Poste luso viveu a melhor época da carreira. Com estatuto de titular, Queta duplicou os números, convenceu tudo e todos e orgulhou Portugal no maior palco do basquetebol Mundial
Neemias Queta continua a elevar o nome de Portugal por solo americano. Este ano, o gigante do Vale da Amoreira levantou voos que poucos esperavam. Draftado na 39.ª escolha pelos Sacramentos Kings, em 2021, «Neemy» viveu o melhor ano da carreira.
Assumindo um papel de titular pela primeira vez na NBA, Queta duplicou praticamente todas as estatísticas em comparação com o ano passado. A nível individual foi, efetivamente, um ano de sonho.
São muitas as razões que ajudam e explicar a explosão do português. Mudanças da equipa, Eurobasket... entre outros aspetos. Mas é caso para perguntar: fez uma pré-época especial? Resposta simples e direta: não.
Muito pelo contrário. Neemias teve uma pré-época bastante fora do comum, porque foi... operado.
«Foi operado depois dos play-offs do ano passado. Andava com dor no joelho esquerdo e eles decidiram fazer uma antroposcopia. Assim que eles foram eliminados nos play-offs do ano passado acabou por servir para tratar da recuperação», começa por partilhar Ricardo Brito Reis, analista de basquetebol e fundador do Borracha Laranja, ao Maisfutebol.
«Mazzulla ligou ao Neemias e disse que ele ia ser o titular desta época»
O início do verão foi, assim, passado entre recuperar a lesão e preparar o Eurobasket, em que Portugal iria participar. Esteve, inclusive, um treinador dos Maine Celtics – equipa secundária de Boston – em Portugal para acompanhar todo o processo, como partilha Brito Reis.
No verão os Celtics perderam três nomes de primeira linha nas opções de front court - Kristaps Porziņģis, Al Horford e Luke Kornet, que seguiram para Hawks, Warriors e Spurs respetivamente.
Surgiu, então, a hipótese de Neemias ser titular pela equipa mais vencedora da NBA. Enquanto nos media especulava-se sobre uma oportunidade para Neemias, Ricardo relembra que o português já tinha a certeza… antes do Eurobasket.
«Mazzulla (treinador dos Celtics), confessou que no verão, antes do Eurobasket, ligou ao Neemias e disse que ele ia ser o titular desta época», referiu.
No Eurobasket, Neemias brilhou – e de que maneira – pela seleção. Liderou Portugal aos «oitavos», com uma média de 15,5 pontos e oito ressaltos por jogo. Foi, de forma clara, um teste que preparou o gigante luso para a época exigente que se avizinhava.
«Depois de vários anos de não jogar ou de não ser o quarto poste da rotação, na seleção, não só ele ia jogar sempre, ia jogar muitos minutos, mas sobretudo ia ser exigido um papel de estrela. Se tivesse um jogo mau, não ia para o banco descansar. Tinha de estar sempre presente e tinha de impactar todas as posses de bola», defende Ricardo Brito Reis.
Carlos Lisboa – ex-jogador e treinador do Benfica – falou também ao Maisfutebol sobre esta época de Neemias, que, na verdade, surpreendeu o antigo craque do basquetebol nacional.
«De alguma maneira surpreendeu-me, não por causa dele. Surpreendeu-me porque, entretanto, Boston também remodelou a equipa e ele ganhou o seu espaço. Teve mais minutos e soube aproveitar. Isso é fundamental para o crescimento e para sua afirmação», referiu.
O núcleo central da evolução prende-se no aumento de minutos, como tanto Ricardo Brito Reis como Carlos Lisboa apontam. O resto veio com repetições, confiança e entrosamento com os colegas.
«Com mais tempo, sem aquela pressão de que se fizer a asneira vai sair, teve a oportunidade de estar mais tranquilo para, quando receber a bola, tomar melhores decisões», remata Brito Reis.
«Acho que ainda vai, em termos técnicos, evoluir mais do que tem feito, porque é um jovem que gosta de aprender e gosta de ouvir para poder ficar melhor. A evolução, a todos os níveis, é grande e visível», acrescenta ainda Carlos Lisboa.
«Se ele começa a marcar triplos então, vai ser engraçado…», atira ainda o antigo treinador das águias.
Os elogios dos colegas começaram a ser rotina. Estrelas dos Boston Celtics vieram a público, inúmeras vezes, enaltecer a importância do poste na equipa.
«Os colegas começaram a confiar mais nele, a dar-lhe mais bola», refere Ricardo. «Vê-se pelas palavras de alguns dos colegas. Estão contentes e acham que ele poderá atingir patamares muito elevados na equipa e na competição», enaltece Lisboa.
Há também um fator essencial: o treinador. Joe Mazzulla provou, ao longo da época, acreditar sempre no português. Ricardo Brito Reis fala, até, de uma relação especial.
«O Mazzulla tem dito que vai ser sempre duro com o Neemias, porque acredita nele. Tem aquela relação pai-filho. Aperta com ele porque acredita nele, porque se não apertar com ele é porque já desistiu», atira.
«Mesmo nos grandes jogos do Neemias, os jornalistas nas conferências de imprensa, entusiasmados, querem sublinhar o Neemias. O Mazzulla corta sempre esse entusiasmo e diz-se que está bem, mas que fez ali umas asneiras que tem de melhorar. Acho que é o treinador perfeito para o momento e para o desenvolvimento do Neemias», acrescenta ainda o analista.
«Joga na melhor Liga do mundo, mas continua com aquela simplicidade»
O lado mental é também analisado como fator crucial para o sucesso de qualquer atleta. No que toca a esse aspeto, Neemias está bem salvaguardado.
«Joga na melhor Liga do mundo, mas continua com aquela simplicidade e com aquela humildade que o caracteriza e que o levou a atingir estes níveis», enaltece Carlos Lisboa.
«Ele não é um jogador de ego e de se deslumbrar facilmente, bem pelo contrário. É um jogador que tem uma estrutura mental que eu vejo em muito pouca gente», referiu Brito Reis.
A evolução de Neemias foi notória em todos os setores. Nas principais estatísticas, o português duplicou praticamente tudo em comparação com o ano passado. Fez 76 jogos dos 82 possíveis na fase regular. 75 como titular. Passou de:
- 5 pontos para 10.2
- 3,8 ressaltos para 8.4
- 0.7 assistências para 1.7
- 0,7 desarmes de lançamento para 1.3
- 0.3 roubos de bola para 0.8.
Números que permitiriam que Neemias fosse o quarto jogador mais votado para o prémio de Most Improved Player (MIP) – atribuído ao jogador que mais evoluiu.
Neemias Queta foi o 4.º mais votado para o prémio de Most Improved Player. pic.twitter.com/yLseSt3Xl4
— B24 Dunk (@B24Dunk) April 25, 2026
«Os números traduzem mesmo o impacto que ele tem dentro do campo. Há coisas que ele faz que não vêm na estatística. No ano passado era um jogador que era quarto poste da NBA. Em qualquer outra equipa da NBA, o quarto poste está mais perto de estar fora da NBA do que propriamente passar a ser titular», enaltece Brito Reis.
Para Ricardo Brito Reis, a evolução – mesmo durante a época – foi «mesmo muito grande», como atira o especialista em NBA.
«Já pode ter a bola na mão. Passa bem a bola. Consegue criar nas áreas próximas do cesto. O trabalho de pés cada vez mais evoluído. Mesmo esses lançamentos perto do cesto, cada vez mais eficazes. Na defesa está muito melhor, posiciona-se muito melhor. Ele próprio diz agora que o jogo está muito mais lento, consegue ver as coisas com mais calma».
Para Carlos Lisboa – que esteve muito perto de ser o primeiro português a chegar à NBA – Neemias está a elevar a bandeira da melhor forma possível.
«O jovem que eu conheço bem, é um jovem que conseguiu atingir aquilo que queria, que era chegar à NBA. Todos os portugueses estão orgulhosos e ele sabe disso. Sabe da responsabilidade. Nós todos acreditamos, eu falo pelos portugueses. Ele amanhã vai ser melhor do que é hoje», garante Lisboa.
«Ninguém acreditava que ele ia fazer esta época»
Já Ricardo Brito Reis prefere recordar o quão raro é ter um português a representar o país no maior palco do basquetebol mundial.
«Eu acho que nós ainda nem sequer temos noção, nem valorizamos o suficiente, o que é que significa em 80 anos de história da melhor liga do mundo, termos pela primeira vez um jogador português», começa por referir.
Para o fundador do Borracha Laranja, nem esta época do Neemias vinha no ‘bingo’. A nós, portugueses, resta-nos sentar e apreciar.
«Mesmo este ano. Ninguém acreditava que ele ia fazer esta época. Para nós, é sentir-nos hoje privilegiados por termos um ‘tugão’ lá na NBA e apreciar estes momentos. Ele merece todo o carinho que recebe», concluiu.
A época de Neemias Queta já terminou. Os Bostons Celtics foram eliminados pelos Philadelphia Sixers na primeira ronda dos play-offs. O português, que está na quinta época, tem ainda mais um ano de contrato, mas vai renovar, como afirma Brito Reis.
Vai aproximar-se, então, dos dez anos de NBA. Algo que poucos atletas podem vangloriar-se. Continuará a fazer história, certamente. Do outro lado, Portugal continuará a ver a bandeira a ser representada no ápice do basquetebol Mundial.
