Investigação CNN/TVI/SOL revela os bastidores da tensão que se vive nos corredores da mais influente obediência maçónica do país: 40 maçons, que eram liderados pelo ex-coordenador do Plano de Emergência para a Saúde, Eurico Castro Alves, já saíram
Nas vésperas de se juntarem centenas de maçons em hotéis e restaurantes para preparar o novo ano maçónico, a mais influente obediência do país vive uma crise interna. A iminente entrada de mulheres no Grande Oriente Lusitano (GOL) levou já cerca de 40 maçons de uma loja de Vila Nova de Gaia a bater com a porta e outros tantos estão a promover reuniões para decidir se também saem da obediência, como revela a edição desta sexta-feira do SOL numa investigação conjunta com a CNN Portugal e a TVI.
Pelo meio, o grão-mestre do GOL, Fernando Cabecinha, fez um despacho, onde lança as regras provisórias para as lojas poderem começar a iniciar mulheres, evitando terem de esperar meses a fio até que o regulamento geral sobre o assunto seja aprovado.
O tema está a gerar desconforto e tensão e nos próximos meses promete revelar divisões internas, que noutros tempos levaram a braços de ferro e cisões, com a criação de novas obediências.
Os 40 maçons que saíram agora do GOL pertenciam à Loja União Portucalense, liderada pelo médico e ex-coordenador do Plano de Emergência para a Saúde, Eurico Castro Alves. Nos documentos que chegaram à direção do GOL, nomeadamente as atas das reuniões secretas que faziam, explicam que desde o início se mostraram contra a ideia de abrir as portas ao sexo feminino, referindo que, perante a decisão de deixar entrar mulheres, optam todos por sair.
Com a debandada de todos os membros da União Portucalense, os 40 maçons pediram para que a loja desapareça das listas do GOL, ou seja, que se “abata as suas colunas”, como é referido nos documentos maçónicos. Outras lojas do GOL poderão tomar o mesmo caminho. Há alguns grupos de maçons que estão a promover reuniões para decidir se se mantêm ou saem da obediência. Uma delas é a loja Estado da Arte, de Cascais, que já foi liderada por Salvato Teles de Menezes, presidente da Fundação D. Luís I. Vários membros desta loja mostraram vontade de deixar a obediência por não concordarem com a entrada de mulheres. Segundo fontes maçónicas, os maçons desta loja vão tomar uma decisão em breve que pode passar por saírem todos ou pelo menos alguns. O mesmo se passa numa das seis lojas que o GOL tem no Algarve, onde os elementos se mostraram sempre contra a entrada de mulheres.
O tema da abertura de portas do GOL ao sexo feminino começou com este grão-mestre quando pediu a um grupo de maçons, incluindo o juiz Eurico Reis, a elaboração de um relatório interno sobre o que as lojas pensavam da entrada de mulheres. Perante a luz verde da maioria, o processo seguiu para o parlamento maçónico onde a 31 de maio deste ano foi aprovada uma revisão da constituição do GOL para permitir a iniciação de “irmãs”. Em 21 de junho esta revisão foi promulgada pelo grão-mestre, o que a reativou o clima de crise e tensão que se vivia desde o momento que se abriu este debate. Desde aí, contam fontes do GOL, alguns “irmãos” começaram a revelar vontade de sair por não concordarem com a opção. Mas muitos pensavam que a real entrada de mulheres podia arrastar-se no tempo, acrescenta um maçon do GOL, por ser preciso aprovar um regulamento geral sobre a forma de proceder e as regras a aplicar. Mas para evitar arrastar o processo, em agosto Fernando Cabecinha fez um decreto a lançar as regras provisórias que as lojas devem seguir para poderem começar já a preparar a entrada. Este decreto tem cinco artigos e explica o que as lojas que pretendem abrir a portas a mulheres devem fazer. O primeiro passo é “apresentar uma proposta escrita de mudança de natureza, devidamente assinada, pelo menos por sete membros ativos”. Natureza que transforma a loja em mista e não apenas masculina. Mas as regras obrigam a que essa mudança seja aprovada por uma “maioria absoluta” dos membros. Além disso, as lojas têm de ter as contas regularizadas e terão de alterar os regulamentos internos.
Até agora, já duas lojas, pelo menos, pediram para iniciar mulheres. A primeira a fazê-lo foi a Loja Delta.
Mulheres vão demorar anos a conseguir liderar maçons
Apesar de poderem entrar vai demorar alguns anos para que as “irmãs” possam ocupar lugares de liderança. É que, como adianta fonte maçónica, para que uma mulher possa ser eleita grão-mestre tem de estar há, pelo menos, cinco anos na obediência. E para liderar o parlamento maçónico – conhecido como Dieta entre os maçons – são precisos pelo menos dois anos desde a entrada.
De acordo com várias fontes maçónicas, nos bastidores do Palácio do GOL corre a informação de que muitos dos maçons que estão a sair podem ir para outra obediência – a Grande Loja Legal de Portugal (GLLP). No entanto, segundo fonte da GLLP não há nenhum processo a decorrer com vista à integração destes maçons descontentes do GOL. Se este sempre teve muito poder junto do PS, a GLLP, quando começou, esteve mais associada ao PSD. Mas hoje uma e outra garantem que têm elementos de vários quadrantes políticos.
Segundo dados oficiais, o GOL tem neste momento 2400 membros e 103 lojas e a GLLP 3884 maçons espalhados por 180 lojas. Tal como o GOL também a GLLP junta os maçons este fim de semana no Hotel Corinthia para preparar o novo ano maçónico, em que a maçonaria terá dois testes de sobrevivência: a entrada de mulheres no GOL e o peso de maçons nas eleições autárquicas de 12 de outubro, que irá revelar a real influência que a maçonaria ainda tem de norte a sul do país.