Tutores podem sofrer tanto com a doença do animal de companhia como se de um humano se tratasse. Mas faltar ao trabalho por ter de prestar cuidados a um cão ou a um gato ainda não é bem visto pela sociedade. A lei também não protege este direito e toda a incompreensão gera uma "sobrecarga emocional"
"Continua a ser diferente perder o animal ou perder um pai, uma mãe ou um irmão, mas obviamente há um sofrimento que de alguma forma se assemelha a isso". A psicóloga Catarina Lucas descreve este sentimento no seguimento da morte de Roscoe, o cão de Lewis Hamilton que morreu a 29 de setembro, num caso que o piloto de Fórmula 1 foi partilhando com todos os seguidores.
O sete vezes campeão mundial na competição de automobilismo mais prestigiada do mundo era esperado em Mugello, Itália, para testar os pneus protótipo da Ferrari para 2026, mas falhou o compromisso quando soube que o estado de saúde de Ros (alcunha para Roscoe) se tinha agravado.
Primeiro uma pneumonia, depois as dificuldades em respirar e os sedativos para minimizar a aflição. Momentos a seguir, o coração parou e Roscoe entrou num coma. Perante a situação, Lewis Hamilton não hesitou em colocar a carreira em segundo plano, preferindo acompanhar todo o processo do animal.
“Para ele era muito mais importante estar ali junto do seu cão, que significava muito mais, do que estar a fazer um teste de pneus”, explica o biólogo e investigador na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) Ricardo Reis dos Santos. “Ele provavelmente sentir-se-ia culpado por não ter estado lá nos últimos momentos, que são irrepetíveis.”
O especialista reconhece que a relação humano-animal pode ser suficientemente forte para ter efeitos incapacitantes no tutor quando o estado de saúde do animal de companhia se fragiliza. “É exatamente como se fosse um humano, dependendo sempre do que é que aquele animal significa para nós”, sublinha.
“Não se pode tirar dias de assistência à família para animais de companhia e, não havendo empatia por parte do nosso chefe para compreender que há determinadas alturas em que nós precisamos de estar noutro sítio, passa a haver uma sobrecarga emocional”, realça Ricardo Reis dos Santos.
Em entrevista à CNN Portugal, explica que, de um ponto de vista social, a doença é “duplamente penalizadora”: “Se a morte já é desconsiderada, então a doença, ainda por cima uma que não tenha este desfecho de morte, mais desconsiderada é.”
“Se eu agora de repente tenho o meu filho muito doente, internado no hospital, eu abandono tudo e vou ter com o meu filho, tenho esse direito do ponto de vista jurídico.” Com um animal, por mais que o sofrimento seja equiparável, a pessoa não se encontra protegida pela lei, nem é alvo da mesma compreensão. “Se eu tenho um animal, eu não tenho esse direito a faltar ao trabalho, porque a doença em si é amplamente desvalorizada”, admite.
Apesar de tudo, a reação no humano é condicionada pela gravidade da doença que afeta o animal. Ricardo Reis dos Santos destaca a diferença entre uma doença aguda, quando falamos de algo espontâneo como um atropelamento, e uma doença crónica, que se consegue gerir ou que vai ter um desfecho fatal a curto prazo.
“O nosso aparelho psicológico reage de forma diferente a estas diferentes situações, mas todas elas vão envolver um grau de sofrimento emocional”, conclui.
“Se falamos de doença ou de morte, há sempre uma desautorização social para a forma como nós reagimos em relação àquilo que nós sentimos por um animal, porque aquilo que não está a ser valorizado é o animal enquanto animal", reitera.
O animal que já não conhecemos
A psicóloga Catarina Lucas considera desafiante, além da morte, o próprio trajeto da doença. “É o vermos o animal em sofrimento, vermos o deteriorar das suas condições clínicas e vermos que já não é exatamente o animal que nós conhecíamos.”
Nestes casos "há sentimentos de angústia", nomeadamente quando conhecem o seu destino final na eutanásia, "porque a decisão passa a ser do tutor e é ele que dá consentimento para que o procedimento seja feito.” É a partir daí que, segundo a especialista, “ao dono se imputa esta responsabilidade e tem de lidar com esse peso”.
Ricardo Reis dos Santos identifica as duas abordagens mais comuns quando um animal de companhia adoece. “Primeiro eu vou fazer tudo até ao fim para salvar este animal, quase como uma obsessão terapêutica”, descreve. "Depois percebo que há um momento em que esta obsessão vai trazer mais sofrimento do que benefício e tomo a decisão da eutanásia.”
“O que sabemos da investigação é que a reação de luto das pessoas que tomam a decisão da eutanásia, quando é ponderada e discutida com o veterinário, é muito menos intensa do que nos casos em que o animal acaba por morrer naturalmente. Mas a verdade é que há uma prevalência de um sentimento de culpa porque a pessoa pensa: ‘Não fui capaz de o salvar’”, explica.
Quando o momento do luto chega, os primeiros sintomas manifestam-se através de um sentimento de perda e a sensação de que algo podia ter sido feito de maneira diferente, adianta a psicóloga Catarina Lucas. Por norma, acabam por culminar numa culpa “que se arrasta” durante algum tempo.
Segundo o investigador da FMUL, se o tutor não optar pela morte medicamente assistida, é comum que a dúvida lhe assalte o pensamento depois de o animal morrer. “Se calhar fui longe demais, se calhar devia tê-lo poupado, se calhar provoquei mais sofrimento do que se tivesse optado pela eutanásia”, exemplifica.
Por estas razões, racionalizar a situação pode ser um bom mecanismo a adotar, quando as duas premissas do dilema se resumem a prolongar o sofrimento do animal ou aliviá-lo da sua dor. “Por norma, o processo da eutanásia é feito pelo melhor, quando o animal já tem uma taxa de recuperação muito baixa e já não há mesmo nada a fazer”, esclarece Catarina Lucas. Mas não é por isso que a decisão se torna mais fácil: “Do ponto de vista racional as pessoas têm consciência de que fizeram o melhor e tudo o que estava ao seu alcance, mas emocionalmente é como se tivéssemos sempre ficado aquém.”
No Instagram, Lewis Hamilton homenageou o seu companheiro: “Sinto-me tão grato e honrado por ter partilhado a minha vida com uma alma tão bonita, um anjo e um verdadeiro amigo. Trazer o Roscoe para a minha vida foi a melhor decisão que alguma vez tomei, e vou guardar para sempre as memórias que criámos juntos.”
“Apesar de já ter perdido a Coco [antiga cadela de Hamilton], nunca me tinha deparado com a decisão de ‘adormecer’ um cão antes. É uma das experiências mais dolorosas e sinto uma ligação profunda com todos os que passaram pela perda de um animal de estimação amado”, escreveu na mesma publicação.
O luto animal é um luto "desautorizado"
Para o biólogo Ricardo Reis dos Santos, se o luto é “uma resposta específica a uma perda significativa”, então é o “significado que um animal tem para determinada pessoa” que vai ditar o impacto desta morte. Ou pelo menos isto deveria ser razão suficiente para legitimar a tristeza que caracteriza o luto animal, segundo Ricardo Santos.
“Chamamos a isto o ‘luto desautorizado’, porque há uma incompreensão do que aquele animal significava para aquela pessoa em concreto”, resume. Este tipo de luto pode, em alguns casos, ser “mais intenso do que o luto pela perda de um humano”, já que o que está em causa “é o tipo de ligação que se estabelece com o outro, independentemente de ser humano ou não.”
O especialista relembra o projeto de lei apresentado pelo partido Pessoas Animais e Natureza (PAN) que prevê a justificação de faltas dadas pelo trabalhador quando motivadas “por morte de animal de companhia ou por assistência a animal de companhia”. “Uma tentativa de integrar o período de nojo que recebeu uma reação muito forte”, acrescenta, pela “componente de ser um animal, e, portanto, ‘valer menos’”.
Catarina Lucas alerta ainda para a situação das famílias unipessoais, que podem ser especialmente afetadas por este tipo de perda. “Para muitas pessoas esse é o único elemento da família, que os ajuda a combater a solidão e que, no fundo, é a companhia que está lá sempre”, adianta, explicando que “quando há esta perda, é uma brutalidade”.
Apesar de socialmente o luto animal ainda ser pouco aceite, Ricardo Reis dos Santos revela como a perda de um animal de estimação também pode ser irreparável. “Chego ao trabalho e digo ‘morreu o meu cão’ e estou a chorar baba e ranho, e dizem-me ‘mas é só um cão, arranjas outro’”, exemplifica. Pede-nos agora que imaginemos outra situação: “No serviço de obstetrícia nasce um bebé morto, e um médico diz: ‘eu sei que é chato, mas vocês ainda são muito jovens e têm muito tempo para outro’. Isto é dito com boas intenções, mas é uma agressão brutal àquelas pessoas que acabaram de perder o seu filho, e isso também acontece em relação aos animais, mas é tramado a sociedade compreender o que é que um animal significa para determinada pessoa.”
"Já não vemos os animais como um objeto do qual somos donos"
A utilidade de um cão, por exemplo, seja em contexto de caça ou na vigia da casa, deixou de ser a única prioridade para as famílias que decidem ter um animal de companhia. As funções que lhe eram antigamente atribuídas dão lugar ao companheirismo, à relação de afeto e de proximidade.
“Houve uma mudança na forma como nós nos relacionamos com os animais, sobretudo os ditos animais de companhia. Se antes eram só um animal - era só um cão, era só um gato - neste momento as coisas não funcionam assim: os animais foram trazidos para dentro de portas, passaram a estar dentro de casa, a partilhar a vida com o seu dono e a fazer parte da família”, refere Catarina Lucas.
Parte da explicação para o luto animal causar tantos danos emocionais também se prende com esta afinidade. Enquanto sociedade deixámos de os ver apenas como “o animal que está lá fora a quem se vai dando comida” e até em pormenores do léxico se nota esta mudança: “Foi alterado o conceito de ‘dono’, que passou a ser ‘tutor’, o que mostra, inclusivamente, uma alteração na própria relação. Ou seja, já não vemos os animais como um objeto ou uma coisa da qual somos donos.”
Já não se trata de uma “relação de propriedade”, mas sim de uma “relação de cuidado”. Ainda assim, “esta transformação não ocorre para toda a gente ao mesmo tempo”, acrescenta a especialista, esclarecendo que, “para quem não tem animais e não tem este tipo de vínculo, é mais difícil compreender o peso da perda”.