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O significado da derrota estrondosa do Chega

10 jun, 02:43
André Ventura (LUSA)

Os votos radicais não são favas contadas e um mau populista não puxa carroça – esta é uma das conclusões da noite eleitoral, com o Chega a alcançar apenas 9,79%, menos oito pontos percentuais do que alcançou nas eleições legislativas há escassos três meses.

O populismo em ação é feito de forma e substância. É por isso que os líderes populistas são sempre políticos carismáticos – goste-se ou não se goste deles, ninguém lhes consegue ficar indiferente.

A substância é oportunista e não propriamente ideológica, já se sabe. Adapta-se ao sabor dos ventos, zarpando descontentamentos, ressentimentos e medos. Em Portugal, o Chega começou por singrar à custa do racismo contra os ciganos, o discurso anti-corrupção e tiradas justicialistas e securitárias, como a castração química dos pedófilos. Com o tempo, elevou a parada e copiou os partidos de extrema-direita irmãos europeus, como a União Nacional francesa e a AfD na Alemanha, puxando cada vez mais pelo discurso anti-imigração com muitos laivos xenófobos – aproveitando a ajuda que o PS deu com a mal conseguida transição do SEF para a AIMA.

Já a forma é, em grande parte, copiada da cartilha extremista mundial, com pequenas adaptações nacionais (a proximidade aos russos é variável, por exemplo). Os engenheiros do caos dão a tática da apologia conservadora e nacionalista, e é por isso que há muitas semelhanças entre os discursos, os slogans e as campanhas destes partidos tanto na América como na Europa.

Há cartazes do Chega nesta campanha, por exemplo, que foram decalcados dos do VOX, mostrando uma mulher com um nipab islâmico com a pergunta “Que Europa queres?”. Já o slogan “Deus, Pátria e Família” (ao qual o Chega acrescentou o trabalho), uma reminiscência de Salazar, Mussolini e Franco, é igual ao do VOX espanhol e foi também usado por Bolsonaro.

Já para a forma, é essencial o estilo do político, o modo como toca o eleitorado e consegue, ou não, encantá-lo com as suas propostas simplistas para problemas complexos.

Tânger Corrêa, repescado do armário dos fundos do PSD, foi um péssimo populista – uma fraca figura, um mau debatente, pouco claro, nada galvanizador, contraditório. Se André Ventura pudesse, ao fim do primeiro debate abortava a sua nomeação, mas era tarde demais, as máquinas estavam a andar. Tentou colmatar o erro de casting com a sua própria presença em todas as frentes – nos cartazes, na campanha, nas tomadas de posição permanentes sobre tudo e mais alguma coisa.

Nada feito. André Ventura teve ontem o seu primeiro balde de água fria eleitoral, em contra-mão com o sucesso da extrema-direita na Europa, onde vários líderes da direita radical tiveram vitórias retumbantes.

O Chega não só não chegou para a auto-encomenda, como mirrou a olhos vistos. Perdeu quase 800 mil votos e todos os concelhos que tinha vencido nas Legislativas. No Algarve, distrito que tinha conseguido pintar da sua cor em março, ficou agora em terceiro lugar. Ganhar as eleições, objetivo traçado por Ventura, ficou a larguíssima distância.

O que explica o desinsuflar do Chega nestas eleições? Vários fatores:

1. Desde logo, como explicado, Tanger Corrêa foi um enorme tiro ao lado. O Chega sem André Ventura em primeiro plano desfarela-se como uma carcaça na água – este continua a ser um partido de um homem só.

2. O Governo AD nacionalizou as eleições e aplicou-se na campanha, procurando mostrar serviço e governar por decreto. Neste processo, entrou por domínios do Chega, por exemplo no tema da imigração, esvaziando-o parcialmente.

3. O sucesso da IL, que ficou a morder-lhe os calcanhares a escassos 28 mil votos, teve a grande vitória da noite, sobretudo à custa de João Cotrim de Figueiredo, que rouba votos tanto à AD como ao Chega e passa muito bem junto do eleitorado jovem.

4. O distanciamento e o desinteresse do eleitorado extremista pelos assuntos europeus, sendo o voto de protesto especialmente mobilizado pelos temas nacionais.

5. A abstenção pode ter prejudicado o partido, já que as sondagens lhe davam o pior resultado na certeza de ir votar entre os que diziam que iam votar Chega (só superado pelo PAN).

6. Votar ao lado do PS, viabilizando várias das suas propostas, pode ter desagradado a algum do seu eleitorado que vê no PS um inimigo mortal.

André Ventura, que se diz enviado de Deus com uma missão, deve estar por esta altura a questionar a sua sorte e a rezar a todos os santinhos para que este resultado na Europa não espelhe o sentimento do País.

Vai ter de repensar a sua estratégia, ter mais humildade, ponderar melhor antes de ter a desfaçatez de ponderar mandar abaixo o Governo. E ir com menos sede ao pote, porque percebeu agora que a torneira que enche o seu potezinho não está sempre a encher.

Esta foi, apesar de ter ficado em segundo lugar e não conseguir alcançar o desejado reforço que lhe garantia força interna, a melhor notícia da noite para Luís Montenegro.

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