As novas "irmãs" vão ser integradas na Loja Delta, em Lisboa que passou a ser mista, pondo fim a uma regra de séculos que proibia a entrada do sexo feminino
O Grande Oriente Lusitano (GOL), a obediência mais antiga e influente do país, vai esta terça-feira, dia 25 novembro, pela primeira vez na história, passar a ter mulheres entre os seus membros. A iniciação – ritual maçónico em que os novos membros são apresentados aos restantes – vai decorrer no templo José Estevão, que existe no Palácio maçónico, no Bairro Alto, em Lisboa, segundo documentos internos a que a CNN Portugal teve acesso.
As duas primeiras mulheres maçons do GOL vão pertencer à Loja Delta, liderada por Leonel Gonçalves, que é assim a primeira loja da obediência a deixar de ser exclusiva para homens. Mas não será a única, uma vez que já outras lojas iniciaram o processo para também terem “irmãs” entre os seus elementos, de acordo com fontes da maçonaria. Estão em processo de entrada várias "irmãs".
A entrada de mulheres, aprovada no parlamento maçónico em maio deste ano e promulgada em junho pelo grão-mestre Fernando Cabecinha, gerou grande polémica interna e levou a que, pelo menos, 40 maçons saíssem do GOL por não concordarem com a decisão. Aliás, como revelou a CNN Portugal, uma das lojas saiu em peso: a União Portucalense, de Vila Nova de Gaia, que era liderada por Eurico Castro Alves, o médico que coordenou o Plano de Emergência para Saúde.
Juramento de fidelidade
No ritual de iniciação que será feito esta terça-feira, as mulheres vão fazer um juramento de fidelidade pondo a mão sob a Constituição da República que estará colocada numa pequena mesa junto a um altar que existe no templo, local de onde o líder da loja comanda a sessão.
Para receber as mulheres, a Loja Delta deixou de ser apenas masculina, tornando-se na primeira loja mista do GOL. Isto depois de o grão-mestre Fernando Cabecinha ter feito um decreto a lançar as regras que as lojas tinham de seguir para começarem a iniciar mulheres. Este documento, a que a CNN Portugal teve acesso, tem cinco artigos e explica que o primeiro passo para que as lojas possam abrir a portas às mulheres é “apresentar uma proposta escrita de mudança de natureza, devidamente assinada, pelo menos por sete membros ativos”. E esta mudança de natureza (passando de masculina para mista) tem depois obrigatoriamente de ser aprovada por uma “maioria absoluta” dos membros. Além disso, só as lojas que têm as contas regularizadas podem fazer esta alteração.
Para permitir a iniciação de mulheres, o GOL teve de alterar a sua própria constituição. Na nova versão, que a CNN Portugal consultou, é explicado no artigo 9.º que “a maçonaria portuguesa, organizada no Grande Oriente Lusitano, compõe-se de iniciados com o título genérico de maçons, congregados em assembleias denominadas oficinas - lojas ou triângulos - conforme o número dos seus obreiros e que podem ser masculinas, femininas ou mistas”.
Mulheres foram alvo de três inquéritos
É neste documento interno que está ainda definido a forma como se pode entrar no GOL. Antes de alguém ser admitido tem de ser alvo de “três inquéritos” por parte de outros maçons que comprovem que o candidato tem “mais de 18 anos e que tem bom comportamento e reputação”. Além disso, estes inquéritos servem ainda para ver se o novo elemento tem “a cultura necessária à compreensão e filosofia da Ordem, a energia moral para os cumprir e meios pecuniários” para pagar as quotas definidas por lei.
Esta terça-feira, de acordo com vários maçons, irá fazer-se “história”, quando às 19h se iniciar a entrada das primeiras duas mulheres no GOL, obediência criada em 1802 e que sempre foi proibida ao sexo feminino.