«Elche? Tive maior controlo sobre a escolha, nunca pensei tanto sobre uma saída»

12 out, 23:59

André Silva deixou Leipzig para se reinventar e procurar novo porto seguro, à semelhança do que conseguiu em Frankfurt. Ao Maisfutebol, o internacional português desvendou o perfil para lá do futebol e apontou ao primo que vai celebrando pelo hóquei do Sporting - PARTE III

De Milão a Frankfurt, de Leipzig a Elche – na comunidade valenciana – André Silva incorpora as cores do oitavo clube na carreira profissional. O primeiro capítulo no estrangeiro aconteceu há oito anos, pelo Milan, mas foi em Frankfurt que encontrou porto seguro, algo que espera replicar no regresso a Espanha.

No sintético do FC Foz, numa tarde de outubro com temperaturas de verão – e perante olhares de miúdos e graúdos muito curiosos – o avançado explicou ao Maisfutebol os motivos que o levaram até Elche.

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Parte II – «Senti muita amargura no Euro, mas sonho regressar à Seleção»

Maisfutebol (MF): No verão de 2017 deixou o FC Porto e reforçou o Milan. O que guarda da passagem por Itália?

André Silva (AS): Recordo-me da grandeza, era um mundo desconhecido. Sentia sobretudo esperança. Foi uma fase importante para amadurecer. Aprendi a manter os pés na Terra e a procurar o melhor de mim.

MF: E foi treinado por Gennaro Gattuso.

AS: Os treinos eram intensos, trabalhávamos muito a posse em espaço reduzido, com muita garra e duelos. Era a imagem dele enquanto jogador e a perspetiva de alguém no princípio da carreira como treinador.

MF: Nesse plantel estava Gigi Donnarumma, de 18 anos. Foi o melhor guarda-redes que teve como colega?

AS: Foi dos melhores, na altura ele já lidava com bastante pressão e sempre se mostrou capaz. A carreira que tem feito não é surpresa.

MF: Rumou a Frankfurt em 2019, emprestado pelo Milan, depois de passar pelo Sevilha. Na Alemanha, além do reencontro com Gonçalo Paciência, partilhou balneário com Bas Dost, que havia deixado o Sporting.

AS: Servimos de incentivo mútuo. Lembro-me de aprender com o Bas Dost, principalmente no jogo ofensivo ao primeiro toque. Há que aprender e crescer com todos.

MF: Em Frankfurt encontrou casa, o clube quis assinar em definitivo no verão de 2020.

AS: No FC Porto tinha uma situação que me preenchia e que poderia resultar numa fase estável. Aprendemos com as escolhas. Em Frankfurt voltei a sentir essa estabilidade e conexão. Sentia-me bem na equipa, que me entregava a confiança que procurava.

MF: Viveu a pandemia em Frankfurt?

AS: Tentei vir para o Porto, o meu local seguro, para junto da minha família. Mas o clube pediu para permanecer em Frankfurt. A minha mãe ajudou-me no processo e esteve comigo, mas passei algumas semanas sozinho. Sem futebol, tentei ocupar os dias com ginásio, videojogos, séries ou a falar ao telemóvel.

André Silva abordou a saída do Frankfurt, rumo a Leipizg – em 2021 – na segunda parte da conversa com o Maisfutebol.

MF: Passou por empréstimos à Real Sociedad e Werder Bremen, em 2023/24 e 2024/25, ainda vinculado ao Leipzig – com algumas lesões pelo meio – até assinar pelo Elche neste verão. Porquê regressar a Espanha?

AS: Tive consciência sobre o meu percurso, nunca pensei tanto sobre uma saída e tive maior controlo sobre a escolha. Analisei bastante, falei com os responsáveis e o treinador do Elche. Fez todo o sentido, o projeto vai ao encontro daquilo que preciso e daquilo que posso dar.

MF: O Elche regressou à La Liga e construiu um plantel jovem, com um treinador também jovem – Eder Sarabia, de 45 anos. Que planos apresentou?

AS: Mostrou muito entusiasmo com a minha chegada e é ambicioso.Perguntei pelos objetivos e o mister esclareceu que não pensa apenas na manutenção. Isso influenciou a minha decisão. É corajoso a nível tático, porque manteve o futebol ofensivo, de risco e aberto que demonstrou na época passada. Talvez esperassem que o Elche estivesse no fundo da tabela nesta fase, até pela ideia de jogo, mas o mister preparou bem a equipa. Está a correr bem, até agora foi uma boa escolha.

MF: No Elche está Martim Neto, de 22 anos, médio formado no Benfica e com passagens por Rio Ave e Gil Vicente. Foi o padrinho dele em Espanha?

AS: Pediram-me para dar o exemplo ao grupo em todos os momentos, mas não fui padrinho. O Martim é um jovem e escolheu o momento ideal para reforçar o Elche, para crescer, aprender e desfrutar. E tem qualidade. Há que aproveitar as oportunidades e tento-o apoiar.

MF: Leva quatro golos em sete jogos no campeonato, o André Silva de FC Porto e Frankfurt está de regresso?

AS: Não. Sou mais experiente e capaz, esta é uma etapa diferente. Este é o André do presente. Da experiência que acumulei, sinto que não devo colocar metas de golos, por exemplo, porque a época depende de vários fatores. Devo dar o meu melhor e desfrutar do momento.

MF: Que mensagem deixaria ao André Silva de 2001, que treinava no Salgueiros?

AS: Muitas coisas. É tudo fácil de perceber agora, tanto o que me fez chegar longe e o que me impediu de tomar outras escolhas. Mas diria para lutar por mais, sem se esquecer de desfrutar do momento. Tudo passa rápido e aquilo que julgamos desejar pode não corresponder ao que realmente ambicionamos.

MF: Tem dois primos que jogam hóquei em patins, Diogo Barata (Sporting) e Hugo Barata (Benfica e Alenquer). É fácil apoiar o primo que joga no rival do FC Porto?

AS: Claro! Cresci com os meus primos e desejo-lhes o melhor. O Diogo não jogava muito no FC Porto e agora é feliz no Sporting. Quero que eles desfrutem e que sejam felizes, mas isso não impede algumas picardias saudáveis na família.

MF: Para lá do futebol, quem é o André Silva?

AS: Gosto de comer algo tradicional, como sardinhas, e estar perto da praia. Ou rodeado das pessoas que gosto, a jogar cartas ou videojogos. Quanto a música, a minha esposa tem um gosto mais refinado e levou-me a ouvir algo mais calmo, em vez de hip-hop e reggaeton. Neste momento ouço mais música portuguesa.

André Silva após a entrevista com o Maisfutebol no estádio do FC Foz, no Porto.

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