opinião
Diretor TVI Norte

Todos controlam todos

29 mar, 21:47

Hoje fizemos uma parte da estrada entre Lviv e Kiev para avaliar a segurança nesta viagem e os efeitos da brutal falta de combustíveis nesta região.

Seria uma reportagem simples, apenas com o risco de estarmos a viajar para uma zona menos segura. A primeira paragem, na óbvia bomba de gasolina que já não tinha gasóleo. O Nuno começou a recolher imagens e minutos depois tínhamos o gasolineiro irritado a dizer que não podíamos gravar ali. Tentámos perceber a razão, mas já estava a chegar a polícia que nos disse o mesmo porque poderia haver por ali alvos estratégicos. Já tínhamos as imagens e lá seguimos viagem. Pouco depois, nova paragem numa terriola na beira da estrada.

De imediato apareceu uma senhora que se dizia do elenco da comunidade politica local, que nos pediu a papelada e até já queria tirar fotografias ao meu passaporte. Conversa, mais conversa e lá nos fomos explicando. Já tínhamos as imagens e fizemos o que se faz nestas alturas…seguir caminho.

Uns bons quilómetros depois uma barricada de controlo. Não gravámos imagens como dizem as normas porque não podemos filmar militares sem autorização, mas percebemos que afinal não estava ninguém ali. Um espantalho com uma farda fazia de militar e iludia muito bem quem passava. Fizemos as imagens que vão poder ver nas nossas reportagens e lá fomos tranquilamente, rindo por não ter aparecido ninguém. Pouco depois, nova barricada e percebemos que estavam colocados capacetes em locais que iludiam perfeitamente a presença de soldados. Conseguimos fazer imagens, mas obviamente sem perder tempo. Estávamos a entrar no carro…e lá apareceu um senhor a pedir de novo toda a papelada. Foi assim mais uma dúzia de vezes até que resolvemos sair da estrada principal para ver um majestoso castelo. Na entrada uma placa com informação clara; proibido fazer fotos.

Estávamos prestes a desistir quando chegou um carro com um militar ao volante, uma mulher e duas crianças. Vieram ter comigo e não é que queriam falar, contar como é viver ali, como estão a resistir. Nem acreditei, mas não perdemos um segundo com a história do dia.

Terminámos a conversa, despedidas e desejos de boa sorte, mas logo a seguir chegou a polícia que não percebia de todo como é que nós estávamos ali. Bem tentei explicar, mas lá nos tiraram os passaportes e passaram largos minutos ao telefone. Voltaram para nos mandar em paz com a pergunta; Mas porque é que vocês jornalistas não ficam lá quietos em Lviv? Isto aqui não é para se andar a mostrar. Os russos estão a ver tudo. Não sei se estão, mas fiquei com a ideia que os ucranianos também estão a ver mesmo tudo e não facilitam em controlar todos os estranhos que se aventuram fora das grandes cidades.

A fechar a viagem a entrada em Lviv com uma mulher polícia a mandar parar.

Documentos e de onde são?

- Portugal !

-Portugal? Eu adoro Portugal e tenho lá a minha mãe em Viseu.

O nosso guia estava incrédulo com a simpatia da autoridade que só nos libertou depois de uma selfie aprumada para mostrar à mãe que passou por ali aquele senhor de cabelos brancos que agora está na TVI e na CNN.

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