«A ginástica deu-me alguns dos meus melhores amigos e excelentes momentos, por isso, espero não ter de optar entre o desporto e o emprego», revela o futuro investigador.

«No final deste ano vou ter de tomar algumas decisões importantes, como se volto a Portugal ou não, e do que vou fazer depois», continua, deixando uma certeza.

«Vou optar sempre por aquilo que me fizer mais feliz, e estou inclinado a voltar a Portugal. A ginástica? Aquilo que quero para a minha vida é poder continuar a competir enquanto o corpo me permitir, isso nem está em causa», sublinha.

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Porque por mais voltas que a vida dê. Por mais mortais ou piruetas que faça, Diogo Cabral nunca vai deixar de ser aquele miúdo apaixonado pelo que está para lá do «vidro da Académica.

(artigo originalmente criado às 23h50 de 30-11-2021)

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