De escritora de canções a escritora de romances. Luísa Sobral publicou "Nem Todas as Árvores Morrem de Pé" e agora não vai parar

15 mar 2025, 18:00
Luísa Sobral (Lusa/António Pedro Santos)

"Um romance pode ser angustiante porque não conseguimos ver o fim. Aprendi com este livro que precisamos de ter muita calma, que é preciso deixar as coisas amadurecer, ir devagarinho. Sem pressa", conta Luísa Sobral em entrevista à CNN Portugal. A cantora publicou o seu primeiro romance e já está a escrever o segundo

No outro dia, Luísa Sobral participou num clube de leitura onde se discutiu o seu primeiro romance, “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”, publicado há cerca de um mês. “Foi a primeira vez”, conta, entusiasmada. Luísa Sobral está habituada a falar sobre os livros dos outros, fá-lo regularmente nas redes sociais. Ouvir o que as ouras pessoas dizem sobre o seu livro é uma novidade. “Quando escrevi estava muito embrenhada na história. E agora já tenho uma certa distância e estou a revisitar o livro pelos olhos dos outros, que me fazem perguntas, que reparam em pormenores e me levam a pensar no que escrevi, tem sido divertido.” Aos 37 anos, Luísa Sobral, conhecida sobretudo pelas suas canções, apresenta-se como romancista.

Tudo começou com uma notícia de jornal. “Os meus amigos estão sempre a mandar-me coisas. Muitas das canções que escrevo partem de notícias, de reportagens ou de histórias que me contam. E esta foi uma dessas”, recorda a cantora à CNN Portugal.  A notícia falava de um casal alemão, que veio morar para Vila Real, em Portugal, e mudou os seus nomes para Maria Feliz e José Feliz. “Gosto muito quando encontro ironia nas coisas. Eles decidiram suicidar-se juntos, o que, acredito, para eles foi um final feliz. Achei esta história muito inspiradora.” Luísa escreveu uma canção, “Maria Feliz”, mas não ficou satisfeita. “A canção não foi suficiente para falar sobre estas pessoas, elas queriam mais, queriam textos mais densos, mais extensos.” Pensando agora melhor, parece-lhe que o que a fez querer contar esta história foram as fotografias que viu da Maria Feliz. “Houve algo ali no olhar dela, na postura. Há algo muito mágico nela que me fez querer perceber o que é que aconteceu antes daquele fim.”

Ao início, começou a escrever uma peça de teatro. “Fiz teatro amador e há muito tempo que quero voltar a representar, então pensei, olha, já que ninguém me convida, vou escrever uma peça de teatro e vou representá-la eu.” Mas depois percebeu que, afinal, aquilo não era uma peça de teatro, mas um romance. Luísa Sobral escreve canções desde os 12 anos e até já tinha escrito histórias infantis, mas nunca tinha pensado escrever um romance. “Eu gosto muito de ler, leio muitos romances, e, talvez por ler tanto, tinha algum medo de me aventurar nos romances, porque pensava que já há pessoas a fazer isto tão bem que era um bocado assustador”, explica. Só que, como tudo aconteceu quase sem pensar, nem teve tempo para se assustar. “Este texto era uma peça que depois quis ser um romance sozinho, então acho que nem pensei muito ‘eu vou começar a escrever um romance’. E acabou por não ter essa carga toda.”

O ponto de partida era então a história desta mulher, vinda da Alemanha de Leste, que tinha tido uma história de amor em Itália e terminara a vida em Portugal. E que gostava muito de plantas e conhecia os seus muitos poderes medicinais. Estes eram os factos. Luísa Sobral não quis saber mais sobre aquelas pessoas. “Eu tinha de encontrar o que é que fazia sentido no meio desses pontos, como fazer a ligação. Mas não queria ficar condicionada, queria ser eu a pintar esses espaços em branco”, conta. Esse era o espaço para a ficção. Por outro lado, fez muita investigação sobre os locais e as épocas da sua história, isso pareceu-lhe essencial. Era importante que as personagens se comportassem de acordo com o seu tempo, que comessem a comida certa, que usassem a roupa adequada, que não houvesse erros históricos. Fez muita pesquisa também sobre as plantas e as suas propriedades. 

A determinada altura, sentiu que precisava de “mergulhar naquela história”. “Eu tenho quatro filhos, o mais velho tem oito anos e o mais novo tem dois. E continuo a ter a minha carreira na música. Ou seja, a minha vida familiar e a minha vida profissional são muito preenchidas e é muito difícil ter tempo, não é necessariamente o tempo físico, é mais o tempo emocional, de uma entrega a estas personagens.” Foi por isso que decidiu fazer um retiro de escrita, passar quatro dias longe de tudo, com a ajuda do professor Pedro Sena Lino. “Precisava de viver uns dias com estas pessoas, para conhecê-las bem.” Esse processo foi fundamental, permitiu-lhe não só conhecer a fundo cada uma das personagens como organizar a história, definir uma estrutura a partir da qual pôde continuar a trabalhar em casa.

A construção da história foi uma obra de arquitetura complicada. A história tem início pouco antes de Hitler ascender ao poder na Alemanha, atravessa todo o período da guerra fria, até à queda do muro de Berlim, e passa por Itália, antes de chegar a Portugal. A narrativa é construída com base em duas histórias paralelas, uma das quais, acompanha Emmi, nascida antes do início da Segunda Guerra Mundial, que se casa com um homem de Berlim Leste e vai viver para a RDA, até que a construção do muro e a separação da família a enterram numa profunda depressão. A outra história, acompanha M., nascida no Leste, já após a divisão da Alemanha, sem saber nada do que se passa no Ocidente. A queda do Muro de Berlim será determinante para estas personagens. Entre uma história e outra existem as cartas de uma personagem masculina, Mischa. A autora divertiu-se a mostrar perspetivas diferentes sobre um mesmo acontecimento e a imaginar as relações entre as personagens. E, sem querer revelar muito da história, explica: "As pessoas não são boas ou más, são mais complexas do que isso. As pessoas que cometem crimes horríveis também se apaixonam e têm famílias. Como leitora, gosto quando os escritores me fazem duvidar dos meus próprios princípios." 

Pelo meio há pequenos pensamentos, quase-poemas, quase-canções, que assinalam a transição dos capítulos. "Essas frases deram-me muito gozo de fazer, porque aconteceu-me o que acontece muito com as canções, que é eu ir para a cama com essas frases e estar ali com elas, a colocar a palavra para a frente, depois a palavra para trás. Estou imenso tempo a jogar com as palavras, a brincar com elas, até chegar àquela formulação final."

Luísa costuma dizer que a gestação do livro demorou nove meses, como a dos bebés. Mas na verdade a gestação foi mais longa. A cantora decidiu entregar o texto à editora Maria do Rosário Pedreira, da D. Quixote, porque sabia que dela teria sempre uma resposta honesta. “Sabia que alguém do mundo das artes teria facilidade em lançar um livreco, mas eu não queria lançar um livreco”, contou a cantora, na apresentação de “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”, no Instituto Goethe, em Lisboa. Quando recebeu o manuscrito, Maria do Rosário Pedreira conseguiu “identificar imediatamente um estilo", contou a editora nessa mesma sessão. "Não era mais uma escritora a escrever no presente e na primeira pessoa. Tinha uma linguagem rica, poética e com um léxico literário. As personagens tinham densidade, complexidade. O texto revelava criatividade, a autora é curiosa, não tem preguiça, investiga, experimenta diferentes estilos. É uma primeira obra admirável”, disse, elogiando Luísa Sobral “ por ter tido a coragem de sair da sua zona de conforto”. O trabalho de edição prolongou-se por três meses. Maria do Rosário Pedreira fazia perguntas, apontava contradições, levantava caminhos. O livro ganhou consistência. “Saiu-me das entranhas, foi duro, mas estou orgulhosa”, concluiu Luísa Sobral. Um ano depois, tinha o seu primeiro romance pronto.

“Sou muito obsessiva. Houve um período em que quase não dormia. Estava muito ansiosa, sonhava com aquelas personagens”, conta Luísa Sobral. “Escrevo canções desde os 12 anos. Uma canção escreve-se depressa. Um romance pode ser angustiante porque não conseguimos ver o fim. Aprendi com este livro que precisamos de ter muita calma, que é preciso deixar as coisas amadurecer, ir devagarinho. Sem pressa. Às vezes a personagem decide ir para um sítio e isso quer dizer que vou ter de estudar mais não sei quantas coisas. E está tudo bem."

Este foi um ensinamento que passou a aplicar também na sua vida. "Por exemplo, há já algum tempo que não lanço um disco e geralmente estaria num stress enorme por causa disso. Mas o livro ensinou-me a respeitar o meu tempo. Há uns tempos, no meu podcast entrevistei o Fausto e ele disse uma coisa muito importante: a pessoa criativa é como um campo de cultivo e temos de respeitar o período de cultivo e o período de pousio. Guardei essa ideia, é mesmo verdade, nós precisamos de um período de pousio para depois estarmos mais férteis.”

Neste momento, Luísa Sobral já está a escrever um segundo romance, inspirado na experiência que tem a cantar nos cuidados paliativos de um hospital. “Tem sido muito transformador. O livro partiu deste meu contacto com a morte e com a quase-morte e de pensar que temos todos muito medo disto mas pode ser uma transição muito bonita”, conta sobre esta nova aventura.

Ao mesmo tempo que escreve, continua a desdobrar-se em entrevistas sobre o livro que lhe parece já tão antigo, continua a fazer concertos, a falar nas redes sociais sobre os livros que vai lendo, a levar os filhos à escola e à piscina, a sentir-se inspirada com tudo o que lhe acontece. “Fui ver o filme sobre o Bob Dylan, ‘A Complete Unknown’, e fiquei com muita vontade de pegar na guitarra e escrever canções. Tenho sentido falta de passar tempo sozinha com os meus instrumentos.” 

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