Afonso Reis Cabral quer proteger "um ser vivo sublime e que nos transcende", mas há uma família que está contra

19 mar, 16:09
Magnólia encontra-se no pátio das traseiras de um prédio, no Porto

Uma magnólia rara está no centro de uma polémica, no Porto. Um grupo de moradores liderado pelo escritor Afonso Reis Cabral apresentou uma candidatura para a proteção da árvore ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, mas o organismo diz que a oposição de uma das famílias pode impedir que o processo avance

Será a maior e a mais antiga magnólia do Porto, mas permanece como tesouro escondido no pátio das traseiras de um prédio da Rua de São Vicente. Apenas por uma vez, no ano passado, as portas deste edifício residencial se abriram para que o público a pudesse admirar: nesse dia, centenas de pessoas puderam descobrir aquela que é uma das mais bonitas e imponentes árvores da cidade. A iniciativa foi promovida pelo escritor e vencedor do Prémio Leya Afonso Reis Cabral, que durante muitos anos ali viveu, na companhia desta magnólia.“Foi um evento único que deu à cidade a oportunidade de ver um ser vivo sublime e que nos transcende”, conta o autor à CNN Portugal.

Quem a conhece bem e há muito vive com ela, ganhou-lhe especial afeto. “Quando há tempestades, preocupamo-nos com ela”, diz-nos o pai do escritor, Afonso Cabral, que ainda ali mora. Quem a vê pela primeira vez rapidamente ficará com a ideia de que não está apenas perante mais uma árvore. Trata-se de uma Magnolia denudata Des, nativa da China, com mais de cem anos, que apresenta uma altura de cerca de dez metros e uma copa frondosa que nos dias de inverno se enche de inúmeras pétalas brancas e, assim, revela todo o seu esplendor.

E é precisamente por causa destas características raras e particulares que Afonso Reis Cabral assumiu a missão de a proteger como “uma obrigação cívica”. Em março do ano passado, o autor tomou a iniciativa de propor ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) a candidatura à classificação como árvore de interesse nacional, num processo que teve o aval e o apoio de outros vizinhos. De outros vizinhos, mas não de todos: é que há uma família que está contra. “Qual não foi o meu espanto quando soube da oposição da família Couto Soares”, afirma o escritor à CNN Portugal.

 

Como proponente da candidatura, Afonso Reis Cabral recebeu, há poucos dias, o ofício do ICNF. As suas suspeitas eram confirmadas: o instituto considera que a árvore reúne os atributos necessários para ser de “interesse nacional”. Só que, nesse mesmo ofício, o ICNF alertava para um senão: perante a oposição dos Couto Soares, o processo dificilmente avançaria.

“O próprio ICNF diz-me isto por email: ‘embora a lei não obrigue à pronúncia positiva dos proprietários, nós ICNF entendemos que por prudência - e aqui eu acrescento, por mera cobardia institucional -, não avançaremos com a proteção da árvore’”, sublinha Afonso Reis Cabral à CNN Portugal.

A família, diz, “alega um motivo vago que é o incómodo, a mera inconveniência, sem especificar, e falam também vagamente em quebra de privacidade", o que acrescenta, não se coloca porque “a classificação, a proteção da árvore não implica a obrigatoriedade de abrir o prédio ao público, claro que não”. “A proteção é única e exclusivamente para escudar, no futuro, a árvore de qualquer intervenção que a possa prejudicar”, completa.

Mas se a oposição da família é, para o escritor, incompreensível, a posição do ICNF é “inaceitável”. “Do ponto de vista de um organismo do Estado, que promete proteger o nosso arvoredo, é inaceitável", destaca. “Se o ICNF cumprisse o que está na legislação, avançaria com a classificação. Se houvesse contestação por parte desta família, muito bem depois seguiríamos para tribunal ou o que fosse preciso. Mas a árvore seria sempre protegida, com carácter definitivo”, explica.

Contactado pela CNN Portugal, o ICNF confirma que após ter recebido o requerimento e ter realizado uma vistoria ao local, "notificou todos os interessados do prosseguimento do procedimento de classificação de interesse público do referido exemplar". "O prosseguimento do procedimento de classificação fundamenta-se na confirmação de que esta magnólia possui atributos passíveis de justificar a sua classificação na categoria de exemplar isolado pelos critérios de classificação desenho e raridade", explica o ICNF. O instituto diz que o processo ainda decorre e que não há, para já, uma decisão. 

Entretanto, os moradores lançaram uma petição pública "pela proteção da magnólia mais vulnerável do Porto", dirigida ao ICNF.  "Não aceitamos que o ICNF prescinda de a proteger por mero capricho de alguns coproprietários do prédio (a família Couto Soares), que se opõem à classificação alegando vagos 'inconvenientes', quando na verdade a classificação em nada prejudica ou causa transtorno aos proprietários e moradores", lê-se no texto petição. Os vizinhos não desistem desta magnólia que apenas no inverno se enche de flores, mas que todo o ano está repleta de memórias.

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