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Este macaco raro está a desaparecer de uma floresta, mas a recuperar noutra

CNN , Rebecca Cairns
4 jun, 11:00
Considerado extinto durante décadas, o macaco-de-nariz-achatado-de-Tonkin foi redescoberto em grupos fragmentados na década de 1990 — e a sua principal área de ocorrência em Khau Ca, no Vietname, viu a sua população triplicar nos últimos 20 anos, de acordo com recentes estudos populacionais. (Nguyen Quyet Tam/Fauna & Flora)
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Por entre os ramos de árvores de folha perene, um par de olhos de contornos azuis fita a copa da floresta calcária de Khau Ca.

É um raro vislumbre de um dos macacos mais ameaçados do mundo, um momento muito apreciado pelo conservacionista de campo Canh Xuan Chu.

Os macacos de nariz arrebitado do Tonquim são endémicos do Vietname e encontram-se apenas em manchas florestais fragmentadas de duas das províncias mais a norte do país, na fronteira com a China.

Uma população de apenas 50 indivíduos foi descoberta em Khau Ca no ano de 2002, juntando-se aos poucos locais onde a espécie foi reencontrada no final das décadas de 80 e 90, depois de ter sido dada como extinta.

Hoje em dia, a espécie praticamente desapareceu desses outros habitats. No entanto, um novo censo da organização não governamental Fauna & Flora International revelou que a população de Khau Ca mais do que triplicou desde 2002, contando com 160 destes macacos criticamente ameaçados a viverem agora na reserva. Este número corresponde a cerca de 80% do total da espécie.

O diretor do programa dedicado a este animal na Fauna & Flora, Canh Xuan Chu, orgulha-se dos resultados alcançados, destacando que este é um dos levantamentos mais bem-sucedidos da instituição.

As conclusões trazem uma renovada esperança para a sobrevivência desta espécie frágil, podendo servir de modelo a outras florestas do Vietname no esforço de recuperação das respetivas populações de símios.

Aumento significativo

Apesar das estranhas marcas faciais, estes primatas são tímidos e reservados, evitando o ser humano e desaparecendo frequentemente ao mínimo som invulgar, nota o investigador.

É em parte por isso que são tão difíceis de contabilizar, um obstáculo que remonta há várias décadas.

Várias crias de macaco foram avistadas durante o levantamento. (Nguyen Quyet Tam/Fauna & Flora)

Extensivamente caçados para utilização na medicina tradicional e, por vezes, para consumo de carne, os macacos de nariz arrebitado do Tonquim eram tão raramente vistos que, na década de 80, a comunidade científica chegou a acreditar na sua extinção.

Pouco depois da descoberta da população em Khau Ca, a Fauna & Flora instalou uma base de apoio para a conservação e formou equipas comunitárias destinadas a proteger e patrulhar a floresta, ajudando a remover armadilhas e a sinalizar indícios de desflorestação ou caça ilegais.

De forma a apoiar as populações locais, que habitualmente tiravam o seu sustento da agricultura ou da recolha de alimentos na natureza, o projeto fomenta também novas fontes de rendimento, como a integração nestes grupos de patrulha. Outros parceiros, como a New Nature Foundation e o Jardim Zoológico de Denver, estão empenhados em reduzir a pressão sobre a floresta através da distribuição de fogões energeticamente eficientes, o que permite diminuir as necessidades de lenha em 50%.

Tran Van On, um dos membros da equipa comunitária, notou uma evolução substancial na consciencialização da comunidade local em torno da preservação da espécie.

Numa declaração escrita, o ativista garantiu que "as pessoas estão agora não só mais despertas para a proteção desta espécie endémica do Vietname, mas também mais conscientes da importância de salvaguardar os habitats florestais e outras espécies de vida selvagem".

Dez dias, mil hectares

O recente levantamento, realizado entre outubro e novembro de 2025, é o mais exaustivo e completo até à data, garante o responsável pelo projeto.

Mais de 30 pessoas da equipa de conservação e da comunidade local dividiram-se em dez grupos e acamparam na floresta durante dez dias para realizar a monitorização ao longo dos mil hectares do parque.

Cerca de 80% da população da espécie vive em Khau Ca, no norte do Vietname. (Nguyen Quyet Tam/Fauna & Flora)

Canh Xuan Chu explica que esta abordagem faz parte de uma nova metodologia. Com o mapa da reserva dividido em secções, cada grupo ficou encarregue de uma "célula", de modo a evitar duplicações e otimizar a eficiência no terreno.

As equipas utilizaram ainda drones com câmaras térmicas, armadilhas fotográficas e dispositivos "audiomoth", um sensor acústico inteligente empregue na monitorização de vida selvagem e bastante útil na deteção dos chamamentos característicos do primata.

Contudo, para o investigador, que trabalha neste projeto há sete anos, distinguir cada animal não é tarefa difícil. O conservacionista assegura que "eles são tão diferentes: vê-se a coloração, repara-se na cauda; além disso, os chamamentos entre eles são distintos, tornando tudo muito claro".

O contraste entre duas florestas

O trabalho levado a cabo em Khau Ca contrasta fortemente com o censo efetuado em Quan Ba, que outrora albergou a segunda maior população da espécie.

Os vigilantes em Quan Ba não avistam o animal desde 2020 e, no levantamento mais recente realizado em 2024, não foi encontrado qualquer sinal da sua presença, lamenta o diretor do programa.

O maior problema, sublinha o especialista, prende-se com a cultura de cardamomo na floresta. Sendo uma especiaria muito valorizada na alimentação e medicina, o cardamomo pode garantir bons rendimentos aos agricultores. Porém, o seu cultivo implica o desbaste de árvores para reduzir a densidade da copa e o corte de madeira para secar os frutos após as colheitas, degradando o ecossistema florestal do qual estes animais dependem para sobreviver.

Quando ali foi encontrada uma forte comunidade do primata em 2007, a Fauna & Flora implementou três equipas comunitárias na zona para auxiliar na proteção e vigilância. Mas, ao contrário de Khau Ca, Quan Ba não é uma área formalmente protegida, o que limita o raio de ação das organizações no que toca à gestão do habitat a longo prazo e à imposição de medidas restritivas.

Ainda assim, a instituição não desistiu de Quan Ba, mantendo um grupo de patrulha ativo no terreno. O responsável explica que "a área é tão vasta que a probabilidade de os avistar é muito reduzida", pelo que acreditam "que não desapareceram a 100%".

De momento, a organização não governamental está a criar corredores de vida selvagem a partir de Khau Ca, com a esperança de que um dia estes se interliguem com Quan Ba.

Canh Xuan Chu sublinha que "a biodiversidade no local é riquíssima, especialmente no que diz respeito a anfíbios e répteis".

O especialista deixa, no entanto, um aviso em tom de apelo, afirmando que "uma coisa é certa: se considerarmos esta a segunda área [para os macacos], teremos de reforçar as ações de proteção e tentar reduzir a presença humana no interior da floresta".

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