"Quero é que ele trate o Brasil com respeito", diz o presidente do Brasil, que acredita que, apesar das divergências políticas, poderá ter uma boa relação coo líder norte-americano
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva considera que a sua relação pessoal com o presidente dos EUA, Donald Trump, pode ajudar a atrair investimento americano para o Brasil, evitar mais tarifas e sanções e garantir o respeito pela democracia brasileira.
“Trump sabe que me oponho à guerra com o Irão, discordo da sua intervenção na Venezuela e condeno o genocídio que está a acontecer na Palestina”, disse em entrevista ao Washington Post publicada este domingo. “Mas as minhas divergências políticas com Trump não interferem na minha relação com ele enquanto chefe de Estado. O que eu quero é que ele trate o Brasil com respeito, entendendo que sou o presidente democraticamente eleito aqui.”
Para Lula, foi a falta de respeito que levou à acentuada deterioração das relações no ano passado. Depois de Trump ter imposto as tarifas e as sanções, Lula acusou-o de violar a soberania do Brasil e utilizou as aparições públicas para enviar uma mensagem: o Brasil estava disposto a dialogar sobre as suas diferenças com Washington, mas apenas se fosse tratado como um igual.
A sua abordagem em relação a Trump foi influenciada por uma lição que aprendeu com a sua mãe analfabeta, Lindu, explica: “Quem baixa a cabeça pode não conseguir erguê-la novamente. O Brasil tem muito orgulho naquilo que é. Não precisamos de nos curvar perante ninguém.” Esta atitude foi uma mudança drástica em relação à abordagem de Jair Bolsonaro, marcada pelo alinhamento ideológico com Washington e pela admiração declarada por Trump.
Lula diz ao Washington Post que não está a tentar criar atritos entre Trump e Bolsonaro. “Nunca pediria a Trump que não gostasse de Bolsonaro”, diz. “Não preciso de fazer qualquer esforço para que ele saiba que sou melhor do que o Bolsonaro. Ele já sabe disso.”
A verdade é que a relação entre os dois líderes melhoraram muito. Trump e Lula encontraram-se pela primeira vez, brevemente, na Assembleia Geral da ONU em setembro, dias depois da condenação de Bolsonaro. Desde então, encontraram-se mais duas vezes e falaram ao telefone quatro vezes. Trump tem elogiado Lula, chamando-lhe “dinâmico” e “inteligente”, e flexibilizou tarifas e suspendeu sanções contra o Brasil.
Este mês, Trump recebeu-o na Casa Branca: “Se consegui fazer Trump rir, também posso alcançar outras coisas”, disse ao The Washington Post na sua primeira entrevista à imprensa desde o encontro. “Não se pode simplesmente desistir.”
Os benefícios políticos internos tornaram-se evidentes. Muitos brasileiros viram o seu confronto com Trump como uma defesa da soberania. Numa sondagem realizada após a visita à Casa Branca, 60% dos brasileiros disseram que esta tinha sido “boa para o Brasil”.
Apesar disto, Lula afirma que continua profundamente preocupado com o rumo da política global e com o que considera ser uma erosão da cooperação multilateral. “Espero que Trump possa ser convencido de que os Estados Unidos podem desempenhar um papel muito mais importante no reforço da paz, da democracia e do multilateralismo”, diz o presidente do Brasil. “Será difícil? Sim. Mas se não acreditasse na persuasão, não estaria na política.”
Lula conta que entregou a Trump uma cópia do acordo nuclear de 2010 negociado entre o Brasil, a Turquia e o Irão, um acordo que foi rejeitado pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Queria mostrar a Trump, disse, que “não é verdade que o Irão esteja a tentar construir novamente uma bomba atómica”. Trump disse que iria ler o documento e Lula ofereceu-se para ajudar a facilitar o diálogo, mas não discutiram outros passos. Para Lula, a guerra contra o Irão demonstra o que considera serem os limites da abordagem confrontativa de Trump em relação ao mundo, que, segundo ele, começa a prejudicar os americanos com o aumento dos preços no consumidor. “Trump é responsável por isso”, diz.
Lula quer que Washington trate a região como um parceiro, não como um alvo. “A China descobriu e entrou na América Latina. Hoje, o meu comércio com a China é o dobro do meu comércio com os Estados Unidos. E essa não é a preferência do Brasil Se os Estados Unidos quiserem passar à frente da fila, “ótimo. Mas precisam de querer”, conclui.
