A Casa Branca tem procurado projetar influência política no continente europeu neste segundo mandato, apoiando aliados ideológicos enquanto critica instituições com o objetivo de enfraquecer a confiança na União Europeia. No entanto, pode estar a chegar o ponto em que partidos ideologicamente próximos do trumpismo terão de reconsiderar o grau de alinhamento que desejam manter no futuro
Como referido neste espaço, as eleições na Hungria seriam notícia, independentemente do resultado final. Para aqueles, como este colunista, que defendem as democracias liberais, com uma União Europeia (UE) assente num conjunto de Estados-Membros que trabalham em conjunto com base neste princípio, e que desejam que a Hungria ocupe o lugar que lhe cabe nesta família, um grande suspiro de alívio, aguardado durante dezasseis anos, finalmente aconteceu. Agora, caberá aos húngaros garantir que o novo governo restabelece e protege as suas liberdades e vai ao encontro das suas ambições.
Havia outro dado importante em análise: qual seria o impacto, nas eleições, das ações da administração Trump , do Presidente ao Vice-Presidente, do Secretário de Estado aos agentes do movimento MAGA ativos em Budapeste? Após o discurso de J. D. Vance na Conferência de Segurança de Munique, o documento de Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca e o tom da campanha americana de apoio a Orbán, torna-se evidente que a atual administração norte-americana está empenhada num projeto de enfraquecimento da UE e de promoção de governos populistas e conservadores radicais no continente europeu.
Importa observar se este tipo de intervencionismo em eleições europeias continuará a produzir um efeito contrário ao desejado pela Casa Branca, como sugerem episódios recentes de apoio a forças políticas radicais na Europa, incluindo a tentativa de Elon Musk de ajudar a AfD a vencer as últimas eleições parlamentares na Alemanha. Na Hungria, para já, os resultados foram claros. A questão que se coloca, portanto, é até que ponto poderá ocorrer uma “contaminação” política a outros partidos europeus que procuram replicar o modelo de governação iliberal de Orbán, marcado por uma hostilidade assumida à UE e por um alinhamento com posições pró-Putin.
A Casa Branca, sob a liderança de Trump, tem procurado projetar influência política no continente europeu neste segundo mandato, apoiando aliados ideológicos enquanto critica instituições com o objetivo de enfraquecer a confiança na UE. No entanto, pode estar a chegar o ponto em que partidos ideologicamente próximos do trumpismo terão de reconsiderar o grau de alinhamento que desejam manter no futuro. A instabilidade proveniente de Washington pode revelar-se excessiva, mesmo para aqueles que apostam na proximidade com as ideias do movimento MAGA.
A reação do ministro da Defesa belga, Theo Francken, aliado político de Giorgia Meloni no grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR) no Parlamento Europeu, foi particularmente crítica: “Sou um político de direita e acho que a extrema-direita está a ser realmente estúpida. Os apoiantes do MAGA deviam parar de fazer campanha a nível internacional, porque tudo e todos os que apoiam acabam por perder eleições”. Marine Le Pen, segundo relatos, terá também defendido em reuniões internas da Reunião Nacional que “é preciso manter distância” de Donald Trump.
Giorgia Meloni, sentindo também a importância do momento, divulgou uma declaração relativamente contida, distanciando-se de Orbán. Porém, o facto de a primeira-ministra italiana ter tido a "temeridade" de defender o Papa Leão XIV contra os ataques de Trump foi suficiente para ser expulsa do círculo (cada vez mais reduzido) dos aliados estrangeiros da Casa Branca. Quanto à AfD, o partido alemão tem procurado não só distanciar-se do trumpismo, como também marcar posição crítica face a iniciativas de política externa da administração norte-americana, incluindo na questão da Gronelândia.
Este crescente distanciamento ou rejeição não significa necessariamente que as tentativas de influência dos Estados Unidos venham a cessar ou diminuir. Pelo contrário, perante uma administração que tende a intensificar a sua ação política externa, é expectável que continuem interferências diplomáticas, redes de think tanks e mecanismos de financiamento menos visíveis (“dark money”) associados ao universo MAGA. A questão que se coloca, então, é: o que pode ser feito?
A Comissão Europeia não deve ser apenas um órgão de fiscalização, mas também um ator diplomático com capacidade de ação, capaz de promover coordenação entre Estados-Membros e emitir sinais políticos e diplomáticos claros. Não se trata apenas de regular os mercados ou o comércio (mesmo que estejamos a fazer um péssimo trabalho com a administração Trump também neste aspecto), mas também de proteger a soberania democrática. O mesmo se pode dizer das famílias políticas democráticas do Parlamento Europeu.
A aplicação eficaz do Escudo Europeu da Democracia, enquanto conjunto de iniciativas da UE, é fundamental para garantir que os instrumentos de combate à interferência eleitoral estão ativos e para combater a desinformação e os conteúdos maliciosos no debate político europeu. Da mesma forma, a Europol, em particular através das suas capacidades de análise de inteligência financeira e cooperação com unidades nacionais, deve ter meios para detetar a entrada de dinheiro proveniente de agentes maliciosos que procuram gerar polarização disruptiva no ecossistema político da UE.
Como europeus e cidadãos da UE, não devemos ter de “suster a respiração” a cada eleição que se realiza no nosso continente. É certo que a democracia é a “vontade do povo” e que, se o eleitorado quiser líderes pró-Putin ou alinhados com o movimento MAGA, esse é o seu direito. No entanto, esses resultados devem sempre emergir de um processo político livre, justo e imparcial.