Negócios da (quase) China: como Macau virou bússola de oportunidades para os empresários portugueses

28 fev, 18:00
Macau :: Reportagem Negócios da (quase) China

REPORTAGEM || Portugal passou o testemunho à China em 1999. Estamos, agora, já na segunda metade do processo de transição, que se estende até 2050. Macau está a transformar-se. E, também por isso, há portugueses a apostar neste território para fazerem negócio. Contamos-lhe três dessas histórias

Toca o sino na rua. Há uma nova fornada a caminho. As mãos de Choy Lalisan trabalham a massa nas formas. É Portugal que ali se estica – país a que esta filipina nunca foi. “Gostava de visitar Portugal pela sua cultura. E, claro, pela comida. O pastel de nata não pode falhar, é a primeira prioridade. Espero poder fazer alguns lá”.

A loja onde Choy trabalha, que pertence à marca Manteigaria, abriu há poucas semanas em Taipa, Macau. O cheiro a novo mistura-se com os pastéis acabados de fazer. O menu escreve-se em português e em chinês. Estranha-se, depois entranha-se.

Choy passa os dias a fazer pastéis de nata, mas nunca visitou Portugal (DR)

Nas lojas ao lado, tenta-se vender outros produtos com o carimbo de Portugal. É exótico. Há galos de Barcelos a forrar embalagens. Há bandeiras verdes e vermelhas. E muito “tradicional” colado a imagens que nunca nos passariam pela cabeça. Por exemplo, um croissant com frango é vendido como uma iguaria portuguesa.

Ao percorrer a Rua do Cunha, alguns metros mais à frente, multiplicam-se os escaparates com pastéis de nata. “Portuguese egg tart”, lê-se. “São inspirados no nosso pastel de nata, mas foram adaptados ao gosto e à cultura local. Sabem muito a ovo, com uma textura de pudim, quase quiche”, descreve Diogo Vieira.

Por vezes, há opções "tipicamente portuguesas" que nunca imaginámos (DR)

Este português de 41 anos, natural de Leiria, está há mais de uma década em Macau. À gestão do restaurante da Portugália em Macau, junta agora a rede Manteigaria. O desafio, nos dois espaços, é dar a provar Portugal da forma mais verdadeira, mais genuína, possível.

“É uma das nossas lutas, tentar que as pessoas percebam a diferença entre o pastel de nata e a tarte de ovo. Visualmente são muito parecidos, mas quando se come, quando se prova, há diferenças bastante grandes”, insiste. Os ingredientes vêm de Portugal, para garantir fidelidade. A ligação histórica entre os dois territórios facilita a importação.

“São sempre uma porta de entrada para podermos mostrar a nossa cultura. E para fazer com que, ao provarem os produtos, visitem o nosso país”, remata.

Diogo Vieira gere as marcas Manteigaria e Portugália em Macau (DR)

Saudade como negócio

Estamos do outro lado do mundo, a mais de 11 mil quilómetros em linha reta de Lisboa. É como se percorrêssemos Portugal de norte a sul 19 vezes. Abre-se um mundo novo e, ao mesmo tempo, tão familiar. É difícil perdermo-nos, não saber aquilo que os nossos olhos descobrem. As placas – com os nomes das ruas, das lojas, com os destinos dos autocarros – estão em português. Mesmo que esse português - para facilitar a vida de quem vive em Macau, mas não domina a língua - tenha sido adaptado ao cantonês. É uma aproximação por sons. Funciona.

Os prédios sem grande cor, encavalitados uns nos outros, denunciam a paragem desta tarde. Há grades e gaiolas nas janelas, que servem para estender as casas para lá dos seus próprios limites. A lei diz que, quando há renovação dos prédios, devem ser retiradas. Mas elas, teimosas, sabendo que também são parte da identidade desta terra, resistem.

Na zona antiga de Macau, são assim as ruas, com as grades a expandir o espaço útil das casas (DR)

“Isto é Macau antigo, muito local mesmo, com muitos velhotes. Morava aqui perto, gostava muito desta zona, achava que era muito interessante”, conta Raquel Fera, de 37 anos, natural do Montijo, a viver em Macau há quase 14. A poucos metros desta conversa, no Beco do Sal, idosos reúnem-se em círculo, sentados em bancos baixos. Na loja em frente, um corte de cabelo demora-se pela tarde dentro.

Raquel deixou que a saudade fermentasse uma ideia de negócio (DR)

Não há margens para enganos. “The Portuguese Bakery”, assim se chama o negócio de Raquel. “Sentia muita falta do pão e dos produtos portugueses. Eu e os meus amigos, assim como as pessoas com quem falava. Achei que podia ser boa ideia abrir um negócio destes. Precisamente para sentir que estou mais perto de casa”. É que a saudade, assim como o pão, também fermenta.

Para Raquel, Macau não era o plano. O destino era a Austrália. Problemas com o visto levaram-na a uma paragem estratégica em Macau, onde o marido já tinha vivido antes. A vida aconteceu nos entretantos. Com direito a dois filhos e um negócio. Por aqui, garante, não há grandes barreiras burocráticas.

Raquel Fera tinha outro destino em mente, mas Macau acabou por transformar-se na sua casa (DR)

O negócio começou tímido. E acabou por levedar, diversificou-se. “Ao longo dos anos, fomos adicionando mais coisas, mas mantivemos sempre os tradicionais: o pão de mistura, o pão alentejano, a carcaça, o pão de leite e broa”. Agora há bolos, sumos com rótulos portugueses. E, sim, como não podia deixar de ser, pastel de nata.

Uma comunidade cada vez menor (numa terra em rápida transformação)

Mesmo para os portugueses, as regras estão mais difíceis. Macau não aceita desde agosto de 2023 novos pedidos de residência de portugueses para o exercício de funções técnicas especializadas, permitindo apenas justificações de reunião familiar ou anterior ligação ao território. Resta a emissão de um “blue card”, autorização limitada ao vínculo laboral, sem os benefícios dos residentes, nomeadamente ao nível da saúde ou da educação.

“Ainda existe uma comunidade portuguesa relativamente grande, mas em comparação com outras nacionalidades que cá existem, talvez seja a mais pequena, não sei. Está cada vez mais pequena, como é óbvio. A covid-19 foi um dos grandes motivos para que a comunidade diminuísse”, descreve Raquel Fera. É uma sensação partilhada por outros portugueses com quem a CNN Portugal falou em Macau.

Influência portuguesa é cada vez menos notória (DR)

E os números falam por si. Segundo os Censos de 2021, havia 2.213 pessoas nascidas em Portugal a viver em Macau, o equivalente a 0,3% da população desta região administrativa. Se tivermos em conta a ascendência portuguesa, o número sobe para 13.021, não ultrapassando 2% da população.

Macau tem-se desenvolvido, com a construção a um ritmo apressado (DR)

É um dos indicadores que comprovam como, com a passagem de testemunho à China, Macau se está a transformar. O período de transição estende-se até 2050. “E é natural que, a pouco e pouco, as coisas portuguesas deixam de existir e existam mais coisas chinesas, isso nós já sabemos”, refere Raquel Fera.

Há gruas, construção em toda a parte. Para alimentar a expansão, a terra rouba espaço ao mar. E os edifícios, de 30, 40 andares, rasgam o céu sem pedir licença. Tudo rápido, em meses. Cada edifício é um templo, faraónicos na ambição, kitsch na estética. Corredores e corredores a perder de vista, labirintos de compras em lojas de luxo. E, imagine-se, até uma Torre Eiffel. Tudo pensado para levar os 100 mil turistas que aqui passam, todos os dias, quase todos chineses, a gastar.

E o setor do jogo em Macau já vale mais do que em Las Vegas. Em 2024, as receitas dos casinos macaenses atingiram o equivalente a 26 mil milhões de euros. É o equivalente a três milhões de euros por cada hora. E a prova de que a China se alimenta de dois sistemas. Nos tetos das salas de jogo, as câmaras observam dia e noite.

Dois mundos convivem em Macau: o antigo e o contemporâneo (DR)

“Descobrimentos” ao contrário

Deus, seja ele qual for, está sempre em todo o lado. Foi da deusa A-má que Macau ganhou o seu nome. Deusa do mar, protetora de marinheiros, pescadores e viajantes. Incensos vão ardendo pacientemente, à espera de que algo aconteça ou a agradecer os pequenos milagres do dia a dia.

Nem mais de 400 anos de presença portuguesa conseguiram apagar esta fé. Mas, agora, é Portugal quem quer ser descoberto pelos chineses. Tiago Brito, 44 anos, natural de Carcavelos, vive há 10 anos em Xangai, mas passa por Macau com frequência. É o coordenador do Turismo de Macau na China.

Tiago Brito é responsável por promover Portugal na China (DR)

“Os chineses têm uma imagem muito boa de Portugal, de um país amigo, politicamente com relações bastante estáveis, com uma longa amizade que está alicerçada aqui em Macau”, descreve.

Por mais que Portugal tenha bons motivos para justificar a visita, há um nome que vem sempre à cabeça por estas bandas. “Portugal vende-se desde logo através do nosso principal embaixador, que é o Cristiano Ronaldo, que para os chineses é o “C Luó”. Admiram-no sobretudo pela sua capacidade de trabalho, pela sua liderança, por ser o primeiro a querer dar o exemplo. Os chineses admiram muito isso”.

Macau herdou o seu nome da deusa A-Má, venerada neste templo (DR)

Contudo, tal como acontece no desporto, para ter resultados nos negócios na China é preciso muito tempo. A China pode estar a abrir-se ao mundo, mas continua a exigir paciência, que o outro lado demonstre que é merecedor da confiança. “É um mundo completamente novo. Os chineses valorizam bastante o aspeto relacional da relação, seja ela empresarial ou económica. É algo diferente do espetro ocidental, em que queremos ter mais respostas na hora, mais diretas”, concretiza Tiago Brito.

Apesar de o número de turistas chineses para Portugal estar a aumentar – em 2024 foram quase 287 mil, um aumento de 53% face ao ano anterior – ainda há obstáculos difíceis de ultrapassar: “temos de ter em consideração que apenas uma pequena parte da população chinesa dispõe de um passaporte que lhes permita viajar a qualquer sítio”.

Macau dá-se a provar em bolachas de amêndoa... e na carne de porco seca (DR)

“Um sítio especial”

Há uma Macau que vive apressada, que se dá a provar nas ruas em bolachas de amêndoa e carne de porco seca. São os vendedores ansiosos para deixar a caixa registadora mais recheada. E depois há Macau à procura do seu próprio destino, talvez melancólica, a alimentar aquilo que só o português tem uma palavra para definir: saudade. Macau divide-se, como se dividem aqueles que nela moram.

“É um sítio especial porque é na China, mas de repente parece que estamos em Portugal”, resume Raquel Fera.

“O facto de termos português, de ouvirmos a nossa língua, de a comunidade portuguesa ser uma comunidade com proximidade, de a cidade não ser muito grande, torna-nos mais próximos. Isso acaba por ajudar a adaptação”, admite Diogo Vieira.

Ruínas de São Paulo são ponto de passagem obrigatória (DR)

As ruínas de São Paulo, que são o que resta de um complexo jesuíta que os portugueses instalaram naquilo que é hoje o coração de Macau, são a metáfora perfeita. A cada dia que passa, mostra-se que a relação entre Macau e Portugal sobrevive cada vez mais apenas como postal turístico. E em quem constrói um lar longe de casa.

“A pessoa sente-se metade em Macau, metade em Portugal. É um sentimento diferente”, confessa Raquel Fera.

“Quando os chineses querem dizer que têm saudade de alguém, dizem Wǔxiǎngnǐ. Significa ‘tenho saudades tuas’. Não existe naturalmente uma palavra em paralelo, mas essa é a frase que normalmente utilizam. Wǔxiǎngnǐ”, explica Tiago Brito.

Wǔxiǎngnǐ, Macau.

Macau está cheia de momentos de melancolia (DR)

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