Paulo Rola, que lidera a Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), rejeita a ideia de a maçonaria ser uma escada para o poder, lamenta que a sociedade não entenda o papel dos maçons e adianta que quer formar uma nova ordem dedicada às novas gerações
A maçonaria faz sentido nos dias que correm?
Faz muito sentido. Numa altura em que os nossos valores estão em causa, a maçonaria é a grande defensora desses valores. Em períodos conturbados, como o que estamos a viver, em que nada está assegurado, até às vezes a liberdade, a maçonaria faz ainda mais sentido. Somos uma escola de valores e são esses valores que hoje possam estar em perigo que faz sentido o trabalho dos maçons.
E que trabalho é esse?
Em loja trabalhamos esses valores. São discutidos, são abordados e são colocados em termos de postura do maçom para com a nossa sociedade. Ou seja, o princípio básico do maçom é o seu aperfeiçoamento. É o estudo, é o conhecimento. E isso é que se faz nas lojas. Quando trabalhamos esses valores e os discutimos transformamos-nos em homens melhores e, consequentemente, a sociedade vai ter melhores homens.
Quais são esses valores que os maçons trabalham?
De liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade. São esses os valores que a sociedade precisa que estejam bem presentes, e que estejam bem trabalhados.
Mas sendo assim faz sentido haver ainda secretismo à volta da maçonaria?
A maçonaria não é secreta. A maçonaria é discreta. E essa descrição passa por um dos nossos princípios que é o da não revelação de quem pertence. Tudo o resto, tudo o que fazemos está dito e escrito. O verdadeiro segredo é um segredo nosso. E esse segredo só quem tem a vivência da maçonaria o sabe. É algo muito nosso. O princípio de não revelar a identidade do irmão é o único secretismo que temos.
Mas porque acha que ainda é importante para os maçons manter esse secretismo da identidade?
Este grão-mestrado pretende trabalhar na abertura à sociedade cada vez mais.
Qual o objetivo dessa abertura?
Para explicar o que somos. Não quem somos, mas explicar o que somos. Aquilo que fazemos; aquilo que de bom fazemos. Para que a sociedade nos comece a olhar com outra visão. Eu costumo dizer que quem pode e quer deve assumir, publicamente. Mas nem todos o querem assumir.
Muitos maçons quando chegam a determinados cargos públicos acabam por se afastar. Na sua opinião a que deve esse comportamento?
Realmente alguns quando assumem têm muito mais trabalho, o que lhes pode deixar alguma falta de disponibilidade para a prática maçónica e afastam-se. A maioria das vezes a razão é essa.
Há quem veja a maçonaria como uma escada para o poder. Ou seja, acha que para se chegar ao poder é preciso passar-se pela maçonaria.
Totalmente errado. Não somos uma plataforma para se subir nos cargos, nem fazemos combinações para conseguir um lugar ou outro. É mentira.
Mas a verdade é que nos últimos governos, durante anos e anos, tem havido elementos da maçonaria. Será que os políticos são atraídos pela maçonaria ou a maçonaria atrai os políticos?
Se nós temos "irmãos" que na sua cidadania fazem parte de partidos e organizações, que são reconhecidos e bons profissionais, que são pessoas responsáveis e reconhecidas na sua atividade, e depois são escolhidas, são-no pela sua capacidade e não porque fazem parte da maçonaria. Se calhar, por coincidência, podem fazer parte na maçonaria.
Acha que o facto de todos partilharem a mesma organização não acaba por ajudar na escolha?
Mas essa organização pode ser a maçonaria ou outra coletividade. Se eu tenho um colega, um amigo com quem trabalho, a quem eu reconheço profissionalismo, e se eu preciso de alguém para assumir esse cargo, eu escolho-o por essas competências. Não é por ser maçom. Não há aqui uma combinação por se ser maçom. Isso é totalmente falso.
Mas essa é a imagem que às vezes passam.
Isso é o problema com o qual nós lutamos. Há quem pense erradamente em entrar para a maçonaria porque possa aqui ter uma ascensão ou consiga determinados lugares. Isso é completamente falso. Não existe.
Ao contrário do que tem sido tradição, em que a outra obediência, o Grande Oriente Lusitano, tem sempre muitos elementos no Governo, no atual Executivo há mais elementos da GLLP. Porque acha que se deu essa mudança?
Somos uma organização que resultou da saída de um grupo de "irmãos" do Grande Oriente Lusitano. A GLLP tem 34 anos. Há uns anos éramos poucos, mas hoje somos muito mais. E à medida que temos “irmãos” com essa competência de grande capacidade profissional e reconhecida, é natural que existam mais escolhidos.
Mas isto é importante para a GLLP?
Não. Precisamos é de ter homens bons. Claro que é bom quando se sabe que algum de nós possa fazer parte de grandes responsabilidades em qualquer organização. Não só do governo, mas em qualquer organização. É uma alegria para nós se amanhã há um “irmão” nosso que é o CEO de uma empresa de grande prestígio.
Qual é o perfil de recrutamento que costumam fazer?
Parece um chavão, mas o que temos é de reconhecer que aquele homem é bom e íntegro e que aqui o vamos trabalhar para que se transforme num homem ainda melhor. Esse é o princípio. É claro que como lidamos como a questão do conhecimento, é natural que procuremos pessoas com mais conhecimento. Mas aquilo que se calhar as pessoas pensam, que os escolhemos por serem do partido A ou B, ou por terem capacidade económica, não é verdade.
Aceitam desempregados?
Sim. E às vezes estão aqui e ficam desempregados. Mas é verdade que temos um princípio que é ser um homem livre e uma pessoa desempregada se calhar vai ter dificuldade em cumprir os seus deveres financeiros para com a organização. E todas as organizações têm uma quota a pagar.
A GLLP ficou, no início, muito ligada ao PSD. Hoje tem elementos de várias áreas partidárias?
Há de vários partidos sim, além do PSD e do PS. Mas não sei responder se seremos mais de um partido ou outro.
O que é que diferencia a Grande Loja Legal de Portugal das outras obediências?
A Grande Loja Legal de Portugal é a única loja regular em Portugal. Temos mais de 208 reconhecimentos internacionais.
O que é que significa regular?
Regular é trabalhar à glória do grande arquiteto do universo, com o quadro, o compasso, o livro sagrado. Para entrar tem de se crer numa entidade criadora. Há outras lojas que se dizem regulares e que acreditam no grande arquiteto do universo, mas não têm o reconhecimento internacional. A única é a Grande Loja Legal em Portugal.
E qual é que é a importância desse reconhecimento para uma pessoa que quer entrar na maçonaria?
Primeiro é um orgulho. Esse “irmão”, para onde for no estrangeiro, está associado a uma cadeia de união de milhões de “irmãos”, nos quais ele pode ser recebido.
De que se trata essa cadeia de união?
A cadeia de união é uma coisa muito simbólica nossa. Mas simboliza o facto desse "irmão" quando viajar poder trabalhar a nível maçónico com os outros “irmãos”.
Essa cadeia de união é um ritual que se faz em loja?
A cadeia de união é uma parte de ritual e é uma forma de simbologia e de linguagem de união. É a união de todos os maçons.
Porque é que ainda se fazem juramentos?
Um dos princípios do juramento é jurar que nós respeitamos as leis do Estado. Isso é um princípio básico. Jurar que valores que trabalhamos serão respeitados.
Se um maçom tiver cometido um crime vai denunciá-lo?
Como lhe disse, o primeiro juramento é que tem de respeitar as leis do Estado. Por isso, se algum "irmão" cometer um crime, qualquer outro que aqui esteja, o seu principal dever é denunciá-lo. Não há proteção nenhuma, é bom que a sociedade o entenda. Os juramentos que fazemos não são de proteção.
Sente que os maçons são mal vistos?
Somos mal vistos e mal compreendidos. E isso é um trabalho que temos de fazer.
Quantos maçons tem a GLLP?
Somos quatro mil e temos 157 lojas ativas.
E está em todo o país?
Sim, em todo o país. Do total, 50% são na Área Metropolitana de Lisboa, mas temos nas ilhas, em Cabo Verde, na Guiné, em Macau, em São Tomé e Príncipe.
E ainda há jovens a querer entrar na maçonaria?
Esse é o grande desafio. Temos poucos jovens. Era importante ter mais jovens connosco.
Qual é a idade média dos maçons da GLLP?
É de 55 anos.
Os jovens não sabem que existe a maçonaria ou não se identificam?
Não sei dar a resposta. Cativar os jovens para a maçonaria é o grande desafio. Queremos perceber os jovens e o que é que os pode motivar a vir para cá. Se calhar temos de adequar alguma forma de trabalhar.
Há uns anos pensou-se em lançar uma ordem para jovens chamada DeMolay? Chegou a avançar-se?
Arrancou no período da pandemia, mas parou. Mas vamos reativar essa ordem.
E como grão-mestre, quais são os seus objetivos principais para este mandato?
Eu tenho vários objetivos. Um deles é que a sociedade nos entenda um pouco melhor. Por isso, para além dos trabalhos que fazemos aqui dentro, vamos começar a fazer debates para fora sobre alguns temas da sociedade.
Em que tipo de debates é que a maçonaria pode ser mais útil?
Sobre saúde, sobre educação, sobre a paz, sobre a inteligência artificial. Para depois mostrar à sociedade aquilo que foi o resultado dos nossos debates, dos nossos pensamentos.
