"Convencer um flamenguista a virar botafoguense"? Brasileiros não mudaram sentido de voto e Lula é favorito nas sondagens

30 out, 09:00
Debate entre Lula e Bolsonaro

Apesar das polémicas que causaram desconforto na campanha de Bolsonaro nos últimos dias, nota-se uma estabilidade no sentido de voto dos brasileiros, que já não tiram apoio ao candidato que escolheram para a segunda volta das eleições presidenciais. Lula da Silva, candidato do PT, é o favorito

Na sexta-feira, a dois dias da segunda volta das eleições presidenciais do Brasil, o salário mínimo dominava a campanha eleitoral. O tema foi um dos mais discutidos na reta final da campanha e voltou às manchetes dos jornais porque Paulo Guedes, ministro da Economia de Bolsonaro, quando prometia aumentar o limite dos rendimentos isentos do pagamento de impostos, frisou: "Eu, se fosse o Bolsonaro, diria: tudo o que o Lula fizer, eu faço mais. Por quê? Porque nós roubamos menos". Mesmo tendo corrigido imediatamente para um "nós não roubamos", as declarações de Guedes, na sede da Associação Comercial de São Paulo, causaram desconforto na campanha do atual presidente.

Mas não terão tido grande impacto nas intenções de voto dos brasileiros, que parecem pautar-se, nas últimas semanas, pela estabilidade. Na última sondagem da campanha, divulgada ontem, Lula da Silva (PT) tinha 52% dos votos válidos contra os 48% de Bolsonaro (PL), de acordo com o inquérito da Datafolha e do IPEC. E em todas as sondagens feitas pela Datafolha, no período de campanha eleitoral para a segunda volta das eleições presidenciais, Lula tem conseguido ficar à frente de Bolsonaro, ainda que o atual presidente tenha conseguido oscilações positivas e um crescimento da aprovação do seu governo.

Numa sondagem divulgada na passada quinta-feira, 27, pela Globo e pela Folha de São Paulo, Lula da Silva tinha 49% das intenções de voto, mantendo os números das sondagens de 7, 14 e 19 de outubro; Jair Bolsonaro, por seu lado, passou de 44% nas intenções de voto nas duas primeiras sondagens de outubro para 45% na terceira, tendo descido na quinta-feira, dia 27, para os 44%. 

Nem o episódio com Roberto Jefferson, ex-deputado brasileiro aliado de Bolsonaro, que atirou granadas e disparou contra agentes da Polícia Federal, parece ter causado grande alteração nas intenções de voto. "Mesmo com episódios que foram ruins para Bolsonaro, ele mantém os [eleitores] dele intactos, e Lula mantém os dele também", disse ao G1 a comentadora e jornalista Julia Duailibi. E ainda que, na terceira sondagem de outubro, se manifestassse uma "oscilação positiva para Bolsonaro", a jornalista admite que esta possa ter recuado por causa das declarações do ministro de Economia sobre o salário mínimo.

"Acho que a gente superestima o do Roberto Jefferson, apesar da magnitude dele, mas para o eleitor ali, o que eles acompanham é a vida real, a economia, salário mínimo", concluiu Duailibi. Antes de dizer que Bolsonaro "rouba menos", Paulo Guedes já tinha vindo anunciar que o governo estava a estudar desvincular o ajuste do salário mínimo do índice da inflação do ano anterior, o que poderia levar a perda de rendimentos; perante as reações negativas, o ministro da Economia veio garantir que o ajuste do salário seria, no mínimo, pelo índice da inflação. 

Uma "piscina parada"

"É uma piscina parada. O segundo turno inteiro, embora com muita agitação política, segundo as medições do Datafolha, é uma piscina que não se mexeu quase nada", defendeu a jornalista brasileira Natuza Nery, comentadora de política na GloboNews.

Mesmo com o debate de sexta-feira, dia 28, dois dias antes de abrirem as urnas, os brasileiros não deverão abandonar as suas convicções este domingo: "Se você já tem duas torcidas, acho que é muito difícil o Bolsonaro convencer o eleitor do Lula a votar nele, e o Lula o eleitor do Bolsonaro a votar nele. É a mesma coisa que convencer um flamenguista a virar botafoguense", considerou o comentador de política Otávio Guedes.

No último frente-a-frente, Bolsonaro e Lula trocaram acusações mútuas e cada um falou para o seu eleitorado durante as quase duas horas e meia de debate."O povo sabe quem é mentiroso e que você prometeu muita coisa e não cumpriu", disse Lula a Bolsonaro, que o acusou de só ter conseguido candidatar-se por ter "um amigo no supremo tribunal". 

A sondagem da AtlasIntel, por sua vez, divulgada também na quinta-feira passada, não mostra um retrato muito diferente das intenções de voto dos brasileiros: o ex-presidente Lula da Silva tem 53,2% dos votos válidos (que excluem brancos e nulos) e Jair Bolsonaro tem 46,8%.

No que diz respeito ao índice de rejeição, na segunda volta, como na primeira, Jair Bolsonaro é o claro vencedor. No agregador da CNN Brasil sobre as tendências de voto, Lula da Silva é rejeitado por 45% dos eleitores; no caso do atual presidente, o índice de rejeição sobe para 50%.

"O favoritismo é de Lula da Silva", admite Nelson Garrone, jornalista e comentador da CNN Portugal, que dá conta de que foi na faixa etária dos jovens entre os 16 e os 24 anos que mais subiu a preferência pelo candidato do PT. "Como saiu do poder há mais de 10 anos, consegue convencê-los de que é melhor do que o governo de Jair Bolsonaro", esclarece. "Eles não têm memória de vida de como foi o governo de Lula da Silva", conclui. 

O comentador da CNN Portugal lembra ainda que, de acordo com as sondagens mais recentes, mais de 90% dos brasileiros estão convictos do seu sentido de voto e não mudam de candidato "de jeito nenhum", garante. Nelson Garrone assinala também que subiu o interesse nas eleições presidenciais entre os brasileiros: na semana passada, 70% estavam interessados no ato eleitoral, número que subiu para 84% na semana do embate final entre Lula e Bolsonaro. 

Sudeste brasileiro pode definir resultado

O "grande definidor" das eleições presidenciais deverá ser o sudeste do Brasil: "É o maior colégio eleitoral e onde há percentual de indecisos muito forte", disse à CNN Rádio Renato Dolci, cientista político. "Em Minas Gerais, a votação está em aberto e o tracking interno das campanhas aponta que pode haver virada de Bolsonaro sobre Lula no estado", garante. 

Para o especialista, a melhor estratégia de campanha, nos últimos dias, seria apostar no eleitorado de indecisos, que estará entre os 6% e os 7% dos eleitores. "Isso é expressivo numa eleição tão apertada, de alguma forma isso liquidaria a campanha com mais facilidade", admite. Ainda assim, assinala que o debate está mais "reativo do que propositivo" e que ambas as partes têm procurado evidenciar os "escorregões" do outro lado, mais do que explicar propostas ou debater problemas que afetam o eleitorado brasileiro. 

E se a campanha de Lula da Silva entendeu, segundo a imprensa brasileira, que os últimos dias deviam ser aproveitados para falar sobre os "problemas reais da sociedade", como a economia e o salário mínimo, os estrategas de Bolsonaro procuraram, sobretudo, atenuar os momentos de agressividade do atual presidente. 

Já o especialista em marketing eleitoral Victor Trujillo considerou que a decisão para um terço do eleitorado nesta segunda volta das presidenciais brasileiras “parece ser semelhante a escolher entre morrer queimado ou morrer afogado”. “Um terço dos eleitores prefere o Lula, um terço prefere o Bolsonaro e um terço tem motivos para votar e também motivos para não votar nos dois”, admitiu Trujillo, em declarações à agência Lusa.

Este último terço é composto pelos chamados "orfãos" da terceira via política, que não vingou porque os brasileiros não encontraram uma figura consensual em torno da qual se conseguissem organizar para superar a atual polarização Lula/Bolsonaro. "Agora, no segundo turno, se viram diante de uma decisão que parece ser semelhante a escolher entre morrer queimado ou morrer afogado, pois têm que escolher entre o ‘menos pior’", ironizou o especialista em marketing eleitoral.

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